Sumário
Reparos feitos a Henrique da Silva Quintanilha na tradução que fez da comédia de Regnard, intitulada O Legatário, que se representou no Teatro da Rua dos Condes.
Ano
s.a.
Biblioteca/Arquivo
Biblioteca Pública de Évora
Cota
CIX/1-6, nº 6

Reparos feitos a Henrique da Silva Quintanilha na tradução que fez da comédia de Regnard, intitulada O Legatário, que se representou no Teatro da Rua dos Condes.

 

Não é a inveja a fonte donde nascem estes reparos. Quem me conhecer, facilmente se persuadirá que não é este o espírito que me anima, mas posso eu, amando tão finamente a verdade e a vossa reputação, deixar de vos dizer que caístes em um erro crasso na mudança do título de Legatário em Herdeiro, na tradução que fizestes da comédia de Regnard? É porventura o mesmo? Ainda estais tão atrasado, que não sabeis que o título se tira ou da pessoa principal, ou do lugar, ou da acção que se representa. E quem é a pessoa principal? Não é Crispim, um simples Legatário? O Herdeiro não é uma quarta figura do drama? Se vós tivésseis lido alguma Poética, não vos atreveríeis a desprezar um preceito, que não só se cinge à epopeia, mas que compreende também a tragédia e a comédia.
Electra de Eurípides é uma segunda pessoa do poema, e porque deu o título àquele drama, tem justamente merecido muitas críticas. Mais uma pouca de lição evita tão intolerável despropósito.
Dizeis que expondes ao preclaríssimo público uma comédia modesta. Percebo o remoque, gabo-vos a confiança! Mas que chamais vós ao dizer-se, frequentemente, que Lizette é uma concubina de Geronte? Que o casamento é um maravilhoso cosmético para as raparigas? Que debaixo de uma saia se esconde muita malícia e desenvoltura? Que a fingida sobrinha de Geronte nascera de sua irmã passados dois anos depois da sua viuvez? Estas e muitas outras, que eu omito, são umas excelentes moralidades, e que na vossa opinião passarão talvez por uns divertimentos inocentes. E o mais é que nada disto se acha repreendido, mas tolerado, se não


 como virtudes, ao menos como umas graças indiferentes. Mas o que escandaliza mais é que tenha tão pouca vergonha um velho decrépito e achacado, que se atreva a dizer que depois do seu casamento correram dele, pelo mundo, grandes notícias, que é o mesmo que afirmar que ainda se acha com tesão para emprenhar a mulher. Grande modéstia! O desejo de fazer rir no teatro tem certos limites. Nem este é o sal de Plauto, tão desejado na comédia.

Pelo que toca à dicção, admiro-me que entre tantas traduções que nos tendes dado para esse teatro, ainda não víssemos uma no qual o português fosse puro e nobre! Há-de o galã explicar-se pelos termos mais vis, como "intróito", "afadigado"? Há-de estar caindo nos mais feios solecismos, e faltando às regras mais vulgares da nova sintaxe? E Lizetta,que é uma criada, há-de dizer "estátuas da farsa", "caracteres de ouro", e "himeneus"? Quem vos poderá sofrer o "juramento pela hóstia de um nabo" na boca de um húngaro? Vós ignorais totalmente o que é guardar o decoro no teatro. E a locução cómica, de ordinário, deve ser vulgar, comum, porque assim é acção que se representa, mas pura sempre, sempre nobre.
Não é Terêncio um perfeito mestre da língua latina? Molière entre os franceses, Calderón entre os espanhóis, etc., também o não são? E alcançariam esta glória se falassem como vós, que nunca dais obra ao público de que não aprendamos muitas palavrinhas novas, com que nos divirtamos largos tempos? E tendes presunção? Quem vos meteu na cabeça que só é regular a comédia


 que consta de cinco actos? E as que têm três, não o são? Cícero, que entendia mais da matéria que vós, diz que a perfeitíssima há-de ter três, e nele se funda Donato e outros muitos autores de Poética, que vós nunca lestes, e se os tendes lido, é materialmente. A verdade é que este preceito da divisão tem variado muito, como não há razão sólida sobre que se estabeleça, cada qual discorre como quer.

A regularidade da comédia não é daqui que procede. Há comédias de um, de dois, de três, de quatro e de cinco actos e todas regulares; e a fonte donde a regularidade nasce, eu vo-la ensinarei, se tiveres docilidade para aprender. Então, vos afirmo, falareis melhor.
Estes são os reparos pertencentes à tradução e ao aviso que destes ao preclaríssimo público. Não falo por ora do original, tem muito erros, tem sido muito criticado, e é o que bastava para vós não andares quebrando os ouvidos com a bondade desta comédia ao vosso pobre pai, para desvanecer a grande paixão ao Teatro do Bairro Alto. Espero que me respondais, que então é que vos farei ver claramente quem vós sois. Vós vos arrependereis de me dares remoque. Lede mais, estudai mais, castigai a presunção que tendes, não enganeis o velho e não erreis tanto. São conselhos ásperos, mas saudáveis; são conselhos de amigo, tende paciência.

 

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Reparos feitos a Henrique da Silva Quintanilha na tradução q

fez da Comedia de Regnard, intitulada o Legatario, que se reprezentou

no Theatro da rua dos Condes.

 

Não he a inveja fonte donde nascem estes reparos. Quem

me conhece facilmente se persuadirà, que não he este o es-

pirito, que me anima: mas posso eu, amando tão fina-

mente averdade, e a vossa reputação deixar de vos dizer,

que cahistes em hum erro crasso na mudança do titulo de

Legatario em Herdeiro na tradução, que fizestes da Comedia

de Regnard? He por ventura o mesmo? Ainda estais

tão atrazado, que não sabeis, que o titulo se tira ou da

Pessoa principal, ou do lugar, ou da acção, que se reprezenta.

E quem he a Pessoa principal? não he Crizpim hum simples

Legatario? O Herdeiro não he huma quarta Figura do Dra-

ma? Se vós tivesseis lido alguma Poetica, não vos atreve-

rieis a desprezar hum preceito, que não só se cinga a Epo-

peia, mas que comprehende tambem a Tragedia, e a Comedia.

A Electra de Euripedes he huma segunda Pessoa do Po-

ema, e porque deu o titulo àquelle Drama, tem justamen

te merecido muitas criticas. Mais huma pouca de Lição

evita tâo intoleravel desproposito.

Dizeis que expondes ao Preclarissimo Publico huma Comedia

modesta. Percebo o remoque, gabovos a Confiança! mas que

chamais vós ao dizerse frequentemente, que Lizetta he huma

Concubina de Geronte? que o cazamento he hum maravilhozo
comestico para as raparigas? que debaixo de huma saya

se esconde muita malicia, e desenvoltura? que a fingida so-

brinha de Geronte nascera de sua Irmã, passados dous annos

depois da sua viuvez? Estas, e emuitas outras que eu omitto,

são humas excellentes moralidades, e que na vossa opinião

passarão talvez por huns divertimentos innocentes. E o mais

he, que nada disto se acha reprehendido, mas tolerado, senão


como virtudes, ao menos como humas graças indifferentes. Mas

o que escandaliza mais he que tenha tâo pouca vergonha hum

velho decrepito, e achacado, que se atreva a dizer, que depois

do seu Cazamento correrão delle pelo mundo grandes noticias;

que he o mesmo, que affirmar, que ainda se acha com tezão

para emprenhar a mulher. Grande modestia! O dezejo de

fazer rir no Theatro tem certos limites. Nem este he o sal

de Plauto tâo dezejado na Comedia.

Pelo que toca à dicção, admirome que entre tantas tra-

duçoens, que nos tendes dado para esse Theatro, ainda não vis-

semos huma , na qual o Portuguez fosse puro, e nobre! Ha de

o Galan explicarse pelos termos mais vis, como introito, afadi-

gado: ha de estar cahindo nos mais feyos solecismos, e faltando

às regras mais vulgares da nova syntaxe; e Lizetta, que he

huma Criada ha de dizer estatuas da Farsa, caracteres de ouro,

e hymenêos? Quem vos poderà sofrer o juramento pela

hostia de hum nabo na boca de hum Hungaro? Vós ignorais to-

talmente o que he guardar o decoro no Theatro. A Locução

Comica de ordinario deve ser vulgar, e com?a, porque assim

he acção que se representa: mas pura sempre, sempre nobre.

Não he Terencio hum perfeito Mestre da Lingua Latina?

Moliere entre os Franceses, Calderon entre os Hespanhois &.ª tam-

bem o não são? e alcançarião esta gloria, se fallassem como

vós, que nunca dais obra ao Publico, de que não aprendamos

muitas palavrinhas novas, com que nos divirtamos largos

tempos? E tendes presumpção?

Quem vos metes na cabeça, que só he regular a Comedia


que consta de cinco Actos? E as que tem tres não o são? Cicero, q

entendia mais da materia que vós, diz que a perfeitissima ha

de ter tres, e nelle se funda Donato, e outros muitos Autores

de Poetica, que vós nunca lestes, e se os tendes lido, he mate-

rialmente. A verdade he, que este preceito da divizão tem va-

riado muito, como não ha razão solida sobre que se estabeleça,

cada qual discorre como quer.

A regularidade da Comedia não he daqui que procede:

ha Comedias de hum, de dous, de tres, de quatro e de cinco Actos,

e todas regulares; e a fonte donde a regularidade nasce, eu

vola ensinarey, se tiveres docilidade para aprender: então

vos affirmo fallaveis melhor.

Estes são os reparos pertencentes à tradução, e ao Avizo

que destes ao Preclarissimo Publico: Não fallo por ora do origi-

nal; tem muitos erros; tem sido muito criticado; e he o que bas-

tava para vós não andares quebrando os ouvidos com a bon-

dade desta Comedia ao vosso pobre Pay para desvanecer a grd.e

paixão ao Theatro do Bairro Alto. Espero que me res-

pondais, que então he que vos farey ver claramente quem

vós sois. Vós vos arrependereis de me dares remoques. Lede

mais, estuday mais, castigay a presumpção que tendes, não

enganeis o velho, e não erreis tanto. São conselhos aspe-

ros, mas saudaveis; são conselhos de Amigo, tende paciencia.