Sumário
Informação sobre o indeferimento de um pedido de licença de exercício de actividade por parte dos actores do Teatro do Salitre (30 de Setembro de 1792)
Ano
1792
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Intendência Geral da Polícia, Livro III, ff. 264v-267
Menções
Pinto de Carvalho (Tinop), Lisboa de Outros TemposI Figuras e cenas antigas, Lisboa, António Maria Pereira, 1898, p. 234; Sousa Bastos, Carteira do Artista, Lisboa, José Bastos, 1898, p. 672
[1792]

Setembro, 30

 

Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor José de Seabra da Silva,

 

Na conformidade do aviso que Vossa Excelência me dirige na data de hoje, 30 do presente, em que Sua Alteza me manda remeter a petição inclusa dos cómicos do Teatro do Salitre, os quais pretendem nele trabalhar, para lhe deferir, vou a informar a Vossa Excelência dos motivos por que o não faço.
É bem manifesto que actualmente se não acham nesta Corte todos os cómicos que havia quando trabalhavam os dois teatros nacionais, porque uns foram para Espanha, outros saíram para as colónias deste reino, e outros se inabilitaram por moléstias que lhes sobrevieram, e hoje há um pequeno número que ajustou o empresário, único que se facilitou para se encarregar de tomar a si actualmente o Teatro Nacional, e lhe nomeei o da Rua dos Condes, pelos motivos que exporei a Vossa Excelência, e ordenei ao mesmo empresário que escriturasse os cómicos e dançarinos, constantes de uma relação que lhe entreguei e que me haviam dado os cómicos João Anacleto e José Teles, dos que eram mais hábeis, e que existiam ainda em Lisboa, dos quais se podia formar uma companhia que fosse


tal e qual para se apresentar no público, e nomeei inspector do teatro o Juiz do Crime do Bairro do Mocambo, ao qual apresentou o empresário os sobreditos cómicos, com os quais se havia convencionado voluntariamente, e fizeram as suas escrituras, estando eu autorizado por Sua Alteza, segundo Vossa Excelência me ordenou de ordem do mesmo senhor, para poder prestar esta licença, o que assim executei. 
Agora direi a Vossa Excelência os motivos que tive para escolher para esta empresa  o Teatro da Rua dos Condes. São uns poucos os ditos motivos. Primo, por ter o lugar em que está situado o Teatro da Rua dos Condes a largueza que é bem manifesta. Secundo, por ser um teatro com todas as comodidades precisas para este trabalho. Tertio, por terem largueza os corredores que dão serventia aos camarotes, para não acontecerem aquelas desordens que de ordinário sucedem nestes lugares. Quarto, por ter diversas serventias para a rua, separadas umas das outras, para que, no caso que aconteça algum fogo, possam os espectadores sair com facilidade, e não suceder o que infelizmente aconteceu no Teatro de Saragoça, em que pereceram mais de seiscentas pessoas


por causa de um fogo que houve no mesmo teatro. Quinto, por ter com decência a casa, onde se vão refrigerar alguns dos espectadores para beberem os seus cafés, buscando nela outros socorros para remediarem alguns casos acidentais que acontecem nestes lugares. Informarei agora do Teatro do Salitre. O lugar em que está situado é por Vossa Excelência bem conhecido, como também conhece a serventia que tem da rua. Tem uma única porta, e com um pequeno lugar que dá serventia para a plateia e para os camarotes. A escada não permite que vão duas pessoas emparelhadas. Os corredores são tais que, se se encontrar neles uma pessoa com outra, uma delas há-de encostar-se à parede, e deixar passar a outra, que ainda assim mesmo o faz com opressão. O que pode acontecer em um lugar tão estreito, e a que concorrem os dois sexos, deixo-o à ponderação de Vossa Excelência. É um teatro sem alicerces, formado sobre paus de prumo metidos na terra, susceptíveis de se arruinarem mais depresssa e, por consequência, exposto a maior perigo, pois ainda que se façam vistorias, e estas mandem reformar a segurança do teatro, nunca lhe podem dar a estabilidade que


convém que tenha. Os mestres da cidade e arquitectos, na última inspecção que mandei fazer nele, declararam que não podia subsistir por mais de dois anos, incluindo aquele em que fizeram a mesma vestoria, sem embargo de lhe mandarem fazer interina para aquele ano a obra de segurança que praticaram naquela ocasião.
À vista, pois, do que acabo de ponderar, seja Sua Alteza quem resolva o que eu devo mandar executar, e se a petição inclusa, feita em nome dos cómicos sem ser por eles assinada, deve ter deferimento, quando as ordens de Sua Augusta Mãe eram que se não admitisse requerimento algum sem ser assinado.
Também devo pedir a Vossa Excelência que queira informar o Príncipe nosso senhor que qualidade de gente são cómicos e empresários, que de ordinário são da mais ínfima, e que para os conter e conservar a boa ordem e Polícia do Teatro, é necessária a força, sem a qual nada se pode fazer, porque é uma gente sem melindre ou capricho, e o seu interesse é o que tem no seu coração, e são susceptíveis de tudo aquilo que é mau para o adoptarem, ou seja, contra os bons costumes,


ou contra a honra, o ponto é que eles tenham interesse, além de que não cumprem com o que devem para satisfazerem ao público, e muitas vezes é preciso contê-los para não enxerirem algumas palavras menos decentes que não vêm na peça que executam, e de ordinário também para poderem prevenir-se, e a seu salvo praticarem estas desordens, procuram sempre protectores, para à sombra deles se abrigarem, e poderem denegrir a Polícia, e encobrir a sua malignidade, e com macaquices e visagens ganham os mesmos protectores para estes fins, os quais na presença de Sua Alteza e de seus Ministros de Estado poderão dar as cores que lhes parecer para desgostarem o expector, digo, o executor das reais ordens, e ficarem na sua liberdade, vindo por este modo a conseguir os seus fins.
Por esta ocasião, também vou a representar a Vossa Excelência que é necessário que o Príncipe nosso senhor seja informado de que ordinariamente o maior número de espectadores é gente ociosa, pouco considerada e instruída, e que para os conter e conservar a Polícia do Teatro, é necessário ao Inspector lançar mão das providências que tenho dado para acautelar às desordens e consequências desagradáveis, o que muitas vezes não é bem aceite por aqueles que vêem cortados os seus


 fins, e em quem influi a grandeza do seu nascimento, no que eu não devo atender, neste caso, para conservar a mesma Polícia do teatro, o que todos os vassalos estão sujeitos a cumprir, e quando lhes pareça que não é conforme, têm o meio de o representarem a Sua Alteza, ou aos seus Ministros do Estado, para emendar a providência que está dada por Sua Augusta Majestade nestes últimos anos.
E como não desejo em nada adiantar-me às intenções de Sua Alteza, rogo a Vossa Excelência lho queira representar para me distribuir as suas ordens, e eu fazê-las prontamente executar. Não tomo sobre mim a deliberação que Sua Alteza me faz a honra de confiar-me, por temer errar e poder ser contrária a minha deliberação às mesmas reais intenções do dito senhor.


Lisboa

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Setembro 30    Na conformidade do Avizo, que                      Ill.mo e Ex.mo

V. E.ª me dirige na data de hoje 30                  S.r Joze de

do prezente, em q. S. A. me manda                 Seabra da S.ª

remeter a petição incluza dos Comicos

do Theatro do Salitre, os quaes per-

tendem nele trabalhar, para lhe de

ferir, vou informar a V. Ex.ª dos mo-

tivos, porque o não faço.

He bem manifesto, que actu-

almente se não achão nesta Corte

todos os Comicos, que havia quando

trabalhavão os dois Theatros nacionaes,

porque huns foram para Hespanha,

outros sahirão para as Colonias des-

te Reino, e outros se inhabilitarão

por molestias, que lhes sobrevierão

e hoje ha um pequeno numero, q.

ajustou o Emprezario, unico, que

se facilitou para se encarregar

se tomar a si actualmente o Thea

tro nacional, e lhe nomeei o da

Rua dos Condes pelos motivos, que

exporei a V. Ex.ª, e ordenei ao mesmo

Emprezario, que escripturasse os

Comicos, e Dançarinos constantes

de huma rellação, q. lhe entre-

guei, e que me havião dado os Comi-

cos João Anacleto, e Joze Teles, dos

que erão mais habeis, e que existi-

ão ainda em Lisboa, dos quaes se

podia formar huma comp.ª que fosse


tal, e qual para se aprezentar                           265

no Publico, e nomeei Inspector do

Theatro o Juis do Crime do B.º do

Mocambo, ao qual aprezentou o

Imprezario os sobreditos Comicos,

com os quaes se havia convenci-

onado voluntariamente, e fizerão

as suas escripturas, estando eu

authorizado por S. A. segundo

V. Ex.ª me ordenou de ordem do

mesmo Senhor, para poder pres-

tar esta licença, o que assim

executei.

Agora direi a V. Ex.ª os motivos

que tive para escolher para esta

empreza o Theatro da Rua dos Con-

des: são huns poucos os ditos mo-

tivos. Primo por ter o lugar em que

está situado o Theatro da Rua dos Con-

des a largueza que he bem mani-

festa. Secundo por ser hum Thea-

tro com todas as commodidades pre-

cizas para este trabalho. Tertio,

por terem largueza os corredores,

que dão serventia aos Camarotes,

para não acontecerem aquellas

desordens, que de ordinario succe-

dem nestes lugares. Quarto

por ter diversas serventias pa

ra a rua, separadas humas das

outras, para que no cazo que

aconteça algum fogo possão os

Expectadores sahir com facili-

dade, e não succeder o que in-

felizmente aconteceu no Thea

tro de Çaragoça, em que perece-

rão mais de seis centas pessoas


1792                por cauza de hum fogo, que houve no

mesmo Theatro. Quinto, por ter com-

decencia a caza, onde se vão re-

frigerar alguns dos Expectado-

res para beberem os seus cafés,

buscando nella outros soccorros

para remediarem alguns cazos

acidentaes, que acontecem nestes

lugares.

Informarei agora do Thea

tro do Salitre. O lugar, em que es-

tá situado, he por V. Ex.ª bem conhe

cido, como tão bem  conhece a ser-

ventia, que tem, da rua. Tem

huma unica porta, e com hum pe-

queno lugar que dá serventia p.ª

a platea, e para os camarotes.

A escada não permitte, que vão du-

as pessoas emparelhadas. Os corre-

dores são taes, que se-se- encon-

trar neles huma pessoa com outra,

huma dellas ha-de encostar-se

á parede, e deixar passar a ou-

tra, que ainda assim mesmo, o-

faz com oppressão. O que pode

acontecer em hum lugar tão es-

treito, e a que concorrem os dois

sexos, deixo-o á ponderação

de V. Ex.ª. He hum Theatro sem ali-

cerces, formado sobre páos de pru-

mo metidos na terra, susceptiveis

de se arruinarem mais depressa,

e por consequencia exposto a mai-

or perigo, pois ainda que se fação

vestorias, e estas mandem reformar

a segurança do Theatro, nunca lhe-

podem dar a estabilidade, que


que convem que tenha. Os Mes-                     266

tres da Cidade, e Architectos na

ultima inspecção, que mandei

fazer nele, declararão, que não

podia subsistir por mais de dois

annos, incluindo aquele em q.’

fizerão a mesma vestoria, sem

embargo de lhe mandarem fazer

interina para aquelle anno

a obra de segurança, que practi-

carão naquella occazião.

A vista, pois, do que acabo de

ponderar, seja S. A. quem re-

solva o que eu devo mandar

executar, e se a petição inclu-

za feita em nome dos Comicos sem

ser por eles assignada, deve ter

defirimento, quando as ordens

de Sua Augusta Mai. erão,

que se não admittisse reque-

rimento algum sem ser as-

signado.

Tão bem devo pedir a V. Ex.ª

que queira informar o Principe

N. S. que qualidade de gente são

Comicos e Emprezarios, que de or-

dinario são da mais imfima,

e que para os conter, e conservar a

boa ordem, e Policia do Theatro, he

necessaria a força, sem a qual

nada se pode fazer, porque he

huma gente sem melindre, ou ca-

pricho, e o seo interesse he o que tem

no seo coração, e são susceptiveis

de tudo aquillo, q. he máo para o

adoptarem, ou seja contra os bons

costumes,


ou contra a honra, o ponto he que eles

tenhão interesse. Alem de que não

cumprem com o que devem para sa-

tisfazerem ao Publico, e muitas vezes

he precizo conte-los, para não enche-

rirem algumas palavras menos de-

centes, que não vem na peça, q. execu-

tão: e de ordinario tão bem para po

derem prevenir-se, e a seo salvo pra

ticarem estas dezordens, procurão

sempre protectores, para á sombra

deles se abrigarem, e poderem de

negrir a Policia, e encubrir a sua

malignidade, e com macaquices,

e viragens ganhão os mesmos pro-

tectores para estes fins, os quaes

na prezença de S. A., e de seus Mi-

nistros de Estado poderão dar as-

côres, que lhes parecer para desgos-

tarem o Expector, digo, o Executor

das reaes ordens, e ficarem na sua li-

berdade, vindo por este modo a con

seguir os seos fins.

Por esta occazião tão bem vou

a reprezentar a V. Ex.ª, que he neces-

sario que o Principe N. S. seja in-

formado de que ordinariamente

o maior numero de Expectadores he

gente ocioza, pouco conciderada,

e instruida, e que para os conter, e-

conservar a Policia do Theatro he

necessario ao Inspector lançar mâo’

das providencias, que tenho dado

para acautellar às desordens, e con-

sequencias desagradaveis, o que

muitas vezes não he bem aceite por

aqueles que vêm cortados os seos


fins, e em quem influe a grande-                       267

za do seu nascimento, no que eu-

não devo attender neste cazo pa.ª

conservar a mesma Policia do-

Theatro, o que todos os vassallos es-

tão sugeitos a cumprir, e quando-

lhes pareça, que não he con-

forme, tem o meio de o - reprezen-

tarem a S. A., ou aos seos Minis-

tros do Estado, para emendar a provi-

dencia, que está dada por Sua

Augusta Mai nestes ultimos

annos.

E como não dezejo em na-

da adiantar-me ás intenções de

S. A., rogo a V. Ex.ª lho queira re-

prezentar para me destribuir as

suas ordens, e eu faze-las pronta-

mente executar. Não tomo

sobre mim a deliberação, que

S. A. me faz a honra de confi-

ar-me por temer errar, e poder

ser contraria a minha de

liberação ás mesmas Reaes inten-

ções do d.º Senhor.

Lisboa.