Sumário
Teatro cómico português ou Colecção das óperas portuguesas, tomo I: Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança ; Esopaida ou Vida de Esopo; Os encantos de Medeia; Anfitrião ou Júpiter e Alcmena (1744)
Ano
1744
Localização

Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (2-24-2-16)

Impresso
Lisboa, na Régia Oficina Silviana e da Academia Real, 1744

Teatro cómico português ou Colecção das óperas portuguesas

Teatro cómico português ou Colecção das óperas portuguesas , que se representaram na Casa do Teatro Público do Bairro alto de Lisboa, oferecidas à muito nobre senhora Pecúnia Argentina, por ***

 

Tomo primeiro

Contém:

 Vida de D. Quixote de la Mancha

 Esopaida ou Vida de Esopo

 Os encantos de Medeia

 Anfitrião ou Júpiter e Alcmena

 

Lisboa, na Régia Oficina Silviana e da Academia Real, 1752.

Com todas as licenças necessárias e privilégio real.

 


 

Ao leitor desapaixonado:

Contigo falo, leitor desapaixonado, que se o não és, não falo contigo, pois nem quero adulação dos amigos, porque o são, nem é justo que os que o não são queiram ser árbitros para sentenciarem estas Obras no tribunal da sua crítica. Não há melhor ouvinte que um desapaixonado, sem afecto ao autor da Obra, sem inclinação ao da música, sem conhecimento do arquitecto da pintura, aquele que nem a amizade lhe franqueia a entrada nem a vizinhança do teatro lhe facilita o regresso; aquele que instigado só da curiosidade a expensas do seu pecúlio entra com ânimo livre de paixões, este sim (não sendo estulto por natureza) é o verdadeiro ouvinte no teatro e leitor nos papéis. Com estes é que eu falo, pois só a estes se dirigem estas Obras

 


porque, sendo a sua censura despida de afectos de amor e ódio, saberá desculpar os erros com sinceridade, saberá discernir a dificuldade da Cómica em um teatro, donde os representantes se animam de impulso alheio; donde os afectos e acidentes estão sepultados nas sombras do inanimado, escurecendo estas muita parte da perfeição que nos teatros se requer, por cuja causa se faz incomparável o trabalho de compor para semelhantes interlocutores, que como nenhum seja senhor de suas acções não as podem executar com a perfeição que devia ser, por este motivo surpreendido muitas vezes o discurso de quem compõem estas Obras deixa de escrever muitos lances, por se não poderem executar.

Saberá o mesmo leitor desapaixonado não desprezar por menos polida a frase que no contexto de semelhantes Obras se requer, pois muito bem conhece que no Cómico se precisa um estilo mediano, que co-

 


mo a representação é uma imitação dos sucessos que naturalmente acontecem, também a frase deve seguir o mesmo preceito, fazendo diferença que o estilo sublime e elevado a que chamaram os Romanos Coturno só se permite nas tragédias, em que se trata de coisas graves e nimiamente sérias, como acções e obras heróicas de princípes; na comédia, porém, há de ser o estilo doméstico, sem afectação de sublime, a que chamam Socco, por se representar nela matérias de enredos femenis e acções amorosas, estes preceitos aponta Horácio na sua Arte Poética:

Versibus exponi tragicis  res comica non vult:

Indignatur item privatis, ac prope socco

Dignis carminibus, narrari cana Thyesta.

Singula quaque locum teneant sortita decenter.

E como os émulos por inimigos, os parciais por afectos e os ignorantes por néscios não sabem distinguir estas circunstâcias e só tu, leitor douto e desapaixonado, judiciosamente refle-

 


ctindo no que leres e ouvires representar, formarás o conceito, que merecerem estas Obras, que para teu divertimento se oferecem ao público.

Bem conheço que nelas acharás muitos defeitos; porém, como não pretendo utilizar-me dos teus aplausos nem singularizar-me nos meus escritos, te peço que nestas Obras atendas somente ao desejo que tenho de agradar-te e vejas [que] não quero outro prémio mais que o que te peço nestas.

 


Advertência do colector

 

Leitor, foi tão grande o aplauso e aceitação com que foram ouvidas as óperas que no Teatro público do Bairro Alto de Lisboa se representaram desde o ano de 1733 até o de 1738 que não satisfeitos muitos dos curiosos com as ouvirem quotidianamente repetir passavam a copiá-las, conservando ao depois estas cópias com uma tal avareza que se faziam invisíveis para aqueles que desejavam na leitura delas uns apagar o desejo de as lerem pelas não terem ouvido, outros renovar a recreação com que no mesmo teatro as viram representadas. Por satisfazer ao desejo de uns e outros, tomei a empresa de as ajuntar e fazê-las imprimir com o título de Teatro cómico português, para que com facilidade e sem o dispêndio que as cópias manuscritas fazem pudessem todos gozar de umas Obras tão apetecidas por singulares. Estou persuadido que te não há de ser desagradável esta minha Colecção, porque, além de te satisfazer o desejo, sirvo à pátria, publicando umas Obras que, segundo as leis da composição dramática, são as primeiras que deste género se têm escrito no nosso idioma. Algumas comédias se

 


liam impressas, como as de António PrestesVicente, António RibeiroSebastião Pires e Simão Machado, compostas em verso. Publicou Jorge Ferreira em prosa a Eufrosina, a Ulissipo e a Aulografia. Saiu à luz Francisco de Sá e Miranda com a intitulada Os estrangeiros e Vilhalpandos, e D. Francisco Manuel com as duas a que deu por título O labirinto da fortuna e Os segredos bem guardados, sem nos esquecermos também das duas do nosso Luís de Camões, que andam impressas no fim das suas Obras. Porém, todas estas, umas pelo diverso génio dos tempos, outras pela sua informe disposição e dilatada contextura, serviam aos curiosos mais de fastio que de recreio. Nestas, que agora te ofereço por benefício da impressão, acharás, pelo contrário daquelas, uma suave e natural disposição das partes, o carácter  dos sujeitos sustentado sem decadência, a locução própria a cada um dos interlocutores e o joco-sério tão temperadamente honesto que não ofende com a graça os ouvidos e tão vivo que se não encontra semelhante em o nosso idioma, e não sei também se dissera nos das nações estranhas, o que confessariam, não sem inveja, se fossem ainda vivos, Moreto entre os espanhóis, Moliére entre os franceses e Nicolau Amenta entre os italianos.

Ofereço-te, por agora, dois tomos, e

 


contém o primeiro a História de D. Quixote, a Vida de Esopo, Encantos de Medeia, e o Anfitrião; no segundo OLabirinto de Creta, Guerras de Alecrim e ManjeronaAs variedades de Proteu e Precipício de Faetonte. No terceiro tomo, que sairá com brevidade, te darei a ler As firmezas de Proteu e acasos do seu amor,Adriano em SíriaSemiramis e Filinto perseguido e exaltado; no quarto Adolónimo em Sidónia, Endimião e DianaOs amores de Pam e a ninfa Sirinx e, ultimamente, a de D. Rodrigo. Se experimentar o teu agrado, continuarei este Teatro com as óperas, que se representaram no do Bairro da Mouraria desta cidade e com outras de teatros particulares, que todas tenho em ordem para se poderem imprimir sucessivamente nos mais tomos, os quais hão de conter quarenta e oito óperas portuguesas, que são todas as de que tenho notícia.

 

                                  Vale.

 


Privilégio

Dom João, por graça de Deus, rei de Portugal e dos Algarves, d'aquém e d'além mar em África, senhor de Guiné, etc., faço saber que Francisco Luís Ameno me representou por sua petição que ele se achava imprimindo dois tomos de comédias portuguesas com o título de Teatro cómico português, as quais se tinham representado na casa do Teatro público do Bairro Alto, e com o mesmo título havia de continuar mais volumes; e porque na referida impressão tinha feito considerável despesa e ainda havia de fazer na continuação dos mais volumes e receava que lhe imprimisse outrem a referida Obra, no que se lhe seguia grave prejuízo, pedindo-me lhe fizesse mercê conceder-lhe privilégio para que nenhum livreiro, impressor ou outra qualquer pessoa pudesse imprimir, vender nem mandar vir de fora do reino a dita Obra, atendendo ao prejuízo que do contrário se lhe seguia ao suplicante e debaixo das penas costumadas; e visto seu requerimento, informação que se houve pelo Corregedor do Cível da cidade, Simão da Fonseca de Sequeira, e resposta do meu Procurador da Coroa, a que se deu vista, que não teve dúvida a este requerimento, hei por bem fazer mercê ao su-

 


plicante de lhe conceder  o privilégio de que faz mênção, por tempo de dez anos, para que durante eles nenhum impressor, livreiro nem outra qualquer pessoa possa imprimir, vender nem mandar vir de fora do reino os dois tomos referidos, sem licença do suplicante, sob pena de perder todos os volumes que lhe forem achados para o mesmo suplicante e de pagar cinquenta cruzados, metade para o acusador e outra para minha Câmera Real. E esta provisão se cumprirá como nela se contém, que valerá, posto que seu efeito haja de durar mais de um ano sem embargo da ordenação do livro segundo, título primeiro, em contrário. E pagou de novos direitos quinhentos e quarenta réis, que se carregaram ao tesoureiro deles, a folhas trezentas e quarenta e cinco do livro quarto de sua receita, e se registou o conhecimento em forma no livro oitavo do registo geral, a fólio 155 verso. El rei, nosso senhor, o mandou por seu especial mandado, pelos desembargadores António Teixeira Álvares e José Vaz de Carvalho, ambos do seu Conselho e seus desembargadores do paço. Francisco Xavier da Cunha a fez em Lisboa, a 27 de Dezembro de 1743 anos; de feitio desta duzentos réis; António Pedro Vergolino a fez escrever.

 

Gregório Pereira Fidalgo da SilveiraJosé Vaz de Carvalho 


 Por resolução de sua majestade de 28 de Setembro de 1743 em consulta do Desembargo do Paço.

 

José Vaz de Carvalho

 

Pagou quinhentos e quarenta réis e aos oficiais trezentos e catorze réis. Lisboa, 13 de Fevereiro de 1744.

 

D. Sebastião Maldonado 

 

Registada na Chancelaria-mor da Corte e Reino, no livro de ofícios e mercês, a folhas 235. Lisboa, 13 de Fevereiro de 1744.

 

António Lopes da Costa

 

Licenças do Santo Ofício

 

Censura do mui reverendo padre mestre Fr. Francisco de Santo Tomás, qualificador do Santo Ofício, etc.

 

Eminentíssimo e reverendíssimo senhor,

 

Estas farsas, que reduzidas a dois volumes com o título de Teatro cómico português, quer mandar imprimir Francisco Luís Ameno, já foram expostas ao divertimento público, umas na estampa e todas nos teatros desta corte com grande satisfação dos seus moradores, e nenhum inconveniente há em que juntas agora se divulguem novamente e eternizem no prelo, porque ainda que o sal dos escritos deste género com que seus autores os costumam temperar, para brindarem ao palato dos que não gostam de outros, degenere, às vezes, em corrupção de costumes, aqui não sucede assim, porque o sal destes escritos foi com muita arte extraído dos mares da eloquência, dentro das margens da modéstia, e sem redundância fora dos limites da religião cristã.

 


Este o meu juízo. Vossa eminência reverendíssima mandará o que for servido. S. Domingos de Lisboa, 8 de Março de 1743.

 

Fr. Francisco de Santo Tomás 

 

Vista a informação, podem imprimir-se os papéis de que se trata, e depois de impressos tornarão para se conferir e dar licença que corram, sem a qual não correrão. Lisboa, 9 de Março de 1743.

 

Fr. R. de Alencastre     Teixeira      Silva    

Soares       Abreu 


Do Ordinário

 

Censura do mui reverendo padre mestre D. José Barbosa, prepósito da Casa de Nossa Senhora da Divina Providência de Clérigos Regulares, cronista da Sereníssima Casa de Bragança, examinador das três ordens militares, e sinodal do Patriarcado, e académico do número da Academia Real.

 

Excelentíssimo e reverendíssimo senhor,

 

Por ordem de vossa excelência, vi as comédias portuguesas que pretende imprimir Francisco Luís Ameno e me parecem que se lhe pode dar a licença, porque não têm coisa alguma contra a fé ou bons costumes. Lisboa, nesta Casa de Nossa Senhora da Divina Providência de Clérigos Regulares, 6 de Abril de 1743.

 

D. José Barbosa C. R.

 


Vista a informação, podem-se imprimir os papéis de que se trata, e depois de impressos tornarão para se conferir e dar licença para que corram. Lisboa, 6 de Abril de 1743.

 

Dantas

 

Do Desembargo do Paço

 

Que se possa tornar a imprimir, vistas as licenças do Santo Ofício e Ordinário, e depois de impresso tornará a esta Mesa para se conferir e taxar e dar licença para correr, sem a qual não correrá. Lisboa, 7 de Junho de 1743.

 

Pereira    Teixeira     Vaz de Carvalho     Costa 


Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança

 

Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança, ópera que se representou no Teatro do Bairro Alto de Lisboa, no mês de Outubro de 1733.

 


Aparato do teatro e sua fábrica

 

Um carro com várias figuras dentro

Uma capoeira sobre um carro, em que irá um leão que sai fora a seu tempo

Um carro em que vem Dulcineia e várias figuras

Dois cavalos, um de D. Quixote e outro de Sansão Carrasco

Dois burros, um para Sancho Pança e outro para uma saloia

O Monte Parnaso com as musas, Apolo e o cavalo Pégaso

Um barco

Um cavalo que vem pelo ar e se lhe põem fogo

Uma nuvem

Um porco

 


Interlocutores:

Dom Quixote

Sancho Pança

A sobrinha de D. Quixote

A ama do mesmo

Teresa Pança, mulher de Sancho Pança

Uma filha do mesmo

Um tabelião vestido como almocreve

Uma saloia em um burro

Sansão Carrasco

Seu criado

Um diabo que vem no carro

Outro diabo com muitos cascavéis

Um homem que vem com o leão

Belerma

Montesinos

Um que está na cova

Calíope, que vem na nuvem

Apolo e as musas

Dois homens que são do moínho

Dois homens do barco

Um fidalgo

Uma fidalga


Um meirinho

Um escrivão

Dois homens que tocam rebecas

Um homem que toca rebecão

Um médico

Um cirurgião

Um taberneiro

Uma mulher moça com manto

Uma mulher velha, em corpo, sem manto

Um escudeiro

A condessa das barbas

Dois embuçados

Dois homens para a audiência

 


Esopaida ou Vida de Esopo

Esopaida ou Vida de Esopo, ópera que se representou no Teatro do Bairro Alto de Lisboa, no mês de Abril de 1734.

 


Interlocutores:

Cresso, rei de Lídia

Xanto } filósofos

Zeno }

Periandro, discípulo de Xanto, amante de Filena

Énio, discípulo de Xanto

Temistócles, senador

Filena, filha de Xanto

Eurípides, mulher de Xanto

Geringonça, criada de Eurípides

Esopo, filósofo

Soldados e coro

 


Os encantos de Medeia

Os encantos de Medeia, ópera que se representou no Teatro do Bairro Alto de Lisboa, no mês de Maio de 1735.

 


Interlocutores:

Jason, sobrinho d'el rei de Tessália, sucessor do mesmo

           reino

Teseu, companheiro de Jason

Rei de Colcos

Telemon, general e ministro d'el rei de Colcos 

Medeia, princesa de Colcos

Creusa, sobrinha d'el rei de Colcos

Arpia, criada de Medeia

Sacatrapo, criado de Jason

Guarda de archeiros

Soldados

Coro

 


Anfitrião ou Júpiter e Alcmena

Anfitrião ou Júpiter e Alcmena, ópera que se representou no Teatro do Bairro Alto de Lisboa, no mês de Janeiro de 1736.

 


Interlocutores:

Anfitrião, marido de Alcmena

Júpiter, marido de Juno

Mercúrio, criado de Júpiter

Tirésias, ministro de Tebas

Polidaz, capitão tebano

Saramago, criado de Anfitrião, gracioso

Alcmena, mulher de Anfitrião

Juno, mulher de Júpiter

Iris, criada de Juno

Cornucópia, velha, criada de Alcmena

 

A cena se representa em Tebas.

 


Protestação do colector

As palavras deuses, númen, fado, divindade, omnipotência e soberania, se devem somente entender no sentido poético e não de nenhuma outra maneira, porque somente se usa delas nestas Obras como necessárias para adorno da composição dramática e expressão dos episódios cómicos e não com intenção de ofender em coisa alguma aos dogmas da Santa Madre Igreja, a quem, como obediente filho, me sujeito em tudo o que ela determina.

 

 

 

 

 

 

 

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