- Sumário
- Informação sobre a construção de um novo teatro de ópera e hábitos teatrais em Salvaterra por Daniel Luís da Silva Freire no seu Elogio Histórico do Magnânimo Rei O Senhor Dom José I (1755)
- Ano
- 1755
- Biblioteca/Arquivo
- Biblioteca da Academia das Ciências
- Cota
- Códice 353 (manuscrito azul)
- Menções
- Natália Brito Correia Guedes, O Paço Real de Salvaterra de Magos, Lisboa, Horizonte, 1989, p. 152
Todas as cortes civilizadas da Europa têm para devertimento público casas de ópera em que se entretêm não só as famílias reais senão ainda a nobreza para os livrar de maus pensamentos e sedições ocupando-se seriamente no que vêm e no que ouvem que no método presente não só serve para recrear, mas ainda para instruir. Sua Majestade, não só por estes motivos senão também pela grande propensão que tinha às artes liberais, estabeleceu uma. Com que magnificência e arquitectura ela fosse edificada, qual fosse a tribuna do rei, qual a decoração, quais os actores,
qual a orquestra, ainda hoje haverá muito ou quem se lembre de semilhante pompa, ou que o tenha ouvido a seus pais e avós.
Por morte do Senhor Dom João V ficou para Sua Majestade um único Secretário de Estado chamado Pedro da Mota, irmão do Cardeal do mesmo apelido e primeiro Ministro, ambos de suma rectidão e desinteresse e não podendo este servir pelos seus achaques e dilatados anos foi Sua Majestade servido nomear a Diogo de Mendonça que tinha servido em Holanda e a Sebastião José de Carvalho, que tinha servido em Londres e em Alemanha. Desunidos porém estes dois pelos diversos partidos e interesses que tomaram, não querendo Sua Majestade o seu gabinete vacilante e querendo seguir um plano conforme as suas ideias, despediu do seu Serviço a Diogo de Mendonça mandando-o para um desterro com tal dissimulação e artificio que só o Ministro o compreendeu depois de executado. A ele se seguiu Dom Luís da Cunha e Tomé Joaquim, que por ocultos motivos também
teve a mesma sorte.
Costumam os reis de Portugal, depois da Festa do Desagravo passarem a Salvaterra e nas campinas daquele sítio exercitarem-se na caça dos veados. Sua Majestade porém para alívio do trabalho e da tristeza das noites grandes naquela estação levou consigo os actores da ópera e ali em um pequeno teatro fez representar o mesmo que se fazia em Lisboa com os músicos de maior preço que nunca saíram da Itália.
Todas as cortes civilisadas da Europa tem
para devertimento publico Cazas de Opera, em que se
entretem não só as Familias Reais se não ainda a no
breza para os livrar de maos pensamentos e sediçoens
occupando-se seriamente no que vem e no que ouvem
que no methodo prezente não só serve para recrear, mas
ainda para instruhir. Sua Mag.de não só por estes mo-
tivos se não também pela grande propensão que tinha
às Artes Liberais, estabeleceu huma. Com que magni-
ficencia e architectura ella fosse edificada; qual fosse
a tribuna do Rei, qual a decoração, quais os actores
qual a Orchestra, ainda hoje haverá muito ou q.m
se lembre de semilhante pompa, ou que o tenha ou-
vido a seus Pays e Avós.
Por morte do Senhor Dom João V ficou para
S. Mag.de hum unico Secretario de Estado chamado Pe-
dro da Mota, irmão do Cardeal do mesmo apelido e
primeiro Ministro, ambos de summa rectidão e desin-
teresse e não podendo este servir pelos seus achaques
e dilatados annos foi S. Mag.de servido nomear a Di-
ogo de Mendonça que tinha servido em Ollanda e
a Sebastião Jose de Carvalho, que tinha servido em
Londres e em Allemanha. Desunidos porem estes dois
pelos diversos partidos e intereces que tomarão, não
querendo S. Mag.de o seu gabinete vacilante e que-
rendo seguir hum plano conforme as suas ideias, des-
pedio do seu Serviço a Diogo de Mendonça mandan-
do-o para hum desterro com tal dessimulação e arti-
ficio que só o Ministro o comprehendeo depos de
executado. A elle se seguio Dom Luis da Cunha e
Thomé Joaquim, que por ocultos motivos tambem
teve a mesma sorte.
Costumão os Reis de Portugal depois da Festa
do Desagravo, passarem a Salvaterra, e nas campinas
daquelle sitio exercitarem-se na Cassa dos Veados.
S. Mag.de porem para alivio do trabalho e da tristeza
das noites grandes naquella estação levou consigo os
actores da Opera e ali em hum pequeno Theatro fez
representar o mesmo que se fazia em Lisboa com os
muzicos de maior preço que nunca sahirão da Italia.