Sumário
Parecer favorável sobre os cinco volumes do Teatro de Manuel de Figueiredo e licença para a impressão do 6º tomo (traduções) (25 de Agosto de 1775)
Ano
1775
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Real Mesa Censória, caixa 9, nº 29
Menções
Laureano Carreira, O teatro e a censura em Portugal na segunda metade do século XVIII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1988, pp. 282-373: 310-311

Tomo 6.º do Teatro de Manuel de Figueiredo

 

Tem este autor composto cinco volumes de comédias, com o bem fundado merecimento de serem parto da sua própria imaginação as fábulas que nela se propõem, e em todas sustentar o carácter das pessoas que nelas falam com tanta verisimilhança e reflexão sobre os costumes, que parece vai sempre a arte observando a natureza, em toda a economia das acções de que se compõem as mesmas fábulas, que não devem ser mais que um retrato da vida comua, isto é, uma imitação do que se vê e ouve no mundo. Neste género pode chamar-se, entre os nossos naturais, cómico original, porque jamais aparece confundido o carácter dos interlocutores, antes falando repetidas vezes muitas pessoas em cada cena, prendem naturalmente os seus conceitos, procurando cada um, nas mesmas partições dos ditos que ficam suspensos, o nexo dos seus falamentos.

É bem verdade que não faltará quem acuse de afectada esta demasiada verisimilhança das acções de que se compõe qualquer fábula das suas comédias, fazendo diferença da acção, como simplesmente sucede, ou posta ela na natureza teatral, porque nesta figura


deve a fábula ter algum género de mais invenção e artifício de episódios que prenda e enfeite a simplicidade dos factos, dando-lhe mais sabor para se gostar a sua moral, e não parecer um puro relatório de uma fábula, ainda que cómica e muito verosímil, sendo que isto pode ser animar, e não desfigurar, o retrato da vida comua, qual é a comédia verdadeira.

Mas por isso mesmo que os seus dramas eram forjados na oficina da sua própria imaginação, se fazia preciso (como ele diz no discurso que escreve na sua primeira comédia) que, estando o mecanismo do seu teatro sem exemplo que o autorizasse, pusesse diante dos olhos dos que têm tanta razão para estranhar-lho, o primeiro original que lhe chegasse à mão. Assim o executou, traduzindo as três comédias de que forma o corpo deste 6.º tomo do seu teatro, quais são:

1.ª A Velha Garrida, que é La Mère Coquette, de Quinault

2.ª A Ciência das Damas e Pedantaria dos Homens, que é Les Femmes Savantes, de Molière

3.ªO Jogador, de Regnard

 

Enquanto a fidelidade da tradução é, sem dúvida, que não é servil, mas sim segundo o espírito dos originais, porque o mesmo autor afirma que consentirá que lhe não chamem rigorosa tradução, atendidas as notáveis mudanças com que


estas comédias aparecem traduzidas, mas logo protesta que não o insuflou o entusiasmo de querer melhorar o que escreveram seus autores originais, confessando ao mesmo tempo que a razão porque em muitas passagens variou, noutras suprimiu, e noutras substituiu e aumentou, foi somente por firmar-se nos dois pólos que sustêm o seu teatro,  quais são a  verisimilhança e os costumes dominantes, dos quais o bom tradutor se não deve dispensar, menos quando da tal mudança resulte nova fábula.

Enquanto ao merecimento das referidas traduções, nelas segue e desempenha o seu génio verdadeiramente cómico e severo nas leis do teatro. Mas não lhe posso louvar a escolha do metro, por mais que nele se acomode e imite as comédias que traduzia, porque a quantidade do verso é toda diferente da cadência daqueles a cuja harmonia está costumado o ouvido português, além de acabarem em um contínuo consoante que, por não ser travado, ficam em ar de trovas, se bem que  conservam o génio e arte das partições e suspensos, ligando sempre os períodos de cada um que entra a falar na cena. Não contém coisa que perverta os bons costumes, mas antes se encaminham à sua edificação e em tudo se conformam com as santase sábias leis


da Religião e do Estado e, como tais, são dignas da licença que pede seu autor. Foram do mesmo parecer os deputados adjuntos.
Mesa em conferência de 25 de Agosto de 1775

 
António Santa Marta Lobo da Cunha

António Veríssimo de Larre

Frei José da Rocha

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Tomo 6.º do Teatro de Manoel de Figueiredo

 

Tem este Auctor Composto Sinco Volumes de Come-

dias, com o bem fundado merecim.to de Serem parto

da sua propria imaginação as Fabulas, que nella se

propoem: e em todas sustentar o Caracter das Pessoas,

que nellas falam com tanta verisimilhança, e refle-

xam sobre os Costumes, que paresse vai sempre a Ar-

te obcervando a natureza, em toda a economia das

acções de que se compoem as mesmas Fabulas, que

não devem ser mais que hum retrato da Vida Co-

mua; isto he, huma imitação do que se vé, e ouve no

mundo.

            Neste genero pode chamarse entre os nossos

Naturais Comico Original: porq’ já mais aparesse con-

fundido o Caracter dos Interlocutores, antes falando repe-

tidas vezes m.tas Pessoas em cada Scena, prendem

naturalm.te os seos Conceitos; procurando cada hum nas

mesmas partições dos dittos, q’ ficam suspensos, o nexo

dos seos falamentos.

            He bem verdade, que não faltará quem acu-

ze de affectada esta desmaziada verisimilhança das acções

de que se compoem qualquer Fabula das suas comedias:

fazendo differensa da Acção, como simplesm.te socede,

ou posta ella na natureza teatral; porq’ nesta figura


deve a Fabula ter algum genero de mais invensão,

e arteficio de epizodios, que prenda e enfeite a simplici-

dade dos factos, dandolhe mais sabor, p.ª se gostar a sua

moral; e não paresser hum puro relatorio de huma

fabula, ainda q’ Comica, em.to verosimil: sendo q’ isto

pode ser animar, e não disfigurar o retrato daVida

Comua, qual he a  Comedia verdr.ª

            Mas por isso mesmo, que os seos Dragmas eram

forjados na officina da sua propria imaginação, se

fazia percizo (como elle diz no discurço q’ escreve na sua

primr.ª Comedia) que estando o mecanismo do seu

theatro sem exemplo, que o autorizasse, pozesse dian-

te dos olhos dos que tem tanta razão p.ª estranhar-lho o

primr.º Original, q’ lhe chegasse a mão. Assim o exe-

cutou, traduzindo as tres Comedias de que forma o Cor-

po deste 6.º Tomo do seo Teatro: quais são

1.ª A Velha garrida: Que he – La Mere Coquete: de Quinoult.

2.ª A Ciencia das Damas, e pedantaria dos Homens –

            q’ he: Les Femmes Savantes. de Moliere –.

3.ª O Jogador – de Regnard.

Em q.to a fidelidade da Tradução, he sem duvida q’ não

he servil, mas sim segundo o espirito dos originais: porq’

o mesmo Auctor affirma, q’ consintirá, q’ lhe não chamem

rigoroza Tradução; attendidas as notaveis mudanças com q’

                                                                                   estas

estas Comedias aparessem traduzidas: mas logo protesta, q’ não

o insuflou o anthusiasmo de querer milhorar o q’ escre

veram seos Auctores originais: Confessando ao mesmo tem-

po, q’ a razão porq’ em m.tas paçagens variou, noutras supre-

mio, e noutras substituio, e augementou, foy somente, por

firmarse nos dous pollos que sustem o seo teatro; quais

são a  Verisimilhança, e os Costumes dominantes: dos quais

o bom Traductor se não deve dispensar, menos qd.º da tal

mudança rezulte nova Fabula.

            Em q.to ao merecim. to das referidas traducções

nellas segue, e dezempenha o seo genio Verdadeiramente

Comico, e severo nas Leis do Teatro: Mas não lhe posso Lou-

var a escolha do metro, por mais, q’ nelle se acomode

e imite as Comedias, q’ traduzia; porq’ a quantidade do

Verso he toda differente da cadencia daquelles, a cuja

armonia está costumado o Ouvido Portuguéz: Alem

de acabarem em hum continuo consoante, q’ por não

ser travado, ficam em ár de trovas: Se bem, que

conservam o genio, e arte das partições e suspensos, Li-

gando sempre os periodos de cada hum, que entra

a falar na scena.

            Não contem couza, que perverta os bons costu-

mes, mas antes se encaminham á sua edificação

e em tudo se conformam com as S.tas e sabias Leis

                                                                          da


da Religião, e do Estado, e como tais são dignas da

Licença que pede seu Auctor. foram do mesmo pa

resser os Deputados adjuntos. Meza em Conferencia de

25 de Agosto de 1775.

 

                                               Antonio S.ta M.ta Lobo da Cunha

Antonio Verissimo de Larre

                                               Fr. Jozé da Rocha