Sumário
Relato de Francisco Raimundo de Morais Pereira sobre os festejos do auto de aclamação do rei D. José I em Goa, que incluem uma comédia espanhola, uma ópera, uma representação de Racine e uma encenação de batalha ( Dezembro de 1751)
Ano
1751
Biblioteca/Arquivo
Biblioteca Nacional de Portugal
Cota
H. G. 15217 P 2
Impresso
Francisco Raimundo de Morais Pereira, Anal Índico-Lusitano dos sucessos mais memoráveis..., Lisboa, oficina de Francisco Luís Ameno, 1753

Anal Índico-Lusitano dos sucessos mais memoráveis e das acções mais particulares do primeiro ano do felicíssimo governo do ilustríssimo e excelentíssimo senhor Francisco de Assis de Távora, Marquês de Távora, Conde de S. João, do Conselho de Estado de S. Majestade Fidelíssima, vice-rei e Capitão General da Índia

em que se dá noticia das guerras com que se acharam embaraçadas as nações europeias com alguns príncipes e potentados da Ásia, desde o primeiro de Janeiro de 1751 até o último de Dezembro do mesmo ano; e se referem as exéquias que na cidade de Goa se fizeram na morte do senhor rei D. João V e o Auto de Juramento com que na mesma cidade foi aclamado rei de Portugal o fidelíssimo senhor D. José, nosso senhor.

Escrito e oferecido à ilustríssima e excelentíssima D. Maria Ana Bernarda de Távora, Condessa de Atouguia

Dr. Francisco Raimundo de Morais Pereira

Desembargador da Casa da Suplicação de Goa.

Lisboa

Na oficina de Francisco Luís Ameno, Impressor da Congregação Cameraria da Santa Igreja de Lisboa

MDCCLIII

Com as licenças necessárias

Vende-se na mesma oficina, na Rua do Carvalho


 


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 Iluminaram-se todos os conventos e edifícios de que se compõe a cidade de Goa e na mesma noite se viu o rio cheio de embarcações iluminadas com agradável artifício. Sobre duas barcas mandou fabricar o Senado uma fortaleza de



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três baterias em que se representava, como em pintura, uma avançada de tropas portuguesas contra gentios. Dentro traziam coro de instrumentos e alguns músicos. Baixou esta máquina toda iluminada com luzes de cera e acompanhada de todas as mais embarcações, que com a serenidade da noite, e pelo estranho modo da positura das luzes, que faziam uma das mais belas e raras perspectivas, com vagarosa voga se vieram postar defronte do palácio de suas excelências, que se achava todo iluminado com tochas de cera. O cais e o parapeito que guarnece o rio se achava todo bordado de luzes. Em um dos quartos interiores do palácio havia um concerto de instrumentos músicos, e nas salas da guarda e dos oficiais subalternos se achavam dois concertos, um de tímbales e clarins, outro de boazes, que alternados não cessaram de tocar a maior parte da noite. A toda a nobreza que se achava em palácio mandou o marquês vice-rei servir uma magnífica e soberba ceia compostade três cobertas de carne, de peixe, e dos mais delicados doces e especiosas frutas do país, a que se deu fim com um brinde(s) geral à saude de Suas Majestades Fidelissímas reinantes, e se seguiram duas salvas de artilharia da nova invenção. Por ordem do marquês vice-rei se mandaram acampar as tropas, o corpo da artilharia junto ao Paço de Pangim, e os dois regimentos, de Valadares e Pierrepont, se mandaram acampar no Campo de Santa Inês. Na sexta-feira, 13 de Dezembro, foram suas excelências assistir à festa do glorioso apóstolo,  S.Francisco Xavier, em que o excelentíssimo e reverendíssimo primaz cantou a missa em pontifical e pregou o reverendo padre Manuel Francisco, prepósito da casa professa. A ilustríssima e excelentíssima senhora marquesa se recolheu ao seu palácio e o marquês vice-rei, segundo o costume dos seus antecessores, jantou na mesma casa, e o excelentíssimo e reverendíssimo primaz, mas ambos em casas diferentes.
                De noite saíram suas excelências por mar para verem as luminárias e vários artifícios de fogo com que os edifícios que estão na margem do rio se achavam curiosamente iluminados. Depois passaram ao Tribunal dos Contos onde tiveram o divertimento de ver a primeira encamisada dos oficiais


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mecânicos cristãos, composta de curiosidades galantes, e muitos fogos que serviam de iluminação aos palanques armados a várias figuras curiosamente vestidas, e finalmente, a um rei vestido com um agradável e pomposo artifício, guardado por uma bela Companhia de Granadeiros fardados de vestidos brancos guarnecidos de ouro e as mitras à mesma proporção. Toda esta luzida comitiva entre povo imenso deu uma vagarosa volta à praça de S. Caetano e vindo parar defronte da janela em que suas excelências se achavam lhe fizeram as suas continências mais conformes ao embaraço, que lhes infundia o respeito de suas excelências, do que próprias de nenhuma disciplina. Muito depois da meia-noite se recolheram suas excelências ao seu palácio, e nas duas noites seguintes tiveram o mesmo divertimento de virem assistir às duas encamisadas dos ourives e brâmanes, em que havia pouca diferença, por ser mais a confusão do que a ordem, sem embargo da grande despesa com que queriam fazer plausíveis e alegres as noites. Deram fim às festas da cidade com o fogo de artifício que o Senado tinha mandado fabricar em uma torre de madeira defronte do palácio da Fortaleza. E querendo sua excelência que a aclamação de sua majestade fidelíssima não só ficasse memorável pelo festejo público com que os seus fiéis vassalos deste tão remoto continente lhe tributaram a sua obediência resolveu fazer demonstração particular da sua magnificência e da felicidade que participava, de acontecer tão festivo acto no tempo do seu governo. Mandou no Paço de Pangim em uma das duas grandes salas levantar um teatro, cuja arquitectura foi recomendada à direcção do tenente coronel engenheiro Pedro Vicente Vidal, que com rara brevidade e excelente desenho se viu em poucos dias levantado e ornado de belos bastidores e coroado com as triunfantes armas de suas excelências. Ornou-se com toda a grandeza o mesmo paço, para onde suas excelências passaram no sábado à noite. No Domingo se dispôs a representação da tragédia de Poro, rei da Índia, vencido por Alexandre Magno, obra de Monsieur Corneille, em verso francês [Alexandre le Grandde Racine]. Na segunda-feira mandou sua excelência dar um jantar magnífico a toda a fidalguia e nobreza, que tinha concorrido ao Paço; e de noite mandou a ilustríssima
e exclentíssima senhora marquesa servir huma ceia com igual


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profusão a todas as senhoras, que tinham concorrido ao seu quarto. Depois se deu princípio à ópera, em que havia uma decente orquestra de música. Compõem-se a tragédia de seis interlocutores, em que entravam quatro familiares da casa de suas excelências, três franceses, um português e dois oficiais franceses; e posto que a maior parte dos assistentes não entendessem aquele idioma, foi a representação feita com tão vivas expressões, que ajudados de um sumário em português, que a senhora marquesa tinha mandado traduzir da ópera, todos sairam satisfeitos e agradados da novidade, única até o presente em Goa. As figuras se achavam vestidas soberbamente e com mais propriedade do que nunca se fez na Europa, sendo fácil esta proporção, por ser o vestido das figuras quase do país. Tudo foi direcção, a que concorreu o trabalho das próprias mãos da iustríssima e excelentíssima senhora marquesa, que na sua presença as mandou vestir e preparar cuidadosamente. No fim dos actos houve excelentes danças executadas pelos próprios interlocutores e por alguns oficiais estrangeiros, que de boa vontade, ainda
que disfarçados, quiseram mostrar e fazer públicas as suas prendas. O excelentíssimo e reverendíssimo primaz assistiu a esta função, estando na testa da plateia assentado em cadeira igual, ao lado esquerdo da cadeira do marquês vice-rei.

Na terça-feira se servio outro magnífico jantar à nobreza, que tinha concorrido a palácio e de noite houve ceia para as senhoras, e depois se representou uma das óperas portuguesas intitulada Adolónimo em Sidónia,  executada por vários curiosos portugueses, cujo obséquio foi direcção de José Correia de Sá, e seu irmão Caetano Correia de Sá; o que se executou com particular satisfação de todos os assistentes pela propriedade da representação e pela intelligência do idioma.

           Para que as tropas não só gozassem do benefício dos dois meses de soldos, que se lhes havia mandado dar, ordenou sua excelência que ao acampamento se mandasse o refresco de seis vacas, doze porcos, verdura, e frutas; e que à proporção se mandasse outro semelhante ao Corpo de Artilharia e à Companhia de Granadeiros, que se achava de guarda em palácio.

Encarregou ao Tenente Coronel Engenheiro José Lo-


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pes,  fizesse edificar à custa de sua excelência uma praça no campo de Mangueiral, segundo o uso, e fortificação asiática, para se completar o festejo com um ataque geral das tropas do acampamento, e que a praça só devia ser defendida pelas tropas de Sipais, cuja obra se executou com perfeição e se pôs pronta para o dia de sexta-feira. Na quinta, 9 de Dezembro, houve outro jantar público para toda a nobreza e de noite ceia para as senhoras, e depois se representou uma comédia castelhana, cujo obséquio foi da direcção do Tenente Coronel Engenheiro Pedro Vicente Vidal.

            Continuou a grandeza de sua excelência em dar outro jantar magnífico, no dia de sexta-feira, a toda a nobreza, o qual se concluiu com uma saúde geral de suas majestades reinantes, assim como se tinha praticado em todos os outros antecedentes, a que se seguiam duas salvas de artilharia. Competiu em todos estes dias a grandeza com a profusão, estando a copa de sua excelência aberta, e pronta para todos os que queriam chà, chocolate, café, doces, e outras delicadas

bebidas, sendo igual o gosto dos criados, que serviam à grandeza, e realeza do sangue do seu ilustríssimo e excelentíssimo amo. Não foi só esta própria para os que se achavam presentes; porque a ilustríssima e excelentíssima senhoras marquesa, sua esposa, pela sua virtuosa providência fez distribuir várias e importantes esmolas de dinheiro e regalos a muitas famílias, a que a nobreza do seu sangue, e a perda das suas opulências faz com lástima conter em miseria; virtude que sua excelência não só pratica nas ocasiões da sua grandeza e gosto, mas com um subsídio ordinário cada mês acode à necessidade de muitas pessoas ilustres, que não podem

mendigar o sustento de que necessitam para passar a vida.

O excelentíssimo e reverendíssimo primaz veio assistir ao ataque de uma das janelas da câmara de suas excelências, a quem, depois do marquês vice-rei deixar acomodado, baixou para a praia a tempo que já dentro da praça se achavam as Companhias de Sipais, à ordem do Sargento maior, João Francisco Mira, e a fachina avançada se achava guarnecida de outra Companhia, à ordem do Sargento maior Domingos Franco Beleco, Comandante do Corpo de Sipais da província de Bardez.



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A illustríssima e excelentíssima senhora marquesa se achava em uma varanda, que ficava para a parte do campo, acompanhada de muitas senhoras, que tinham concorrido para verem a mesma acção, cujas ordens tinha distribuído o marquês vice-rei pela maneira seguinte.

Instrução para o Sargento Maior, João Francisco Mira, que há-de comandar os Sipais, com que se há-de guarnecer o reduto que se acha construído na praia de Pangim.
Guarnecerá o dito reduto e a sua estrada coberta com uma Companhia de Sipais.

            O Sargento Maior, Domingos Franco Beleco, guarnecerá com outra companhia a fachina, que está junto à casa do Balão dos Padres da Companhia, e defendará o desembarque, que ali pertenderá fazer a Infantaria, a qual irà buscar outro sítio, em que o faça; e vindo depois por terra a atacá-lo, continuará a fazer fogo para defender-se; quando ouvir tocar a marcha de Fuzileiros a outro Corpo pelo seu lado esquerdo, mandará desamparar as fachinas, e retirar precipitadamente os Sipais para a Fortaleza, a qual buscarão pela retaguarda; para poderem entrar nela.Logo virà a Cavalaria conduzir fachinas para junto da

Casa do Balão dos Padres da Companhia, e querendo os soldados do Corpo da Artilharia formar com as ditas fachinas uma bateria, se fará uma sortida da Praça, para impedir o trabalho; porém, aparecendo uma partida de Cavalaria para os carregar, se retirarão outra vez os que sairão da Praça, e continuarão a fazer fogo pelas seteiras, mandando levantar as bocas das armas, o mais que for possível, para evitar qualquer desastre, que possa dar desgosto em dia tão festivo.

Feita a bateria, e dela batido com alguns tiros de artilharia oposto do forte, marcharão doze soldados da Companhia da Artilharia com as duas mantas, e chega-



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das que sejam ao parapeito da estrada coberta do mesmo forte, se principiará a abrir a sapa para se formar a mina; e acabado o trabalho, se hã-de dar fogo a uma espoleta, que há-de haver no princípio dos estopins, que comunicam a brecha pela parte interior, para ffeito de voar a mina; e o dito Comandante, antes da dar fogo a esta espoleta, terá mandado retirar os seus Sipaes para a cortadura interior, que cobre a mina, que está disposta, e depois de se defender algum tempo na cortadura, a fará desamparar, e toda a  fortaleza, retirando-se os Sipaes todos para a parte do rio que atravessarão, sendo-lhes possível, sem prejuízo das suas armas.
        Todas as armas, que estiverem carregadas, se mandarão descarregar e carregar de novo, e os oficiais dos mesmos Sipais procurarão evitar toda a desordem; porque de qualquer que haja, serão castigados asperissimamente. Pangim, 10 de Dezembro de 1751.


Para as Tropas que havião de atacar a Praça, mandou sua excelência dar as ordens seguintes.

Ordens, que hão-de observar os dois Batalhões de Infantaria no ataque do reduto, que ultimamente se construiu na praia do Mangueiral em Pangim.

Mandará o Coronel Filipe de Valadares embarcar quatro Companhias de Granadeiros nas manchuas, que estão furtas defronte do cais de José Correia de Sá, e

a quinta Companhia, que será a mais antiga de Granadeiros, se embarcará nos escaleres, e balões, que estiverem no mesmo sítio, e todas as ditas Companhias de Granadeiros virão debaixo da ordem do Tenente Coronel João Manuel Correia de Lacerda.

O Corpo de Fuzileiros dos dois Regimentos marchará por terra ás três horas da tarde do seu acampamento para a mesma praia de Pangim; e logo que a vanguarda chegar ao pé das casas de D. Rodrigo de Castro, será alto, e mandará dar parte.


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O Tenente Coronel Commandante das manchuas mandará ter conta no final, que se há-de fazer de dois foguetes do ar, que se hão-de lançar junto das casas de D. Rodrigo de Castro; e logo que este final se fizer, navegará com todas as embarcações formado em duas linhas para a parte de Betim; e antes de chegar às casas de D. Lourenço de Noronha, aproará as embracações todas para a praia de Pangim, e virá tentar o desembarque na dita praia pela proa da pala de Surrate, que ali se acha furta; porém, vendo que de uma fachina, que está na terra, se lhe defende o desembarque, voltará em outro bordo para o mar, e fazendo depois outro para a terra, virá fazer o desembarque junto às casas do Paço de Pangim, fazendo encalhar os balões em terra, e mandando dar fundo às manchuas maisao largo. Logo que a Companhia, que for nas embarcações miúdas, tiver saltado em terra, se formará com muito boa ordem, e as ditas embarcações miúdas irão buscar a gente que estiver embarcada nas manchuas, e formando-se estas todas em batalha, marcharão depois em coluna muito de vagar, e em boa ordem, a atacar a fachina, que lhes

impedia o desembarque, contra o qual se mandarão lançar algumas granadas. Ao mesmo tempo irá ordem ao Corpo de Fuzileiros para que venha marchando para a parte do rio, deixando-o na sua retaguarda, quando se formarem em

batalha para fazerem frente à Fortaleza.

            Vendo-se assim os Sipais, que guarnecem a fachina, entre dois fogos, a desampararão, e se recolherão à fortaleza; e ao mesmo tempo será atacada a dita fachina pelas Companhias de Granadeiros, que achando-a desamparada, lhe porão o fogo, e continuando a marcha para as casas de D. Rodrigo, irão as Companhias de Granadeiros do Regimento de Pierrepont a formar-se na direita, e esquerda doseu batalhão, e o mesmo farão as de Valadares para entrarem nos respectivos lugares do seu corpo, ficando todos com a vanguarda para a Fortaleza, e a retaguarda para o mar.

            As peças da nova invenção, que hão-de defender com os Sipais o desembarque, logo que estes desampararem a fachina, e se recolherem para a Praça, se formarà o Corpo


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de Atilharia por detrás das casas do Balão dos Padres da Companhia, e logo marcharão a postar-se junto ao ângulo da dita casa; e a gente do Corpo da Artilharia irá construir uma bateria, para pôr nela as peças que hão-de bater a Praça.

            Querendo dar princípio a estabelecer esta bateria, mandará o Comandante, que estiver na fortaleza, fazer uma sortida para embaraçar o trabalho, ao que acudirá o Corpo de Cavalaria, que fará retirar aos que tiverem saído da fortaleza, e ficará o Corpo de Cavalaria sustentando os trabalhadores, e se conservará até que a Artilharia comece a laborar, e logo poderá retirar-se a porte na direita de toda a linha de Infantaria.

            Feita a bateria, e dela batido com alguns tiros o lado oposto do forte, marcharão doze Soldados do Corpo da Artilharia com as duas mantas, que estão preparadas; e chegadas que sejam ao parapeito da estrada coberta do mesmo forte, se principiará a abrir a sapa para se formar a mina; e acabado o trabalho, se há-de dar o fogo a uma espoleta, que há-de estar posta detrás das mantas, o que servirá de final para  o comandante do forte mandar dar fogo a outra espoleta, que há-de haver no princípio dos estopins, que comunicam a brecha pela parte interior para efeito de voar a mina; e ao tempo em se puserem as mantas, marchará o Corpo todo, na forma que se lhe ordenar, a fazer uma mampostaria à mesma praça; e vendo que rebenta uma mina, com a qual se abre uma brecha na face do baluarte atacado, marcharão logo ao assalto as Companhias de Granadeiros, que para isso estiverem nomeadas, e estas não passarão da boca da brecha, de don-

de hão-de combater com os inimigos, que se hão-de defender em uma cortadura interior na praça; mas desalojando-os ultimamente com algumas granadas; se formarão sobre a brecha, e se guarnecerão os mais postos, que parecerem necessários.

            Adverte-se, que tudo o que aqui se ordena, é uma representação, e que os oficiais devem evitar toda a desordem, para que, se em algum dos troços, ou companhias acontecer havê-la os oficiais, que governarem os


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ditos troços, ou companhias, serão responsáveis, e castigados asperamente, se a não evitarem. Pangim 10 de Dezembro de 1751.

            Não pareceu representação o ataque; porque os invasores se empregaram tão valerosamente, como o costumam fazer na realidade. Os mais dos soldados, e alguns oficiais se lançaram ao mar impensadamente, desprezando o cómodo de chegarem as embarcações a terra, ou não lhes sofrendo o seu valor a tardança. Com uma rara velocidade, forçaram a fachina dos inimigos; com a mesma construiram a bateria, fazendo laborar a mesma artilharia contra a praça, a que os artilheiros arrumaram as manatas, que com a mesma aceleração fabricaram a mina, a que se deu fogo, e aberta a brecha, a escalaram valerosamente os granadeiros da vanguarda. Seguiu-se a entrada da praça por todas as tropas, e carregar-se o inimigo com fogo continuado, de sorte que, desesperado, se lançou desordenadamente, segundo seu verdadeiro estilo, por um pântano, que lhe ficava em um dos lados da fortaleza, a que a cavalaria acudiu

vivamente, fazendo-lhe impraticável a passagem. E foi tal o calor do oficial que governava o esquadrão, que com alguma desordem se meteu com os cavalos, donde não podiam sair facilmente; de sorte que ele e alguns soldados se viram em grande perigo, e o fora sem remádio, se a acção fosse verdadeira. Fizeram os Sipais a demonstração da formalidade com que na companhia se retiram os seus mortos, os quais, conforme a sua superstição, os levavam defronte do lugar, em

que se achava a ilustríssima, e excelentíssima senhora marquesa, a quem, figurando a sua desgraça verdadeira, pediram com humildade a sua alta protecção, para que o marquês vice-rei usasse com eles, como vencidos, conforme as leis da humanidade, não da guerra; protestando, e pedindo em nome dos Defays o amparo, e amizade do Estado. E porque alguma das mercês que pediam, lhes fosse útil, imploraram a protecção de sua excelência, para que o marquês vice-rei seu esposo lhes mandasse dar os mesmo dois mezes de soldo de mercê, que se tinha praticado com as tropas portuguesas, por terem concorrido para a presente plausibildade com os meyos, que lhes foi possivel, ou foram ocupados. Sua Ex


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celência lhes fez declarar, que fizeram requerimento ao marquês vice rei, em quem achariam igual ao seu merecimento, e com efeito o marquês vice-rei mandou dar a cada Sipai um rupia em atenção à grandeza do acto, que acabava de ver festejado, não segundo a grandeza do seu ânimo, mas conforme o país, e a distância em que se achava.

            Com geral satisfação, e contentamento se deu fim já de noite a este exercício militar, mandando-se formar todo o Corpo em batalha, e descansar sobre as armas: a que se seguiu uma artificiosa illuminação de uma alta torre, que se achava no meio da fortaleza, a que tinha feito respeitada a ordem do

marquês vice-rei para não padecer a mesma ruína da fortaleza. Coroava esta torre o escudo das sagradas, e reais armas portuguesas. Via-se em letras grandes o augusto nome de sua majestade fidelíssima. Em proporções bem ajustadas mudavam as cores dos fogos, que alumiavam o augustíssimo nome, e o real escudo. Por grande espaço de tempo lograrão os olhos uma rara, e admirável perspectiva. Em compassadas proporções se abrasou a torre com o fogo de que se achava revestida; e, por fim, se ouviu à voz do Sargento Maior do Regimento de Pierrepont, Francisco de Lima, uma bela e uniforme descarga de todo o Corpo, a que se seguiram três vivas ao muito alto e poderoso rei e senhor D. José I. Retiraram-se as tropas para o seu acampamento, e todo o povo de Goa ficou satisfeito, e admirado da grandeza, e magnificência, com que foi festejada a feliz aclamação, e exaltaçãoo ao trono de sua majestade fidelíssima.




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