Sumário
Folheto do drama para música Ciro Reconhecido (1740)
Ano
1740
Localização

Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (Misc.587)

Impresso
Lisboa, Oficina Joaquiniana da Música de D. Bernardo Fernandez Gayo, 1740

 

Ciro Reconhecido , drama para música, para se representar em Lisboa no Teatro da Rua dos Condes, no ano de 1740. Dedicado à nobreza de Portugal.

Lisboa ocidental. Na Oficina Joaquiniana da Música de D. Bernardo Fernandez Gayo.

 

Com todas as licenças necessárias, ano de 1740.

 


 

Argumento.

O crudelíssimo Astiage, último rei de Media, em ocasião do parto da sua filha Mandane, pediu aos advinhadores que lhe explicassem um sonho, e por ele lhes foi dito que o nascido neto lhe tiraria o reino, pelo que ele para prevenir este risco, ordenou a Arpago que matasse o pequeno Ciro, que tal era o nome do nascido infante e dividiu  Mandane do esposo Cambise, religando este em Pérsia e retendo a outra em seu poder, para que não nascesse deles juntos com outros filhos novas causas a seus temores. Arpágo não tendo ânimo de executar com as próprias mãos tão  bárbara ordem, entregou escondidamente o menino a Mitridate, pastor dos gados reais, para que o expusesse em um bosque. Achou que a mulher de Mitridate tinha naquele mesmo dia parido uma criançasem vida, e com a sua natural piedade, ajudada do cómodo da troca, persuadi-os ambos, que expusesse Mitridate o próprio filho já morto, e que educasse o pequeno Ciro debaixo do nome de Alceo, e

 


 

 

em trajes  de pastor, em lugar do outro. Passados deste tempo quase quinze anos, acendeu-se uma voz, que Ciro achado menino em uma floresta, fosse conservado pela piedade de alguns e que vivesse entre os Scitas. Houve um embusteiro tão atrevido, que aproveitando-se desta fábula, ou tendo-a talvez com o estudo inventada, tomou o nome de Ciro. Turbado Astiage de tal nova, chamou Arpágo, e de novo lhe perguntou se verdadeiramente tinha ele matado o pequeno Ciro quando por ele lhe foi imposto. Arpágo que pelos exteriores sinais de Astiage tinha razão para o julgar arrependido, lhe pareceu uma oportuna ocasião de tentar seu ânimo, e lhe respondeu. De não ter tido ânimo de o matar, mas que o tinha exposto em um bosque, preparado para descobrir toda a verdade, quando o rei se complacesse da sua piedaosa desobediência , assegurado no entanto, que quando se irritasse não poderiam cair os seus furores, que sobre o fingido Ciro, de quem, com esta meia confissão, acreditava o embuste. Irritou-se Astiage, e em castigo da violada ordem, mandoumatar um filho de Arpágo, e com tão bárbaras circunstâncias, que não sendo necessárias para a

 


 

acçãoque se representa, de boa vontade deixamos de distingui-las. O infeliz Arpágo sentiu trespassar-se o coração na perda do filho, mas contudo desejoso de vingança, não deixou mais liberdade às iras paternais, se não a que necessitava, para que a soberba tranquilidade não diminuisse crença à sua dissimulada ressignação. Fez querer ao rei, que nas suas lágrimas tivesse maior parte o arrependimento do erro, que a dor do castigo, e o assegurou de tal sorte, que se lhe não tornou a dar inteiramente a primeira confiança, ao menos não se guardava dele. Começam agora Arpágo a meditar a sua vinguança, e Astiage nas formas  de assegurar-se no trono com a opressão do querido neto. O primeiros e aplicou a sublevar e irritar os grandes contra o rei, e a excitar o príncipe Cambise até em Pérsia, de onde vivia desterrado, e o segundo a dissimular arrependimento da crueldade  que usou contra Ciro, com ternuras para ele, desejo torná-lo a ver, e resolução de o reconhecer por seu sucessor, a um e ao outro, saíu tão felizmente designio, que já não faltava que o estabelecimento do dia e lugar a Arpago para oprimir o tirano com a aclamação do verdadeiro Ciro, e a Astiage para colher nas

 


 

suas forças o muito crédulo embusteiro por meio de um fraudolento convicto.

Era costume dos reis de Media celebrar cada ano nos confins do reino, de onde justamente estavam as cabanas de Mitridate, um solene sacrifício a Diana, o dia e o lugar de tal sacrifício, que serão aqueles da acção, que se representa, pareceram oportunos a ambos para a execução do seu desígnio. Aí, por vários acidentes matado o fingido Ciro, descoberto e aclamado o verdadeiro, se viu Astiage muito vizinho a perder o reino, e a vida, mas defendido do generoso neto, cheio dos sentimentos dos seus delitos, e de ternura, depõe na cabeça de Ciro o dyadema real, e o conforta, pelo própro exemplo, a não abusar dele, como ele tinha abusado.

A acção se representa em uma campanha nos confins de Media.

 

As palavras , Deus; Nume, Fado, etc. São expressões poéticas, e não de quem escreveu, que protesta ser verdadeiro católico.

 


 

Mutações das Cenas.

 

Campanha nos confins da Media, cheia de numerosas tendas para assistir Astiage, e a sua corte.

 

Parte interna da cabana de Mitridate.

 

Vasta planície cheia de ruínas de antiga cidade.

 

Montanhas

 

Aspecto exterior de magnífico templo, dedicado a Diana, fabricado na eminência de um monte.

 


 

Pessoas

Mandane, princesa de Media, filha de Astiage. A senhora Ângela Paghetti.

 

Ciro filho de Cambise e de Mandane, em traje de pastor, com o nome de Alceo. A senhora Francisca Poli de Brescia.

 

Cambise, príncipe persiano, marido de Mandane, el traje de pastor. A senhora Maria Catarina Negri de Bolonha.

 

Arpago, valido de Astiage, pai de Arpalice. O senhor Jozé Schiavoni de Siracusa.

 

Arpalice, amiga de Mandane. A senhora Joana Franchi romana.

 

Astiage, rei de Media. O senhor António Santini.

 

Mitridate, pastor. A senhora Petronilha Trabó romana.

 

 

Arquitecto e inventor de cenas. O senhor Salvador Colonelli.
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