Sumário
Informação sobre a licença das farsas O Lunático e O Quintal do Tio Lopes (11 de Agosto de 1818)
Ano
1818
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Intendência Geral da Polícia, Livro XVII, ff. 272v-274

Agosto, 11

 

Reino.

 

Senhor,

 

Vieram a esta intendência, para serem licenciadas, as duas farsas inclusas, uma das quais tem por título O Lunático, e a outra O Quintal do Tio Lopes, destinadas ambas a serem postas em cena nos teatros desta capital, para o que, como delas se mostra, tinham sido anteriormente levadas à censura do desembargador Domingos Monteiro de Albuquerque e Amaral, e tinham sido apresentadas na Secretaria d’Estado dos Negócios do Reino.

Tendo-as examinado, tanto quanto podem permitir os trabalhos dos empregos em que tenho a honra de servir a Vossa Majestade, achei que eram indignas de merecer a licença da Polícia, pelo que contêm de baixo, de obsceno e de


imoral em os lugares indicados nas observações que delas fiz extrair, e as acompanham juntas.

Os teatros se julgam a escola dos bons costumes e que, geralmente, na minha opinião, são somente espectáculos, e nada mais, úteis unicamente aonde abundam os meios de subsistência, enquanto a inclinação que para eles têm e o tempo que neles gastam as pessoas que dispõem de faculdades excedentes às suas primeiras precisões, servem indirectamente a manter a tranquilidade pública, desviando actos de turbulência. Os teatros, digo, cessam de preencher estes fins e vêm a operar muitos males se, deixando de servir à construção e recreios honesto, como acreditam os que têm a referida opinião, degeneram em escola de corrupção, servindo a perverter a moral pública, e é neste caso que considero as duas mencionadas farsas.

Isto não obstante, suspendi a negação da licença pedida à polícia para as ditas farsas, sem primeiro levar esta conta à presença de Vossa Majestade, atendendo à permissão do censor e à apresentação na Secretaria d’Estado, de que fiz menção.

Dignando-se Vossa Majestade resolver a este respeito o que for servido, seria bem conveniente que (visto o que ocorre a respeito destas duas farsas, o que ocorreu acerca do elogio que pus na real


presença de Vossa Majestade, com a minha conta de 20 d’Abril próximo passado, é o que é de esperar que ocorra muitas vezes com outras semelhantes composições, suposta a tendência que se conhece de escrever frivolidades para os teatros) houvesse Vossa Majestade por bem mandar-me declarar, ao mesmo tempo, quais sejam em tal matéria as faculdades do censor, e quais as que depois da mesma censura compitam à Polícia, sendo certo que ela não pode ter o tempo preciso para o exame reflectido de quantas peças se apresentam para serem postas em cena nos teatros, e sendo igualmente não menos certo que pareceria faltar a uma parte dos seus deveres se, encontrando semelhantes inconvenientes, deixasse de olhar por eles, principalmente conhecendo que o espectáculo de representações dramáticas produz gravíssimas impressões nas classes baixas do povo.

Vossa Majestade ordenará o que for do seu real agrado. Lisboa.

 

Observações feitas no exame da farsa denominada O lunático ou a momia sem igual

 A folhas 31 - Felipa

Esta fala é assaz desonesta e imprópria de uma filha, e tanto mais protestando vingar-se do maldito ócio (de solteira) em que vive, isto é a falta de homem que a agúe por estar ardendo em amorosos eflúvios, como descomedidamente diz a folhas 31 v. 

A folhas

 

 


Extracto das passagens mais dignas de reparo encontradas no exame da Farsa denominada O Quintal do Tio Lopes.

 

A f. 3 - Basílio infra -   Sim Senhor, porém, presentemente, só trabalha em obra de pavio grosso.

 

A f. 10 - infra Lambert - Assim é preciso; vai a chave para o buraco, e tudo ficará escancarado.

 

A f. 11 - in med. – Dito - Parece-me, humanizai-vos com os meus suspiros intestinos.

 

A f. 13 – in primo – Dito - Sirva-se deste, tal qual o tenho. 

 

A f. 14 - in med. – Saramago - Embirre com ela e espirre com o seu arrezoado.

 

A f. 15 - in med. - Máximo -   Aqui vem o seu embrulho, com o meu apenso.

 

Ditas – infra – Lambert - Sim Senhor, muitas vezes (falando das mulheres), pela galanteria dos refolhos se acostumam à insuficiência da empada.

 

A f. 16 - in med. – Dito - Tendes razão, e creio na verdade de minha mãe, que viu muitas vezes a de meu pai à porta d’adega; e logo Maximo - e vinha ao cheiro da pinga; até as almas gostam dele.

 

A f. 17 - in med. – Saramago - Ora isso não faz conta. Porém hei-de ter alguma coisa por onde lhe agrade. Peça vista, e procure-me o existe.

                                              

lisboa, 11 de Agosto de 1818

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                                                                                    S.r

Ag.to 11           Vierao a esta Intendencia para serem licen-

ciadas as duas Farças incluzas, huma das qua-

Reyno              es tem por titulo = O Lunatico = e a outra =

O Quintal do Tio Lopes = destinadas am-

bas a serem postas em scena nos Theatros

desta Capital, para o que como dellas

se mostra tinhão sido anteriormente le-

vadas à censura do Dezembargador

Domingos Monteiro de Albuquerque

e Amaral, e tinhão sido aprezentadas

na Secretaria d’Estado dos Negocios do

                                     Reyno.

          Tendoas examinado tanto quanto

podem permittir os trabalhos dos Em-

pregos em que tenho a honra de servir a

V. Mag.e achei que erão indignas de

merecer a licença da Policia pelo que

contem debaixo de obsceno, e de im-

                                                      mo=


moral em os lugares indicados nas observa-

çoens que dellas fis extrahir e as acompanhão

                                   juntas.

Os Teatros se julgão a escola dos bons

costumes, e que geralmente na minha opi-

nião são somente Espectaculos, e nada mais,

uteis unicamente aonde abundam os meios de

subsistencia emquanto a inclinação que

para elles tem, e o tempo que nelles gastão

as pessoas que dispoem de faculdades exce-

dentes ás suas primeiras precizoens; ser-

vem indirectamente a manter a tranqui-

lidade publica, desviando actos de Turbu-

lencia; os Theatros, digo, cessão de prehencher

estes fins, e vem a operar muitos males se

deixando de servir á construção, e Recreios

honesto, como acreditão os que tem a Referi-

da opinião, degenerão em escola de corrup-

çao, servindo a perverter a moral publi-

ca, e he neste cazo que considero as du-

                                   as mencionadas farças.

             Isto não obstante suspendi a ne=

gação da Licença pedida á Policia para

as ditas Fraças, sem primeiro levar esta

Conta à Prezença de V. Mag.e, attenden-

do a permissão do Censor, e à aprezenta-

ção na Secretaria d’Estado de que fis

                                    menção.

Dignando-se V. Mag.e Resolver

a este respeito o que for Servido, seria

bem conveniente que / visto o que occorre

a Respeito destas duas Farças, o que oc-

correo á cerca do Elogio que pus na Re-

                                                           al


al Prezença de V. Mag.e com a minha Conta

de 20 d’Abril proximo passado, é o que he de

esperar que occorra muitas vezes com outras

semelhantes compoziçoens, suposta a

tendencia que se conhece de escrever fri-

volidades para os Theatros / Houvesse

V. Mag.e por bem mandar-me decla-

rar ao mesmo tempo quaes sejão em

tal materia as faculdades do Censor,

e quaes as que depois da mesma censu-

ra compitão à Policia, sendo certo

que ella não pode ter o tempo precizo

para o exame reflectido de quantas Pe=

ças se aprezentão para serem postas em

Scena nos Theatros, e sendo igualmente

não menos certo que pareceria faltar

a huma parte dos seus deveres se encon-

trando semelhantes inconvenientes dei-

xasse de olhar por elles, principalmen-

te conhecendo que o Espectaculo de Re-

prezentaçoens Dramaticas produs

gravissimas impressoens nas Classes bai-

xas do Povo.

                  V. Mag.e Ordenarà o que for do

Seu Real Agrado.

                                                           Lx.ª

 

        

          Observaçoens feitas no Exame

da Farça denominada - O Lu-

natico ou a momia sim i-

gual -

Af 3 - Felipa    Esta falla he assaz desonesta,

                        e impropria de huma filha, e tan-

                        to mais protestando vingarse do

                        maldito ocio (de solteira) em q' vive,

                        isto he a falta de homem q' a agúe por estar

                        ardendo em amorozos efluvios, como

                        descomedidam.te dis a fl. 31                    Afl.

                              

 


            Extracto das passagens mais dignas de

            reparo encontradas no exame da Farça

            denominada = o Quintal do Tio Lopes =

 

 

af3 = Bazilio inf.                       Sim Senhor... porem prezen-

                                               tem.te só trabalha em obra

                                               de pavio grosso.

 

af10  inf. Lambert                    assim he precizo… vai a cha-

ve para o buraco, e tudo fica-

rá escancarado.

 

Af11 in med.   D.º                   Parece-me… humanizai-

                                               vos com os meus suspiros in-

                                               testinos.

 

Af13 inpr.        D.º                   Sirva-se deste tal, qual

                                               o tenho. 

 

Af14 in med.    Saramago        Embirre com ella, e espir=

                                               re com o seu arrezoado.

 

Af15 in med.    Maximo           Aqui vem o seu embru-

                                               lho com o meu apenço.

 

D.as ... inf.         Lambert          Sim Senhor, muitas ve-

                                               zes (falando das mulheres)

                                               pela galanteria dos Refolhos

                                               se acostumaó à insufi-

                                                ciencia da Empada

 

af16 in med.      D.º                 Tendes razaó… e creio

                                               na verdade de m.ª May,

                                               que vio m.tas vezes a de meu

                                               Pay à porta d’Adega = E =

                                               logo Maximo = e vinha

                                               ao cheiro da pinga; até

                                               as Almas gostaó delle.

 

Af17 in med.     Saram Ora isso naó faz conta;

                                               porem heide ter alguma

                                               couza por onde lhe agra=

                                               de. Peça vista, e procu-

                                               reme o existe.

                                              

Lx.ª 11 de Ag.to de 1818