Sumário
Notícia sobre a pintura e decorações do Teatro de S. Carlos, da responsabilidade do arquitecto Luís Chiari (1817)
Ano
1817
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Real Mesa Censória, caixa 512, doc. 5108

Notícia

 

Tendo o arquitecto Luís Chiari sido encarregado da direcção dos reparos de que precisava o Real Teatro de S. Carlos, julgou que na ocasião da sua abertura seria agradável ao público ter uma breve notícia do plano que se seguiu para a pintura e decorações da casa.
A natureza da obra pedia que na sua execução se procurassem unir riqueza, bom gosto e propriedade. Para conseguir este fim, se imaginou uma pintura vistosa e brilhante, em que entram várias peças douradas, sendo as outras iluminadas com ouro, o que deve fazer o teatro claro e aparatoso. Houve também todo o cuidado na elegância e propriedade da pintura, ornando-se o tecto e frente dos camarotes com emblemas e arabescos análogos à poesia, música e belas-artes; e a quadratura da primeira ordem com medalhas de ouro pintadas de claro-escuro, com os retratos de vinte e quatro dos mais célebres mestres de música que escreveram para o teatro.

Empenhou-se principalmente o mesmo Luís Chiari no ornato do camarote de Sua Majestade, tendo ordem para o levar ao maior ponto de riqueza e perfeição que lhe fosse possível. No tecto do dito camarote se divisa uma coroa imperial, da qual desce um soberbo manto de veludo carmesim


forrado de arminhos, com bordaduras, franjas e borlas de ouro, sustentadas por vários Génios. No parapeito externo se vêem, em campo de ouro, onze Génios que representam as quatro Partes do Mundo e as Reais Virtudes do nosso augusto soberano, tendo no centro, sobre uma almofada, três coroas sustentadas pela Fidelidade e Fortaleza, em alusão aos três reinos unidos de Portugal, Brasil e Algarves. A mesma magnificência e elegância se observa nos móveis e em todo o resto do ornato interior do camarote, em que nada se poupou para o fazer digno do grande monarca para quem é destinado.

Finalmente serão também dignos da atenção do público os dois novos panos que se fizeram para a abertura do teatro. O pano de boca representa Apolo convidando os portugueses a imortalizar-se pela cultura das belas-artes e, principalmente, das que se empregam nos espectáculos teatrais. Este númen aparece em uma posição elevada, com o rosto inclinado para o Génio Português, em atitude de lhe falar, apontando para uma montanha escarpada, em cujo cume está o Templo da Imortalidade, para o qual se sobe por uma estrada áspera, tortuosa e cercada de precipícios: sobre esta estrada caem raios de luz, que despede o escudo das Armas Reais, sustentado por um Génio e entre eles se lêem as palavras Vestigia cernes, indicando assim Apolo ao Génio da Nação a estrada, que a protecção do soberano abre


aos portugueses para se ilustrarem por seus talentos e aplicação às Belas-Artes. O Génio de Portugal, que se dá a conhecer pela figura do Tejo, que lhe está ao lado, tem a seus pés os principais símbolos das ciências e artes de imitação. E, defronte dele, se vêem as três Musas da Tragédia, Comédia e Dança, com os seus respectivos atributos, as quais estão na acção de se oferecerem ao mesmo génio, para dirigir os exercícios cénicos deste teatro.
O programa do pano é de um dos escritores portugueses mais célebres de nossos dias, e o quadro foi desenhado e pintado por Henrique José da Silva.
O Triunfo de Galateia faz o assunto do pano de talão. Esta ninfa aparece em uma grande concha elevada sobre as ondas, acompanhada de um aparatoso cortejo de nereidas, tritões e deuses marinhos, entre os quais se divisa também o Amor sobre um Delfim. No fundo do quadro se deixa ver Polifemo no alto de uma montanha, tangendo a sua flauta, e rodeado do gado que apascenta.
A paisagem deste pano é inventada e desenhada por Francisco Cochi, e as figuras por Domingos Schiopetta.

Lisboa.
Na impressão régia. Ano 1817.
Com licença.
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