Sumário
Folheto do drama A noite mais feliz (1783)
Ano
1783
Localização
Bilbioteca Geral da Universidade de Coimbra (Misc. 613); Sala Jorge de Faria (JF 2-4-62)
Comentário
O exemplar da Bilbioteca Geral da Universidade de Coimbra apresenta no fim da folha de rosto uma nota manuscrita de oferta pelo autor
Impresso
Lisboa, na oficina patriarcal de Francisco Luís Ameno, 1783

A noite mais feliz , pequeno drama ao nascimento do menino Deus, oferecido à muito alta e augusta majestade da fidelíssima rainha D. Maria I, por Joaquim Franco de Araújo Freire Barbosa 

 

Lisboa, na oficina patriarcal de Francisco Luís Ameno, 1783

Com licença da Real Mesa Censória

 


 

Senhora,

Querendo eu dar à luz este pequeno drama, que, instado por alguns amigos, compus ao Nascimento de Cristo Senhor Nosso, assentei que a nenhuma outra pessoa devia dedicá-lo senão a Vossa Majestade, que, tendo o augusto nome da mãe do rei dos reis, faz na terra as vezes deste supremo e omnipotente senhor. O assunto, de si piedoso e devoto, estava convidando

 


 

a oferecer a Vossa Majestade (em quem vemos recompilada toda a piedade e religião dos reais troncos de Áustria e Bragança) uma obra em que se canta o mistério mais glorioso da nossa fé. Isto mova a Vossa Majestade a pôr os olhos nestes versos, que ao real trono de Vossa Majestade leva o vassalo mais inútil, no qual se os seus benigníssimos olhos se detiverem um pouco, pode ser que fique, então, hábil para cantar as gloriosas acções de Vossa Majestade, a quem Deus prospere e dilate os preciosos anos, os de seu régio esposo e sereníssimos filhos, para sossego e glória de Portugal. Estes os sinceros desejos que tem  

 

De Vossa Majestade,

O vassalo mais obediente,

Joaquim Franco de Araújo Freire Barbosa

 


 

Ao leitor

 

Leitor, compus eu este pequeno drama bem sem intenção de que chegasse ao tribunal da tua crítica, mas o mesmo motivo que tive para o compor me faz agora dá-lo à luz pública, quero dizer, os rogos de alguns amigos. Não creias que seja isto o vulgar fingimento dos autores, que querem debaixo desta máscara disfarçar o seu orgulho literário e a sua ambição em ganhar fama. Não, compus este poema tão arrebatadamente que nada podia julgar viesse a diuturnizar-se pela estampa. Bem creio que nele talvez haja algumas belezas, mas como estou certo que o número dos erros será maior, como podia eu aspirar aos teus elogios? Mas, enfim, como ele vai a teus olhos e adornado com o augusto nome, que leva em sua frente, bom será que te previna em algumas coisas de que me poderás culpar.

É muito simples a sua acção, não

 


 

tem nexo. Assim é; quis seguir nisto o famoso Metastasio nos seus Oratórios. Não queiras nivelar esta pequena peça pela rigorosa medida de Aristóteles e Horácio. É ela tão singela como os actores que nela representam. É a verdade infalível do Evangelho seguida em verso. Tanto trabalhei por alcançar esta amável simplicidade que até a procurei no estilo, do qual também me não deves repreender, porque este é o que convém a pastores; este o que usaram os Gregos, Latinos, os nossos bons Portugueses do Século de Quinhentos, e modernamente os Alemães nas suas éclogas, entre os quais o famoso e incomparável Gessner (cujos idílios, com o favor de Deus darei brevemente à luz no nosso idioma traduzidos em verso) tantos louvores tem merecido. Se acaso na Segunda Parte se elevam ao sublime nos cantos com que celebram o faustíssimo nascimento, tive exemplos que seguir em Sannazaro no seu poema de Partu Virginis e no nosso português Manuel das Póvoas, na sua Vida de Cristo, os quais ambos fingindo

 


os seus pastores como arrebatados e inspirados com a divina presença os fazem cantar; o primeiro seguindo a écloga Polio de Virgílio e o segundo imitando ou traduzindo alguns dos salmos de David relativos ao Nascimento.

Cuidei muito na suavidade do metro, porque tenho assentado que, sendo ela em todas as mais partes da poesia indispensável, é na pastoril indispensabilíssima, porque pinta a suavidade de costumes que ali se imitam.

Leitor, eis aqui as coisas que eu queria não ignorasses para nelas anticipar-me a responder aos teus reparos. Todos os mais que me fizeres agradecerei sendo judiciosos e desculparei sendo mal fundados, porque conheço que quem escreve e imprime tanto deve agradecer e aproveitar-se das boas críticas como desculpar e não embaraçar-se com as más, pois umas lhe aproveitam moral e outras literariamente. Bem me entendes, lê, desculpa e vale.

 

  


 

 

Pessoas:

O anjo S. Gabriel (*)

Isaac, José, Jacob, pastores

Simeão, velho, pastor

 

 

(*) É tradição da Igreja que foi ele quem avisou os pastores. Veja-se S. Jerónimo, Espistola 48 ad Sabiniam, Melchior de Castro, História da Virgem, lib. 1, cap. 7

 
Image 6423
Image 6424
Image 7104
Image 7105
Image 7106
Image 7107
Image 7108