- Sumário
- Requerimento para impressão da tragédia Electra, com o parecer do censor régio (7 de Agosto e 5 de Outubro de 1798)
- Ano
- 1798
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 36, nº 20 (b)
Lisboa a 7 de Agosto de 1798
Negrão
Henriques
Senhora
Diz Manuel António Monteiro que elle suplicante pretende imprimir a tragédia inclusa cuja já obteve as licenças juntas e como para haver de a imprimir precisa do beneplácito de vossa majestade, portanto
pede a vossa majestade seja servida conceder ao suplicante a pedida licença na forma do estilo.
Espera receber mercê
Imprimia-se por depacho de 5 de Outubro de 1798
Senhora
Nada acho nesta tragédia que a faça indigna de sair à luz. É, contudo, verdade que ela não espalha pela nossa nacional literatura algum brilhante resplendor, mas também é certo que a
não escurece. O seu assunto é tirado da História grega, ou fabulosa ou verdadeira, e deu exercício à musa trágica de Sófocles. Também no nosso século foi feliz e sublimemente tratado pelo francês Crebilhão. Estas duas tragédias denominadas ambas Electra que têm merecido os aplausos de todo o mundo erudito levam tanta vantagem à Electra que pretende imprimir o suplicante quanta ela a quase todos os dramas portugueses que correm impressos e que se
Entretanto, se eu me visse obrigado a analisá-la mostraria os seus defeitos e as suas belezas, algumas das quais não são de própria invenção
Primeiramente, o autor observa à risca as três unidades de lugar, tempo e acção, indicadas nestes versos de Boileau: Qu’en un lieu, qu’en un jour, un seul fait accompli / tienne jusqu'à la fin le théâtre rampli.
A unidade do lugar se acha exactamente guardada porquanto toda a acção
Com a mesma pontualidade observa o nosso poeta a unidade de tempo, pois que a acção principal e todas as circunstâncias que a acompanham podem
Além da exacta observância destas unidades não se descuida o nosso poeta da expressão de costumes que é o fundamento de tudo e tem tanta força que obriga os espectadores a assistir à representação do drama desde a primeira até à última cena, como diz Horácio na sua Poética: «si plausoris eges aulaea manentis et usque /
Sessuri donee cantor vos plaudite dicat / aetatis cujusque notandi sunt tibi mores».
Ora quem haverá que lendo esta tragédia não se capacite logo de que Egisto é um verdadeiro tirano, Electra uma princesa altiva e de carácter forte, que não veja em Pílades o retrato de um completo amigo, em Orestes a pintura viva dum mancebo filópatro, valente, audaz e vingativo?
Igualmente não é o nosso poeta
«Nec pueros coram populo Medea trucidet;.
Aut humana palam coquat exta nefarius Atreus;.
Aut in avem Progne mutatur,
Neve minor quinto meu sit productior actu
Nec Deus intersit...
Nec quarta loqui persona laboret».
Em primeiro lugar, é certo que nesta tragédia não se ensanguenta o
«multaque tolles
ex oculis, quae mox narret facundia praesens».
Além disto,
Também é certo que a solução do seu enredo é natural e tirado da mesma fábula sem para ela ser precisa a intervenção de alguma divindade.
Enfim, quase todas as suas cenas constam de dois até três interlocutores exceptuando a 6ª do acto 3º e a 3ª e 6ª
do acto 2º, enfim a última do 5º; contudo, é certo que a 2ª pessoa pouco fala, ou quase nada.
Tenho mostrado que o nosso poeta é pontual observador de todos estes preceitos, mas nem por isso é admirável a sua tragédia; e por esta razão não é boa nem jamais será apontada como modelo dos poemas deste género; porquanto à poesia, também se deve aplicar o que Cícero diz da Eloquência: «Eloquentiam quae
admirationem non habet nullam judico».
Esta admiração, todavia, não provém da observância dos preceitos da Arte porque isso é efeito do cuidado e do estudo, mas sim da majestade da locução, da pomposa harmonia do metro, sa sublime elevação dos pensamentos, das situações teatrais que suspendem os espectadores, enfim daqueles grandes ornamentos que caracterizam o alto coturno, que não nascem da arte e que são ma
ravilhosos partos dum génio fecundo e amplo; estes são, sem dúvida alguma, os que distinguem os poetas, estes os que lhes dão nome, estes são os que lhes contituem todo o mereciemnto. estes são, enfim, os que arrebatam os espectadores e os obrigam a testemunhar a sua admiração com reiterados vivas e repetidos aplausos. Por esta razão poderá o nosso poeta livremente dizer:
«Vitavi denique culpam
Non Laudem Merui».
Ora, apesar do que diz a nota a pag. 1. eu assento que a versificação desta tragédia nada tem de sublime, nada de harmoniosa, ao menos para os meus ouvidos, talvez que pouco musicais, contudo sempre assevero que nela encontro versos triviais e rasteiros e marcados mais com o cómico que com trágico cunho, é certo que
«Indignatir item privatiis ac prope socco
dignis carminibus narran coena Thyestae».
Ainda mais: as duas situações teatrais, a primeira da cena 6ª do acto 1º, em que Electra, colérica e furiosa, se abalança a cravar o punhal no peito do próprio irmão julgando matar o seu suposto assassino, e a segunda da cena 3ª do acto 4, aonde se admira o heróico combate de amizade entre Pílades e Orestes, são verdadeiramente grandes e arrebatadoras; porém, o autor as não inventou, apesar do que diz a mesma citada nota, são imitadas, para não dizer furtadas.
Porquanto a primeira é um transupto fiel da cena 2ª do acto 3º da Mérope de Voltaire, na qual já se vê brilhar na mão daquela soberana o fatal ferro com que pretendia despojar da vida a Egisto, seu próprio filho, pensando matar o que supunha seu homicida. A segunda é também uma exacta cópia da cena 2ª do acto 2º do Heraclio de Cornélio, aonde se representa sem diferença alguma o mesmo idêntico combate d’amizade entre Marciano
e Heraclio. Além disto, na Ifigénia em Tauride, do grego Sófocles, há outra igual contenda entre os mesmos Pílades e Orestes, donde é bem crível que tivesse a ideia o mencionado trágico francês.
Enfim, senhora, apesar de quanto tenho dito a respeito desta tragédia sempre me parece justo que vossa majestade conceda ao suplicante a licença que pede para a fazer imprimir porque, se não honra, também não desacredita a nossa na
cional literatura.
Vossa majestade, contudo, mandará o que for servida.
Lisboa, 5 d’Outubro de 1798
Francisco Xavier d’Oliveira
Senhora
Manda a Rainha Nossa Senhora que o Cençor Regio
Francisco Xavier de Oliveira veja este livro e com seu
parecer o remeta a esta Meza Lx.ª a 7 de Agosto de
1798
Negrão Henriques
Diz Manoel Antonio Monteiro
que elle suplicante pertende impremir a tragédia in=
cluza cuja ja obteve as licencas juntas e como pª ha=
ver de a impremir preciza do Beneplacito de V. Magde
portanto
P a V. Magde
seja servida conceder ao supte
a pedida Licença na forma do
estillo
Imprime por depº de 5 de 8bro de 1798
E. R .M.
Senhora
Nada acho nesta Tragedia que a faça
indigna de sahir à luz. He contudo, ver=
dade que ela não espalha pela nossa
Nacional Literatura algu’ brilhante res=
plendor, mas tãobem he certo que a
não escurece. O seu assumpto he tirado
da Historia grega, ou fabulosa ou verda=
deira e dêo exercicio à Muza Tragica
de Sophocles; tãobe’no nosso seculo foi fe=
liz e sublimemente tratado pelo Francez
Crebilhão. Estas duas Tragedias de=
nominadas ambas Electra, que tem
merecido os aplausos de todo o mun=
do erudito, levão tanta vantage’
m a Electra que pretende imprimir
o supplicante, quanta ella a qua
se todos os Dramas Portuguezes
que correm impressos, e que se
tem pôsto em scena nos nossos Theatros,
exceptuando, todavia, a Osmia, o Priamo,
e Mezencio que ha pouco tempo se im=
primirão com licença de V. Mag.de; pe=
la qual rasão, tendo a Electra do
supplicante igoal mereceimento,
parece que tem todo o direito para
exigir de V. Magde aquella mesma
graça.
Entretanto, se eu me visse obri=
gado a analisa-la mostraria os seus
defeitos e assuas bellesas, alguas das
quaes não são de própria invenção
mas sim de alhea imitação. Contu=
do, sempre direi à respeito della al=
gua cousa, ao menos para mostrar
que a li, e examinei.
Primeiramen=
te o Author observa à risca as três u=
nidades de lugar, tempo e acção, in=
dicadas nestes Versos de Boileau:
Qu’en un lieu, qu’en unjour, un seulfait accom
pli,
Tienne jusqu’ alafin le theatrerampli.
A u=
nidade do lugar se-acha exactamen=
te guardada, porquanto toda a acc=
ão se passa no Templo, em que
Egisto pertendia solenisar o anni=
versario da morte de Agamenon,
sem nenhua mutação de scena;
dêste preceito são transgressores
quasi todos os Dramaticos Caste=
x os Portuguezes lhanos, x, á sua imitação, e alguas vezes
Metastacio.
Com a mesma
pontualidade observa o nosso Poeta
a unidade de tempo; pois que a acc=
ão principal e todas as circustan=
cias, que a acompanham podem
muito verosimilmente succeder
dentro das vinte quatro horas, ter=
mo prefixo para a sua duração;
este preceito tão bem he assas illu=
dido pelos Poetas, que acima a=
pontei, porque ha inumeraveis
dramas assim Castelhanos, co=
mo Portuguezes, cuja acção du=
ra anos inteiros, absurdo insupor=
tavel. Do mesmo modo se acha nes=
ta Tragedia observada a unidade da acção;
que vem a ser unicamente o a=
dultero, e assassino Egisto sacrifi=
cado por Orestes aos manes de seu
pae Agamenon.
Além da exacta
observancia destas unidades não
se descuida o nosso Poeta da ex=
pressão de costumes que he o funda=
mento de tudo, e tem tanta for=
ça, que obriga os Espectadores a
x do Drama assistir a representação x desde a pri=
meira athe a ultima scena, co=
mo diz Horacio na sua Poeti=
ca:
si plausoris eges aulaea manen
tis et usque
Sessuri donee cantor vos plaudite dicat
aetatis cujusque notandi sunt tibi mores
Ora que’
havera que lendo esta Tragedia,
não se capacite logo de que Egis=
to he hu’ verdadeiro tiranno; Elec=
tra hua Princesa altiva e de ca=
racter forte, que não veja em
Pilades o retrato de hu’ completo
amigo, em Orestes a pintura vi=
va d’hu’ mancebo filopatro, va=
lente, audaz e vingativo?
Igoal=
mente não he o nosso Poeta
infractor destes preceitos negati=
vos do mesmo Horacio
Nec pueros coram populo Medea
trucidet..
Aut humana palam coquat exta
nefarius Atreus;.
Aut in avem Progne mutatur,
Neve minor quinto meu sit produc
tior actu
Nec Deus intersit...
Nec quarta loqui persona laboret.
Em primei=
ro lugar, he certo que nesta Tra=
gedia não se ensanguenta o
teatro; he verdade que Orestes mata
a Egisto, mas não aos olhos dos Espec=
tadores; elles todavia, são informados
deste successo por Electra na scen. 8
do Act. 5, que delle faz hua viva,
e sublime exposição. Com effeito os
casos. Com effeito a execução dos fac
tos atrozes, não deve presencear a Pla=
tea, mas della ser instruida por
algu’ Actor eloquente, conforme o
mesmo Horacio:
Multaque tolles
Ex oculis, quae mox narret facundia
praesens».
Tão bem aqui não se-achão trans=
formações como nas Variedades
de Proteo, nos Encantos de Medea,
em outras chamadas Operas que
compoem o nosso Theatro Comico Por=
x destas tuguez, cheas todas x charlatanancias,
e rediculas visualidades, que só
podem agradar a creanças e á
estupida plebe que se embasba=
cão com o frivolo espectaculo
du’ Urso dançando e d’u’ maca=
co fazendo cabriolas.
Além disto,
observa o Author a justa quanti=
dade da Fabula Dramatica, que
deve necessariamente ser repar=
tida em 5 Actos. Dêste precei=
to são transgressores os Castelha=
nos e nos com elles, porque des=
de os fins do seculo decimo sexto, athe
ha poucos annos, respeitavamos,
como codego Theatral os seus absur=
dos e hiperbolicos Dramas denomi=
nados Comedias por alcunha. O Abba=
de Metastacio todavia divide
as suas Operas em 3 Actos; porem
se vio a aisso obrigado por necessida=
de, porque sendo aquellas cantadas,
se fazi-ao fastidiosas, e insuportaveis
se passassem alem de 3 Actos.
Tão bem
he certo que a solução do seu enredo
he natural e tirado da mesma Fabu=
x ella la, sem para x ser precisa a inter=
venção d’ algua Divindade.
Enfim
quasi todas as suas scenas constão
de dous athe três Interlocutores, ex=
ceptuando a 6ª do Act. 3.º, e a 3ª, e 6ª
do Acto 2º, enfum a ultima do 5º;
contudo, he certo que a 2ª Pessoa
pouco fala, ou quasi nada.
Tenho mos=
trado que o nosso Poeta he pontu=
al observador de todos estes preceitos;
mas nem por isso he admiravel
a sua Tragedia; e por esta x não he bô= x rasão
a, nem jamais será apontada como
modelo dos Poemas dêste genero;
porquanto à Poesia, tãobem se de=
ve applicar o que Cicero diz da
Eloquencia: Eloquentiam quae
admirationem non habet nullam
judico .
Esta admiração, todavia, não
provém da observancia dos precei=
tos da Arte, porque isso he effeito
do cuidado e do estudo, mas sim
da majestade da locução, da pom=
posa armonia do metro, sa sublime
elevação dos pensamentos, das si=
tuações theatraes que suspendem
os Espectadores, enfim daquelles
grandes ornamentos que caracter
isão o alto cothurno, que não
nascem da Arte, e que são ma=
ravilhosos partos d’hu’ genio fecun=
do e amplo; estes são sem duvida
algua, os que distinguem os Poetas,
estes os que lhes-dão nome, estes são
os que lhes-contituem todo o me=
reciemnto. estes são enfim os que
arrebatão os Espectadores, e os obrigão
a testemunhar a sua admiração
com reiterados vivas e repetidos
applausos. Por esta rasão podera
o nosso Poeta livremente dizer:
Vitavi denique culpam
Non Laudem Merui.
x diz Ora, apezar do que x a nota a pag. 1., eu
assento que a sversificação desta Tra=
gedia nada tem de sublime, nada
de armoniosa, ao menos para os me=
us ouvidos, talvez que pouco mu=
sicaes, contudo sempre assevero,
que nella encontro Versos triviaes,
e rasteiros, e marcados mais com o-
comico, que com Tragico cunho;
he qcerto que:
Indignatir item privatiis ac prope
socco
dignis carminibus narran coena
Thyestae.
Ainda mais: as duas situações the=
atraes, a primeira da scen. 6ª do Act. 1º,
em que Electra, colerica, e furiosa, se a=
balança a cravar o punhal no peito do
próprio irmão julgando matar o seu
supposto assassino; e a segunda da cen.
3ª do Act. 4, aonde se admira o he=
roico combate de amizade entre
Pilades e Orestes, sãoverdadeira
mente grandes, e arrebatadoras; po=
rem, o Author as não inventou, ape=
zar do que diz a mesma citada
Nota, são imitadas, para não di=
zer furtadas
Porquanto a primeira he hu’ trãssupto
fiel da sce. 2ª do Act. 3º da Merope de
Volter, na qual já se-vê brilhar na
mão daqwuella soberana o fatal
ferro com que pertendia despojar
da vida a Egisto, seu próprio filho,
pensando matar o que suppunha
seu homicida. A segunda he tão=
bem hua exacta copia da scen. 2ª.
do Act. 2º. do Heraclio de Cornelio,
aonde se representa sem differen=
ça algua o mesmo identico comba=
te d’amizade entre Marciano,
e Heraclio, alem disto na Ifigenia
em Tauride, do Grego Sofocles, ha ou=
tra igoal contenda entre os mes=
mos Pilades e Orestes, d’onde he
bem crivel que tivesse a idea o men=
cionado Tragico Francez.
Enfim, Se=
nhora, apezar de quanto tenho di=
to a respeito desta Tragedia sem=
pre me parece justo que V Ma=
gde conceda ao Supplicante a licen=
ça que pede para a-fazer im=
primir, porque, se não honra, tão
bem não desacredita a nossa Na
cional literatura.
V Mag.de contu=
do, mandara o que for sevida
Lx.ª
5 d’Outubro de 1798
Francisco Xavier d’Oliveira