Sumário
Folheto da tragédia O Cid (1787)
Ano
1787
Localização

Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (Misc.617); Sala Jorge de Faria (JF 12-1-4)

Comentário
Teatro Estrangeiro, nº I
Impresso
Lisboa, na Tipografia Rollandiana, 1787

Teatro Estrangeiro

Número I 

 

O Cid , Tragédia de P. Corneille.

 

Lisboa,  na Tipografia Rollandiana.

 

1787.

 

Com licença da Real Mesa Censória da Comissão Geral sobre o Exame e Censura dos Livros.

 


 

Prefação do Editor.

As nações mais cultas da Europa, e as mais católicas, consentiram sempre que corressem as peças cómicas , e trágicas, porque são estes géneros de escritos capazes de refrear as desordenadas paixões dos homens. E quando são tecidos segundo as regras d’arte, e leis da modéstia, e honestidade, brilham neles os mais encantadores atractivos, com que se persuade a obediência e o respeito aos soberanos, à sociedade conjugal, o respeito aos pais, o temor às leis, e o apego à religião, e à tradição dos seus maiores. Neles se encontra motejado o vício, escarnecidas as paixões, zombados os desvarios, e as vaidades, já de um louco velho, já de um indiscreto, e apaixonado mancebo. Nestes escritos bebem os leitores, envolto no mel, que lhes adoça os beiços, o amargo que lhes fere as entranhas, mas que os sara, e purifica. Prova S. Basílio que as obras poéticas, de qualquer género que sejam, não só deleitam, e instruem, mas são capazes de emendar os costumes, e fazer abraçar as virtudes, para o que cita aqueles bem conhecidos versos de Hesíodo, onde ele pinta o caminho do vício recamado de flores, adornado de todas as belezas, encantos, e atractivos, espaçoso, e aberto a todo o mundo, mas com precipício dentro no centro, e o da virtude

 


 

drido, íngreme, dependurado, difícil de se entrar, que amedrenta, e espanta a quem o tenta, mas que em si tem descanso , felicidade, e suavidade.

E não lhe é admirável esta lição? Não acham aqui os leitores a moral, e a exprobração da sua vida dissoluta?

Hora os escritos cómicos emendam muito mais que os outros. Por quanto rindo, ridiculizam. Que outra causa é a comédia, segundo Aristóteles, se não a imitação d mau, mas não do mau tomado em toda a sua extensão, mas daquele que excita a vergonha, que não causa dor, nem sentimento, e o fim a que se propõem é o de nos fazer mais úteis à sociedade, e emendar em nós os costumes, que nos outros ridiculiza. As obras cómicas são mais capazes, diz um judicioso autor de dispor-nos para os bons costumes, do que um discurso sério. Cícero exclama sobre a comédia. O’ belíssima reformadora dos costumes, que fazes do amor uma divindade, fértil origem de tantas loucuras, e de tão vergonhosas desordens! Se nós não aprovássemos estas desenvolturas, não teríamos  necessidade de comédias. Assim fala um pagão sábio. O homem pela sua má catadura, pela chaga que ainda aberta lhe deixou o pecado do primeiro homem, por miséria sua, as mais das vezes se não convence, e persuade da simples, e singela verdade, despida de cores emprestadas, é preciso buscar muitas vezes ideias, estratagemas, ainda mesmo mundanos, para os

 


 

obrigar a seguir a virtude, e a desterrar o vício. Triste condição da humana natureza.

Se um homem, sirva este exemplo, disser sisudamente a outro homem, que os vícios, que as paixões, que as desenvolturas arrastam e arruínam os homens que neste mundo lhes faz ter uma desastrada sorte, e que no outro padecerão um castigo eterno. Nada disto bastará para ele emendar a sua licenciosa vida. Porém se este homem vir, ou ler com vagar uma peça trágica, em que o autor tecesse um enredo sábio, e modesto, no qual lhe antolhasse um grande príncipe, ou um grande homem, que no mundo vivera licenciosamente engolfado, nos vícios, nadando num mar  de felicidades, obedecido de todos, não temendo nada zombando dos soberanos, desobedecendo à religião, e por último , por via de uma pequena mudança de fortuna, bem merecido castigo de suas desordens, o vir reduzido à fome, à miséria, ao desterro, a uma prisão, e ultimamente a padecer uma desastrada morte, esta cena o comoverá, o enternecerá , e fará que dentro de si reflexione um pouco na sua vida, que talvez ou se emende, ou se refreie. O mestre da lei valeu desta ideia, servindo-se de parábolas. O que se vê na sagrada escritura.

Faz muita diferença o ver, ou o ouvir. Nas peças trágicas, e cómicas, o poeta nos faz ver o que só ouvimos, nos outros autores. Quantos vícios não corriam desenfreadamente na França, sem terem termo. Apenas apareceram escritos

 


 

teatrais, muitos se emendaram. Todavia tem estes escritos às vezes seus perigos,  se não são feitos por uma pena habilidosa, e acautelada, para evitar que em lugar de emendar os costumes, não sejam escola de vício, da desenvoltura, e que tornem os homens piores, ou em vez de ridicularizar o vício, ataquem em particular  os homens ou os usos  bem estabelecidos, ou finalmente em que se vejam lances mágicos, extravagâncias, homens voando e estátuas falando, de cujos escritos se não possa tirar outra utilidade  mais, do que o arrependimento de se terem lido.

E com efeito tendo na minha ideia, há muito tempo, estes documentos, mandei traduzir as melhores peças trágicas, e cómicas dos mais afama dos autores franceses, e italianos com o título de teatro estrangeiro, para esta nação ter com que o povo se entretenha em coisa, de que possa tirar utilidade, imitando as nações cultas da Europa, que todas têm colecções  de escritos teatrais.

E ainda que a minha mente era juntar somente várias peças de outras línguas, com tudo de bom grado aceite, e ajuntarei ao dito teatro qualquer tradução, ou peça original, que algum sábio me quiser dar.

Desejarei que este meu defeito seja benignamente acolhido, visto que nem só atendo à minha utilidade própria, como fizera, se publicasse outras colecções de coisas, que o vulgar mais apetece.

Mas outras luzes mui diversas são as que tem

 


 

esta nação. Devemos concorrer todos para o esplendor dela, e procurar o seu aumento, sem afastar-nos, nem desdizer  das boas ideias dos nossos honrados, e sábios progenitores. Bem posso falar já nesta linguagem , e introduzir-me no grémio da minha nação, que se no nascimento sou estranho, no amor, e patriotismo sou um legítimo português.

 


 

Actores.

 

D. Fernando, primeiro Rei de Castela.

 

D. Urraca, infante de Castela.

 

D. Gomes, Conde de Gormas, pai de Chimene.

 

D. Rui. Amantede Chimene.

 

D. Sancho, namorado de Chimene.

 

D. Arias. - D. Afonso, cavaleiros castelhanos.

 

Chimene, filha de D. Gomes.

 

Leonor, Aya da Infante.

 

Elvira, Aya de Chimene.

 

Um pagem da Infante.

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