- Sumário
- Folheto do Diário das festas, com que na Praça de Almeida se festejou a feliz notícia do faustíssimo desposório, celebrado no dia 6 de Junho do presente ano entre a Augustíssima Senhora Princesa do Brasil, nossa Senhora, e seu tio, o Sereníssimo Senhor Infante, D. Pedro (1761)
- Ano
- 1761
- Localização
- Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (Miscs. 92 e 216)
- Impresso
- Coimbra, na Real Oficina da Universidade, 1761
- Menções
- José Manuel Tedim, “Uma Festa Militar em Almeida na 2ª Metade do Séc. XVIII”. in Revista de Ciências Sociais da Universidade Portucalense Infante D. Henrique. Porto. vol. VI. 1991. pp. 229-243; Maria Margarida Simão Tavares da Conceição, “A praça de guerra como cenário barroco”, in Barroco Iberoamericano. Territorio, Arte,Espacio y Sociedad (Actas del III Congreso Internacional), Sevilha, Ediciones Giralda - Universidad Pablo de Olavide, 2001, pp. 1511-1527
Diário das festas, com que na Praça de Almeida se festejou a feliz notícia do faustíssimo desposório, celebrado no dia 6 de Junho do presente ano entre a Augustíssima Senhora Princesa do Brasil, nossa Senhora, e seu tio, o Sereníssimo Senhor Infante, D. Pedro, com os aditamentos da publicação das mesmas festas: Loa que se representou com as comédias; e o Formulário do ataque e defensa de uma Praça, ou Ensaio militar.
Tudo em demonstração de reverente obséquio a tão glorioso assunto.
Coimbra, na Real Oficina da Universidade, ano de 1761.
Com todas as licenças necessárias
Diário das festas
Logo que no dia 11 de Junho do presente ano chegou à Praça de Almeida um expresso com a fausta notícia e tão interessante a Portugal do felicíssimo desposório, celebrado no dia 6 do próprio mês entre a Augustíssima Senhora Princesa do Brasil e seu tio, o sereníssimo senhor infante D. Pedro, nosso clementíssimo soberano, o ilustríssimo e excelentíssimo senhor Manuel Freire de Andrade, Mestre de Campo General, que governa as armas desta província, levado daquele ardente amor para com seus Augustos Príncipes, que misturado gloriosamente
no preclaro e antiquíssimo sangue dos Freires, foi sempre o nobre princípio daquelas acções que têm feito suspirar a antiga grandeza dos nossos heróis portugueses, sem perda de tempo, anunciou esta feliz nova à nobreza, clero, corpo regular de tropas, e por carta ao Senado, rogando uniformemente a todos, se congratulassem com ele em tão suspirada felicidade pelas públicas demonstrações, a que o seu incessante alvoroço dava princípio no mesmo dia e hora, enquanto se dispunham festas gerais. Lançou-se pregão para três noutes de luminárias, e se passaram as ordens conducentes para que à boca-noute bordasse a Guarnição todos os parapeitos da muralha e repetisse três salvas em cada uma, a que correspondiam outras três de artilharia de sessenta peças. Dividiram-se os tambores e clarins em três coros: o primeiro se postou no alto da abóbada das Portas de Santo António, donde faziam as tropas a direita; os timbales e clarins, que formavam o segundo no alto das Portas da Cruz; e o terceiro de tambores, no lado esquerdo, que fechava no Cavaleiro da Praça Alta, abraçando o recinto quasi em círculo. A torre dos sinos da igreja
maior, os conventos das religiosas e S. João de Deus, a Vedoria, Casas da Câmara, o Pelourinho, e, geralmente, toda a Praça se iluminou com a melhor simetria e gravidade, que jamais se viu nela; e como a referida Torre está fabricada em uma eminência que suavemente vai decaindo para a muralha ao Norte, formavam as ruas iluminadas neste declívio com a Torre vistas da mesma muralha, a mais grata e deleitável perspectiva que pode fingir a mais fecunda imaginação. Na mesma hora em que chegou o aviso, se expediram as ordens precisas às Praças de Castelo Rodrigo, Alfaiates, Penamacor, Segura e Salvaterra, para as mesmas demonstrações festivas.
Findos os três dias e noutes, em que as aclamações e vivas do povo reproduziram nos ânimos aquele cordial e antigo afecto, e lealdade portuguesa aos seus clementíssimos soberanos, desde a sua primeira época, ordenou que o regimento de infantaria desta Praça e o batalhão que a guarnece da de Penamacor concorressem mútuos com três bailes e danças em todos os Domingos e dias santos até às festas gerais, que se continuaram
sem interrupção de tempo, de forma que até à conclusão das referidas festas foi um continuado obséquio de máscaras, danças, entremezes e toda a diversão séria e burlesca que podia excogitar a curiosidade e o gosto.
Recolhido o regimento de cavalaria que estava disperso nos seus respectivos quartéis de verde, de comum acordo entre o mesmo general, os senadores, a nobreza e povo, se regulou o plano das festas gerais pela ordem seguinte: três dias para comédias, três para touros, três para torneios, três para o ataque e defesa de uma Praça artificial ou ensaio militar e dous para fogos festivos. Para director das comédias, composição da loa e de todas as representações cómicas, nomeou o nosso estimadíssimo general ao capitão de granadeiros Francisco Coelho da Silva; para a composição dos fogos festivos, ao tenente de infantaria do regimento de Penamacor, Filipe Toscano de Sousa; e para os fios dos torneios e alcancias, os cavaleiros de que ao diante faremos individual memória, reservando à sua conduta as direcções
para o ensaio militar, como melhor exporá o seu contexto.
No dia 10 de Agosto que foi o do glorioso mártir São Lourenço, se levantou o mastro indicando o objecto das festas a que se dava princípio. Foi esta tarde uma das mais alegres e gratas que jamais se têm visto em semelhantes erecções, porque juntando-se à porta do Trem novo as seis danças acusadas nos parágrafos antecedentes, que faziam o número de mais de outenta mascarados, galhardamente vestidos de homem e mulher, segundo as diversas figuras que representavam; e entre elas uma dança de pretos, tão própria como engraçada. Todos os furriéis do regimento de cavalaria a cavalo, comandados pelo seu furriel-mor; todos os clarins, tambores e timbales da guarnição postos em ordem. Fazia a vanguarda de tudo a primeira partida da guarda dos timbales com a espada na mão; em seu seguimento os mesmos, e a 20 passos detrás dos furriéis todos os tambores da guarnição tocando a Generala; e se iam seguindo por alternativa as figuras das danças de duas em duas, formando duas alas. Junto ao pé do mastro o cadete
José António de Almeida, ricamente vestido à trágica; levava arvorada uma bandeira de seda, que se havia colocar no mastro, bordada de uma parte com as armas reais e no reverso o globo ou esfera. Por guarda da bandeira, iam emparelhadas com esta figura duas de homem vestidas com a mesma gravidade com a espada na mão. Seguia-se o mastro conduzido por vinte e quatro artilheiros que o traziam em braços. Desceu esta luzida e faustosa comitiva pela Rua dos Ferreiros e voltando pela direita veio à Praça e ao Terreiro, passando a arvorá-lo na rampa, em que as danças por sua série lhe foram bailar à roda. Houve em todas belíssimas e esquisitas passagens e laços, e foram em toda a parte recitadas as aclamações e vivas do povo aos nossos clementíssimos soberanos e régia prole.
No dia 17 se publicaram as festas. Para a celebridade deste brilhante acto, se convocou a maior parte da nobreza e oficiais da guarnição, que formaram dous fios de vinte e duas parelhas de cavaleiros guiados pelo sargento maior do regimento da cavalaria, Manuel Lopes de Frias, todos tão ricamente vestidos, como
bem ajaezados os seus cavalos, levando tochas na mão. O oficial da vedoria, José Bernardo da Costa, vestido à trágica e montado em um cavalo branco representava a figura da Fama. As ruas se iluminaram com a mesma vastidão e ordem de luzes que nas primeiras noutes. Na Praça defronte das janelas do nosso estimadíssimo general, deu a Fama o primeiro brado deste devido e reverente obséquio aos dous augustos consortes, recitando o Romance Heróico do número primeiro, produção do singular e raro engenho do alferes de cavalos Manuel de Brito Soares, bem conhecido pela gravidade, natureza e valentia dos seus poemas, a que se seguiram três gostosos vivas do luzido concurso e multidão do povo, neste e nos mais lugares públicos, fixando-se a final no Pelourinho, com as cerimónias que inventou a polícia na celebração destes actos.
Deste dia ao de 9 de Setembro, se continuaram os ensaios e disposições concernentes às mesmas festas gerais. No antecedente, à noute, houve repique de sinos e toda a Praça se vestiu de luzes pela direcção das mais; e se deu princípio com a festa da igreja e Lausperenne, dous
sermões e se cantou o Te Deum, em acção de graças, com a assistência de todo o clero e nobreza; todos os oficiais da guarnição, com os seus respectivos cabos, o auditor geral, Inácio José da Mota de Carvalho, e mais oficiais de justiça, e os juízes e camaristas em corpo de senado. Pregou de manhã o reverendo padre mestre frei Leonardo de Santa Rosa Sá Vedra e Meneses, da Terceira Ordem de S. Francisco, com a erudição e agudezas que são naturais da sua eloquência e grande literatura, com o seguinte tema: Liber generationis Jesu Christi: Jacob autem genuit Judam et fratres ejus… Joseph virum Mariae, de qua natus est Jesus. De tarde pregou o reverendo padre mestre frei António dos Anjos, da mesma ordem, conhecido entre os pregadores de nome pelo de Ladario; tomou o seguinte tema: Annuntio vobis gaudium magnum, quod erit omni populo. O concerto de vozes foi pelos melhores músicos da diocese de Ciudad Rodrigo, por estarem os da Guarda convidados para as de Trancoso; e só o famigerado organista Francisco Nunes Piteira veio assistir a toda a função, por particular empenho do nosso general ao seu prelado, trazendo todas as solfas
que compôs para as representações cómicas.
No dia 10 se representou a primeira comédia: Duelos de Amor y Lealtad. Para a gostosa representação desta farsa se erigiu um soberbo teatro encostado às escadas dos quartéis, por ser o lugar mais cómodo no terreiro. Teve de boca 75 palmos e de fundo, até às primeiras portas, 32. O prospecto no primeiro andar se compunha de nove portados, outo à primeira face, e a do meio em figura convexa. Todos os seus cortinados eram de damasco cor de ouro, com franja de requife, pelo gosto moderno, e as divisões entre porta e porta, que fingiam as paredes, de damasco carmesim. O segundo andar formava uma galeria, que se dividia do primeiro por um pano de matiz verde, alcachofrado de ouro. As paredes deste segundo andar eram forradas de damasco da mesma cor de ouro, e os cortinados e sanefas de melania encarnada, agaloadas e franjadas de ouro, tudo na mais regular simetria. Nas três janelas grandes do meio, se acomodaram três vasos de flores. O terceiro andar de cima rematava em um soberbo pavilhão encarnado,
guarnecido de franjões, que, descendo pelos lados, acompanhava todo o frontispício até o primeiro andar, tomadas as quartelas, ou festões, com cordões e borlas de ouro. No meio desta fachada, e debaixo do pavilhão que lhe servia de docel, se acomodou uma tarja de onze palmos de altura, em que estavam as armas reais, orladas de instrumentos bélicos, pelo gosto francês moderno, obra do ajudante da cavalaria, João Bernardo Real da Fonseca, bem conhecido pela raridade e mimo dos seus debuxos e risco. Nos dous lados pendiam os dous estandartes reais da câmara e vedoria. Ao lado do tablado se formaram dous jardins pequenos, na mesma igualdade para os lances, que pedia esta comédia. Nas duas varandas dos quartéis, que correspondiam por um e outro lado a esta fachada, se formaram dous coretos; o da direita para os clarins, timbales, trompas e obués; e o da esquerda para todos os tambores da guarnição, forrados de damasco por diante, o que tudo formava o mais deleitoso objecto à vista, em que é diminuto todo o encarecimento. O nosso amável general, o tenente coronel da cavalaria,
D. Pedro Manuel de Vilhena, o auditor geral, os ajudantes de ordens e outras pessoas de distinção ficaram no primeiro camarote à direita; e no imediato os músicos e orquestra. Seguiam-se por ambos os lados do tablado os camarotes do senado e particulares, todos ornados com grande lustre e pompa.
Pelas cinco horas da tarde se rompeu a primeira cena do teatro, com a representação da loa número 2. Nela representava a figura de Palas ou Minerva, deusa das ciências, como fabulizaram os antigos. O alferes do regimento da cavalaria, Paulo Pinto Ferreira, vestia a primeira roupa talar de tisso de ouro, a segunda arregaçada de tela encarnada e prata; peito de armas brancas, com braceletes, capacete de pedraria, com cocar, haste comprida, escudo, e nele o seguinte emblema: Meruit Candore Coronam. Representava de Ericine, ou Vénus, o oficial da vedoria, José Bernardo da Costa, toucado ao moderno; vestia uma roupa amarela com manto alcachofrado de prata, escudete; e nele a letra que se expressa na mesma loa, por fugirmos de repetição. Representava de Délio, o tenente de cavalos
José Marques Cardoso, vestido todo de tisso de ouro, com botinas à meia perna, coroado de louro, sentado em um majestoso trono, com uma palma na mão; escudo com a letra que se dirá em seu lugar. Fazia de reino de Portugal o alferes de cavalos, Manuel de Brito Soares, com casaca encarnada, toda agaloada de ouro, véstia branca bordada de matiz de cores, alcachofrada de ouro, púrpura encarnada de melania de prata, com lavores de ouro; o forro branco de melania do mesmo tecido, coroa real e espada com guarnição de prata. A letra do escudo vai adiante. Representava de Oriente o oficial da vedoria, José Alexandre Freire da Fonseca, vestido à trágica, de seda cor de pérola adamascada, com raminhos soltos da fábrica moderna; coroa real e, por remate, um Sol à meia vista, como levantando-se do Oriente, com escudo e nele escrito o enigma que se lerá adiante.
Aos últimos vivas da Loa correspondeu a fortaleza artificial, que se construiu no terreplano, quasi fronteira, com a salva de vinte e um tiros de pecinha de novo invento, e se deu princípio imediatamente
à comédia intitulada Duelos de Amor y Lealtad. Fez de primeiro galã o tenente de cavalos, José Marques Cardoso; de segundo o doutor Francisco de Andrade de Figueiredo, médico do hospital real desta Praça; de terceiro o oficial da vedoria, José Alexandre Freire da Fonseca; barbas, o alferes de cavalos, Manuel de Brito Soares; de imperador o comissário de mostras, António Pinto Ferreira; primeira dama, o oficial da vedoria, José Bernardo da Costa; segunda, o alferes de cavalos, Paulo Pinto Ferreira; terceira, o cadete de infantaria, José António Mangas Vila Forte; e os mais papéis miúdos, diversos filhos de oficiais. Serviu de regra Manuel Duarte Tavares e de contra-regra o tenente de infantaria, João António Rebocho. Lacaiou com a graciosidade que lhe é natural o alferes de cavalos, Luís Xavier de Queiroz.
No dia 11 se representou a comédia Para vencer Amor querer vencerle. Representaram as mesmas figuras, trocando os papéis de forma que fizeram de primeiros os segundos e mutuamente estes aqueles; e lacaiou o comiss
ário de mostras,
Simão José da Fonseca. Neste seguinte dia e noute sairam a dançar ao tablado com máscaras riquíssimas e do melhor gosto, o tenente coronel da cavalaria, D. Pedro Manuel de Vilhena, os capitães de cavalos, Rodrigo de Sousa da Silva Alcaforado, José de Almeida do Soveral e Vasconcelos, seu irmão, o cadete Manuel de Almeida de Vasconcelos, o alferes de cavalos, Luís de Albuquerque e Cáceres, João de Vasconcelos de Almeida, o cadete da cavalaria, José de Nápoles Telo de Meneses, seu irmão, Filipe Xavier de Nápoles, João Bernardo Real da Fonseca e José António Delgado, que depois de uma bem enlaçada dança de esquisitos laços e passagens, dançaram vários minuetes figurados, o passapié e amable, que o dito Rodrigo de Sousa repetiu por vezes, à instância dos circunstantes de bom gosto.
No dia 12 se representou a comédia Darlo todo y no dar nada, com a mesma gravidade e lustre, não obstante alguma chuva branda que sobreveio à boca [da] noute, o que deu ocasião a que os donosos lances dela se não representassem com aquela viveza que é natural, havendo
a antecipada cautela de se ter toldado tudo com lonas.
No dia 14 se desmanchou o tablado em ordem a ficar o terreiro livre para a continuação dos mais festejos.
Em 15 foi a primeira noite do fogo festivo de corda, montantes, carretilhas, brigas, e outros de igual natureza presos, proibindo o nosso prudente e cauteloso general se soltasse o do ar, lembrado dos trágicos sucessos que tem experimentado esta Praça, guarnição e moradores, ateando-se o fogo nos armazéns da pólvora.
O dia 16 foi o primeiro de touros, em que toureou sem máscara o capitão de cavalos, Fernando Leite de Sousa. Esteve o terreiro, que serviu de praça, formado em figura quadrada, com duas entradas, e vistosíssimo na verdade, porque todos os barrotes, que estavam rodeando a praça, serviam de pilastras a outros tantos vasos de manjericões e valverdes, que faziam a praça tão amena como agradável. Nos quatro cantos se formaram quatro coretos para os clarins, timbales e tambores da guarnição. Logo que o nosso general entrou no seu camarote, o fizeram também no terreiro, por seu turno, todas as danças.
e variedade de máscaras. E com o intervalo necessário uma guarda de quarenta sargentos com bandas e barretes de granadeiros, dois tambores, e dois pífanos. Foi capitão desta guarda o sargento-mor de auxiliares João de Almeida Pimentel e tenente o de cavalos Pedro Paulo Freire Delgado com fardas agaloadas de ouro, chapéus de cocares de plumas em dois soberbos cavalos ricamente ajaezados. Limpo o terreiro, entraram dois moços de pé com o caixote dos pampilos que conduziram ao camarote do nosso general. Pouco depois entraram quatro carros enramados para aguar a praça, giados por quatro mascarados. Seguiu-se o neto a pedir licença para entrar o toureiro, com as cerimónias costumadas, cuja entrada se executou pela ordem seguinte: vinham diante os clarins e timbales, tocando a marcha; em duas alas os palafreneiros com os cavalos à destra; detrás dois volantes uniformes em vestidos; e todos os mascarados distintos que apontámos nos bailes e comédias, que acompanharam o toureiro enquanto deu volta à praça. Às estribeiras vinham dois capinhas castelhanos, vestidos de durante
encarnado com capas do mesmo, meias, servilhas e chapéus brancos, em tudo uniformes, à custa do toureiro que fez esta entrada e as cortesias em um cavalo lazão igualmente formoso e bem ajaezado. A casaca era de brilhante cor de pérola com raminhos roxos; a véstia e bocais de cetim da mesma cor, chapéu de cocar e polaimas brancas, passadas de fita encarnada. Esperou ao touro no meio da praça, com grande desafogo; e nos cinco que picou aquela tarde fez sortes mui assinaladas e filhas da sua grande destreza e desembaraço, e se correram mais três touros pelos capinhas e mascarados.
No dia 17 houve uma corrida de campeões com um touro de morte à custa dos bairristas do Terreiro de S. João, que mutuamente se fintaram entre si esta despesa. Houve sortes mui especiais pelos capinhas, que, depois de uma garrocha de fogo, mataram o touro grande à espada.
O dia 18 foi o terceiro dia de touros em que novamente toureou como mestre o mesmo Fernando Leite de Sousa. Tudo se executou pela mesma ordem, graviade e luzimento, menos o vestido que neste dia
foi outro, em nada inferior ao primeiro.
Deste dia ao primeiro de Outubro, com a mudança do tempo e continuação das chuvas, se interrompeu a série das festas, inutilizando-se totalmente o terreiro, para se poderem continuar as cavalhadas. Nãos discontinuaram, porém, as máscaras, bailes e danças, pela ordem e conduta que fica expressada.
O primeiro dia de Outubro o foi também das cavalhadas em dois fios de seis parelhas. Fazia gyuia do da direita o mesmo capitão de cavalos Fernando Leite de Sousa, contra-guia o tenente coronel dom Pedro Manuel de Vilhena. Seguiam-se João de Vasconcelos de Almeida, o tenente de cavalos Domingos Rodrigues da Silva, o alferes de cavalos Manuel Jacinto Cardoso e cabo de fio o capitão de cavalos Rodrigo de Sousa da Silva Alcoforado. Foi guia do fio da esquerda o tenente de cavalos Pedro Paulo Freire Delgado, contra-guia o sargento-maior de auxiliares João de Almeida Pimentel. Seguiam-se os cadetes José de Nápoles Telo, Manuel de Almeida, o alferes Luís de Albuquerque, e foi cabo de fio o comendador José de Almeida e Vasconcelos.
Vestia o fio da direita de casaquinha curta e calção de seda encarnada com canhão e véstia azul, capinha da mesma cor, tudo agaloado de prata, polainas brancas, passadas de fita azul. O da esquerda em contraposição, casaquinha e calção azul, véstia, bocais e capinha encarnada de seda, agaloadas de ouro, polainas brancas passadas de fita encarnada, tudo com a mesma profusão e riqueza, com que fizeram os cavaleiros grossa despesa, e nos chapéus, que todos eram bordados à emolação. A entrada no terreiro a fizeram pela direcção seguinte: formava a vanguarda a guarda dos timbales, os mesmos e todos os tromnbetas, tocando a marcha. Em seu seguimento os moços de libré, emparelhados com os cavalos à destra, riquíssimos em preciosos arreios e telizes bordadas de ouro e prata. A maior parte dos cavaleiros trazia a dois volantes custosamente vestidos. Fizeram seus castelos e escaramuças segundo a arte, a que se seguiu o jogo das alcancias, com agilidade e destreza que é natutral em todos e com geral satisfação daquele egrégio concurso.
No dia 2 se repetiu o mesmo torneio
com os acidentes, lustre e gravidade do mesmo.
No dia 3 houve remedo de máscaras com ideias e inventivas raras e gratas ao vulgo, que só se recreia no que alcança. à noite houve repetência de fogos festivos pela direcção transcrita.
No dia 4 se deu princípio ao admirável, grave e instrutivo ensaio militar na forma de acção do ataque e defensa de uma praça, de que vai o seu trasunto ao número 3, que se executou pelos cabos nomeados com a mais regular e exacta disciplina, e tanto ao natural que em algumas operações, especialmente nos assaltos, os julgou o auditório ao vivo, no grande furor e perícia militar de todos. No formulário acusado se expõem individual e extensamente o que se obrou nos três dias futuros. E a este lugar deduziremos algumas prévias notícias incongruentes daquela doutrina e próprias desta narrativa, para a inteira persuasão da gravidade, riqueza e luzimento daquela ficção militar que serviu de gostoso objecto aos presentes e servcirão de modelo e instrução para os vindouros, embenefício do serviço do rei e da pátria, por se fundar no
melhor sistema e com algumas delicadezas talvez nãolembradas de todos os modernos.
Todos os generais indicados no mesmo formulário se vestiram e fizeram jaezar soberbamente os cavalos e volantes. O generalíssimo dom Pedro Manueld e Vilhena se sestiu de encarnado agaloado de prata, com cocar no chapéu. Foram seus ajudantes de ordens os tenentes de infantaria João António Rebocho e da cavalaria Domingos Rodrigues da Silva, com fardas agaloadas de ouro. O general da infantaria Joséde Almeida do Soveral, de encarnado e véstia verde. Fez de ajudante seu irmão Manuel de Almeida de Vasconcelos. O general da cavalaria Rodrigo de Sousa da Silva Alcoforado, vestido de seda parda com raminhos brancos, agaloado de prata por todas as costuras, banda do mesmo fio e escarlate, laço e fiador do mesmo. Foi seu ajudante o cavaleiro João de Vasconcelos de Almeida. O general de artilharia Fernando Leite de Sousa, casaca encarnada, véstia e bocais cor de camurça, agaloada de prata. Fez de seu ajudante de ordens o tenente Pedro Paulo Freire, com farda agaloada de
ouro. O engenheiro-mor, João Bernardo Real da Fonseca, vestido de encarnado com véstia verde agaloada de ouro. Foram seus ajudantes o alferes Manuel Jacinto Cardoso e Paulo António de Oliveira, com farda à imitação dos mais. O sargento-mor de batalha, Manuel de Carvalho Mendes, e seu ajudante Félix José Monteiro. As acções burlescas dos três dias foram executadas pelos comissários de mostras, Simão José da Fonseca e António Pinto Ferreira, e os alferes da cavalaria, Luís Xavier de Queirós, Bento de Oliveira da Ponte e João de Figueiredo, e os mais oficiais da vedória e tropas, com génio e propriedade. E destes mesmos se compôs a brilhante tropa dos 63 turcos que no primeiro dia se introduziram na fortaleza para de fendê-la. Os cinco turcos de cavalo foram o alferes Paulo Pinto Ferreira, o alferes Bernardo José da Costa, o furriel João António Robalo e Cândido José Castanho, e por cabo deles o tenente José Marques Cardoso.
Junto ao camarote do nosso general no terreiro se formou um jardim fingido de murtas em canteiros, com uma fonte de repuxo no meio de três bacias
oitavada, e se lhe administravam as águas por um ducto subterrâneo de duas pipas que estavam ocultas em um bosque de arvoredo, que se fingiu ao lado, e toda em roda cehia de assentos. A fonte e o seu chafariz estava de pedra fingida que imitava ao natural, tudo pela direcção do reverendo padre frei Manuel de Santa Rosa, prior do Hospital Real de S. João desta Praça.
Aos artilheiros e bombeiros da fortaleza, comandou o seu tenente António José de Figueiredo, que nesta acção deu as mais concludentes provas da sua grande inteligência, não só nas manobras da artilharia, em que é peritíssimo, mas sim no serviço dos morteiros, composição das massas bravas das espoletas da pecinha da nova invenção, das bombas, granadas e carcaças artificiais, petardos e minas falsas, que produziram tão estrondosos efeitos, que parecia nos assaltos se passava do figurado à figura, enchendo plenamente o plano que se lhe conferiu por base da sua conduta.
Em todos estes dias o general comandante do campo, dom Pedro Manuel de Vilhena, deu refresco de bebidas na
tenda, não só aos mais generais mas a todos os oficiais que lhe faziam corte, aos da guarda das trincheiras e baterias, aos turcos e turcas porisioneiros, e cabos principais que vieram tratar das capitulações, com aquela profusão, mimo e gravidade que é próprio em todos os heróis desta família nas acções públicas.
Permita o céu abençoar aos dpois augustíssimos consortes para que na feliz produção de uma régia e auguista prole se completem os nossos desejos e as nossas bem fundadas esperanças.
Disse.