- Sumário
- Letras e cimeiras dos justadores nas festas do casamento do Príncipe D. Afonso e da princesa Isabel de Castela (1490)
- Ano
- 1516
- Localização
- Biblioteca Nacional de Portugal (Res-111-A)
- Comentário
- Garcia de Resende enumera com ligeiras variantes a mesma sequência na sua Vida e Feitos del Rei D. João II, publicado em 1545, que também é transcrita (sem explicitar os nomes dos fidalgos) por Aires Teles de Meneses na Arenga ou relação fiel das Festas que se fizeram na Cidade de Évora.
- Impresso
- Cancioneiro Geral, Garcia de Resende (ed.), 1516, ff. 173f-174 f.
A vinte e nove dias de Dezembro de mil e quatrocentos e noventa, fez el rei dom João em Évora uas justas reais no casamento do príncepe dom Afonso seu filho com a princesa dona Isabel de Castela. E foi o dia da amostra ua quinta feira e à sesta se começaram e duraram té o domingo seguinte. E el rei com oito mantedores manteve a tea em ua fortaleza de madeira, sengularmente feita, onde todos estavom de dia e de noite que também justavam. E as letras e cimeiras que se tiram são estas:
Os mantedores:
El rei trazia uns liames de nau e dezia a letra:
Estes liam de maneira
que jamais pode quebrar
quem co’eles navegar.
O prior de sam João trazia Alexandre em cima dos grifos e dizia:
No es menor mi pensamiento
mas ha quebrado tristura
las alas de mi ventura.
Dom Diogo d’Almeida trazia ua boca d’inferno com almas e dizia:
Nembraos de mis pasiones
ánimas y descansaréis
de cuantas penas tenéis.
João de Sousa trazia uma besta fera e dezia:
Aquesta guarda sus armas
mas a mí qu’amor enciende
nunca dellas me defiende.
Aires da Silva trazia um cão cerveiro e dezia:
Guardas tú mas no tan cierto
como yo siempre guardé
la fe del bien que cobré.
Veopargas, francês, trazia ua cabeça de cabra e dezia:
Quien me tocare naquesta
yo le romperé la testa.
Dom João de Meneses trazia um ichó com um homem metido té cinta e dezia:
Es tan dulce mi prisión
que debe pera matarme
no prenderme mas soltarme.
Álvaro da Cunha trazia ua harpa sem cordas e dizia:
Cuanto más oye alegría
quien no alcanza ventura
tanto más siente tristura.
Rui Barreto levava um banco pinchado e dizia:
Más quiero morir tras él
sus peligros esperando
que la muerte recelando.
Aventureiros:
O duque trazia seis justadores seus e ele e eles traziam os sete planetas.
O duque levava o deos Saturno e dizia:
El consejo qu’he tomado
deste muy antiguo dios
es dejar a mí por vos.
Dom João Manuel levava o Sol e dizia:
Sobre todos resplandece
mi dolor
porque es él qu’es mayor.
Pedr’Homem trazia Vénus e dizia:
Si esta gracia y hermosura
puede darla
de vos tiene de tomarla.
Garcia Afonso de Melo trazia a Lua e dizia:
Ante la luz de su lumbre
de vuestra gran claridad
es la desta escuridad.
Lourenço de Brito trazia Mercúrio e dizia:
No hay saber ni descrición
al que os mira
porqu’en vendos se le tira.
João Lopes de Sequeira levava Mares, deos das batalhas, e dizia:
La vitoria que de aqueste
he recebido
es verme de vos vencido.
António de Brito levava Jupiter e dizia:
Aqueste suele dar vida
al que más servir se halla
y vos al vuestro quitalla.
Os outros aventureiros que vieram per si.
Dom Fernando, filho do marquês, trazia um forol e dizia a letra:
En el mar de mi deseo
viendo su lumbre seguí
a ella y dejé a mí.
Pedr’Aires, castelhano, trazia ua serpe e dizia:
La vida pierde dormiendo
el que muerde est’animal
y yo callando mi mal.
Dom Anrique Anriques trazia ua torre com um sino e dizia:
Este sona mi servicio
ser con vos
tan cierto como con Dios.
O conde d’Abrantes trazia ua hidra de sete cabeças e dizia:
Cuando sanan d’un dolor
los que como yo padecen
siete dél se le recriecen.
O capitam Fernam Martins trazia ua atalaia e dizia:
Ha descubierto mi vida
desde aquí
gran descanso pera mí.
Dom Rodrigo de Meneses trazia uas limas e dizia:
Éstas sueltan las prisiones
de que muchos han salido
y a mí han más prendido.
O conde de Vila Nova, levava ua mão com uns malmequeres e dizia:
Cem mil déstas desfojé
mas fue mi ventura tal
que siempre quedó nel mal.
Jorge da Silveira levava uas fateixas e dezia:
Van buscando mis servicios
el galardón que cayó
donde nunca pareció.
Dom Diogo Pereira levava o anjo sam Miguel com balanças e dezia:
Se a mi gran querer y fe
galardón tiene defesa
tú lo pesa.
Dom Rodrigo de Castro levava a torre de Babilónia e dizia:
Es tan baja mi ventura
y tan alto ell adeficio
que no basta mi servicio.
O barão dom Diogo Lobo trazia um liam rompente e dizia:
Con sus fuerzas y mi fe
todos mis males dobré.
Dom Pedro de Sousa trazia um matador e dizia:
Vuestra vida desbarata
más do qu’éste roba y mata.
Francisco da Silveira trazia Luas cheas e mingoadas e dizia:
Las mengoadas son mis bienes
y por mi dicha ser tal
las llenas son de mi mal.
Pero d’Abreu trazia ua águea e dizia:
Nam t’espantes do que faça
sigue-me bem e verás
eu te matarei a caça
e tu a depenarás.
Diogo da Silveira trazia um madronheiro com madronhos e dizia:
Neste remedio de vida
tengo la mía perdida.
sua: Ferido busqué aquesto
por remedio de mi mal
mas no puedo qu’es mortal.
Nuno Fernandes d’Ataíde trazia uns fetos e dizia:
En el comezo de aquestos
comencé
y nellos acabaré.
Garcia de Sousa trazia uns compassos e dezia:
No puede ser compasada
la fe que vos tengo dada.
Arelhano trazia ua celada e dizia:
Es descanso de mi mal
ser en aquesta celada
toda mi vida gastada.
Diogo de Mendoça levava uas âncoras e dizia:
Que venga toda fortuna
jamás sueltan vez nenguna.