- Sumário
- Notícia (impressa) do espectáculo de benefício de Teresa Joaquina com a tragédia Mafoma ou o fanatismo e o entremez O esposo fingido (1779)
- Ano
- 1779
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 324, nº 2292 (9)
- Comentário
O manuscrito original deste impresso encontra-se apenso a ele na mesma caixa.
Na Torre do Tombo, conserva-se também documentação relativa a processos para obtenção de licença para impressão e representação d'O esposo fingido, referente aos anos de 1775 (1 e 2), 1779 (1 e 2) e 1780 (1 e 2).
Deste entremez conhecem-se dois folhetos, um de 1782 (Lisboa, Domingos Gonçalves) e outro de 1791 (Lisboa, António Gomes).
A tragédia Mafoma ou O fanatismo, de Voltaire, foi alvo de diferentes traduções e de vários processos na Real Mesa Censória, como atestado pela documentação a ela relativa e até pela variação a que o próprio título foi sujeito. Já em 1770, e posteriormente, também em 1783 e 1784, há registo do despacho para o censor, com diferentes resultados: suprimida no primeiro e aprovada nos restantes dois; de 1776, existe um requerimento para licença de representação, mais um registo do despacho para o censor, um parecer favorável e uma deliberação, respeitantes a uma tradução de José Basílio da Gama.
Na Torre do Tombo, conserva-se ainda um manuscrito da Tradução do Mafoma com despacho para impressão a 25 de Fevereiro de 1785, que origina uma edição no mesmo ano. No entanto, para além desse, devem ser considerados mais três testemunhos manuscritos: um de 1786 (COD. 1381//5), outro de 1795 (COD. 1388//2 = F.R. 17), ambos na Biblioteca Nacional de Portugal, e mais um sem ano na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (TC 765).
- Impresso
- Porto, oficina de António Álvares Ribeiro Guimarães, 1779
Notícia
No Teatro do Corpo da Guarda, na noite do dia 24 do mês de Setembro deste ano se há-de representar, a benefício de Teresa Joaquina, a insigne tragédia intitulada Mafoma ou o fanatismo, composição do célebre monsieur Voltaire e tradução em verso solto por autor de grande nome, para serviço do Teatro da Corte, onde foi recitada com geral estimação e aplauso, não merecendo menos nesta cidade, quando, entre paredes, foi posta em cena pelos curiosos que, pelo seu incomparável merecimento, a fizeram aplaudir.
Na verdade, o seu empenho é dos mais fortes e interessantes e daqueles que justamente conduzem para o carácter de semelhantes composições, e se pode conhecer pelo seguinte Argumento:
Zopiro, xarife de Meca e chefe da Lei de Ismael, pelo zelo desta foi o mais tenaz opositor das fortunas de Mafoma. Este horroroso monstro que, não sendo mais que um vil condutor de camelos, de escuro nascimento e péssima conduta, achou arte de enganar os povos e, por meio de um vigoroso fanatismo, fazer-se árbitro dos corações dos ignorantes, a quem persuadiu ser o profeta do altíssimo e empreendeu o senhorio absoluto de todo o mundo. A tirania simulada, a vingar-se [vingança], a perfídia e a mentira foram as bases sobre que fundou este atrevido projecto.
Opôs-se Zopiro a estes abomináveis projectos e suposto conseguiu matar os filhos de Mafoma, não pôde fazer o mesmo ao vil sedutor, antes, em um choque, perdeu dois dos seus, Zaide e Palmira, a quem o tirano fez criar debaixo da sua pérfida e fanática educação, sem que nunca pudessem saber quem eram seus pais. Os impulsos de sangue fizeram namorar os dois irmãos e este incestuoso amor abriu no peito de Mafoma um entranhável ciúme porque, ocultamente, adorava a Palmira. Ocultou, contudo, este rancor enquanto maquinava novas perfídias. Triunfante, e seguido de numerosa, enganada, plebe, chega a Meca onde Zopiro lhe disputava a religião e a primazia. Quer reconciliar-se com este, para o que busca os mais estranhos estratagemas, que, sendo por Zopiro contrastados,
finalmente usa da violência, do engano, da traição e da perfídia. Com o preceito da religião, induz a Zaide para que assassine a Zopiro, lisongeando-o com a impostura de que entre tantos fora ele só o escolhido para vingador do omnipotente ofendido. Diz-lhe que cumpra o preceito sem a menor demora e logo o fez envenenar para dissimular o assassinato. Induz a Palmira para que anime o irmão ao parricídio e, jogando desta forma os lances do horroroso atentado, se vangloreia e alegra com aquela crueldade. Os remorsos desconhecidos de Zaide à vista do pai, os impulsos do afecto e do preceito é a maior beleza da tragédia. Finalmente, incitado de Palmira, corre ao desgraçado parricídio e, junto ao altar onde Zopiro se acha orando, lhe atravessa o peito. O horror do delito o perturba
e o nome de filho com que Zopiro o trata o faz delirar. Neste lastimoso lance, e, na verdade, o melhor da tragédia, chega Fanor, confidente de Zopiro, que lhe declara serem Zaide e Palmira os seus perdidos filhos, segredo que lhe confiara Ercida, que os havia entregue ao tirano Mafoma. Os fortíssimos transportes de ódio, afecto, ira e furor entre Zopiro, Zaide e Palmira são belíssimos, admiráveis e que adornam sumamente o lance. Jura Zaide de vingar o sangue paterno e o mesmo faz Palmira. Convocam o povo e este, que principia a aborrecer a Mafoma, tumultuariamente se conspira, e seria, sem dúvida, aquele o dia do justo fim do pérfido tirano se ele não convocara a todos para insinuar-lhes o poder que dizia ter sobre a morte, confiado no veneno já tomado por Zaide. Na presença de
numeroso povo diz que é árbitro da vida de todos, é o profeta de Deus e o senhor da morte, que entre ele e Zaide morra o pérfido e, deste modo, se conheça quem ofendeu a divindade. O veneno, que já obrava, faz palpitar a Zaide e, finalmente, o mata. O povo crê o castigo, mas Palmira, que já conhece as perfídias do tirano, publica o engano e se atravessa com um punhal, frustrando, assim, as esperanças do malévolo, que a pretendia para esposa.
Os episódios são os mais fortes e brilhantes que podem encontrar-se em semelhante espécie de composições e o objecto o mais abominável por ser de um rigoroso fanatismo. Finalmente, a tragédia é uma das mais excelentes obras daquele célebre escritor.
Será adornada de todo o preciso e competente cenário e vestuário, armando-se
vistosamente a casa e iluminando-se com cera e com abundância de luzes.
No fim do primeiro acto, se executará um novo, excelente e harmonioso concerto de flautas, de admirável composição. Acabado o segundo, se seguirá uma nova e completa sinfonia.
Finalizado o terceiro, cantará a beneficiada uma nova e incomparável ária, composição de um moderno e insigne autor.
Seguir-se-á ao quarto um admirável quinteto, de execução assaz difícil, composto por autor de conhecido nome, e tocado com a devida perfeição.
Dará fim a tragédia com um belíssimo concerto de oboé e acompanhado de boa orquestra. E completar-se-á o divertimento com o novo entremez em música intitulado:
O Esposo fingido , de graciosa e belíssima invenção e gosto.
A beneficiada, que sempre se esmera em procurar um completo divertimento para agradecer aos senhores espectadores a honra e favor com que em semelhantes ocasiões a favorecem, o fez também este ano com a excelente tragédia e belíssimo entremez, que se acha aprovada e licenciada pela Real Mesa Censória e mereceu uma geral aceitação e aplauso nos teatros da corte onde se tem representado, e o mesmo espera lhe suceda neste, por ser esse o motivo mais interessante da sua vontade, que obsequiosamente se sacrifica a tão nobre auditório, etc.
Principiará às horas.
Porto, na oficina que foi de António Álvares Ribeiro Guimarães. Ano de 1779.
Com licença da Real Mesa Censória