Sumário
Folheto da comédia Talhada está a ração para quem a há de comer (1759)
Ano
1759
Localização
Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (TC 19); Teatro Nacional D. Maria II (TC 80 LF; exemplar falto da carta; TC 1592); Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (Misc. 533); Biblioteca Pública Municipal do Porto (L-11-47 ); Biblioteca da Ajuda (55-II-15/4)
Comentário
Contém uma carta introdutória sobre a estética teatral de meados de setecentos.
Impresso
Lisboa, oficina de Manuel António, 1759
Talhada está a ração para quem a há de comer
 

Autor:

Silvestre Silvério da Silveira e Silva

 

Interlocutores: 

Sérgio 

Roberto 

Arnoldo 

Lupino 

Bártolo, gracioso

Isménia, filha de Arnoldo 

Branca 

Gracia, criada de Isménia

Dois soldados e algumas pessoas de acompanhamento 


Lisboa. Na oficina de Manuel António e impressa à sua custa. Com as licenças necessárias.
 
Licenças do Santo Ofício, do Ordinário, do Paço.
Vistas as informações pode-se imprimir a comédia que se apresenta, intitulada Talhada está a ração para quem a há de comer, e quer dar ao prelo Manuel José, e depois voltará conferida para se dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa, no Paço de Palhavã a 20 de Outubro de 1758.
Trigoso
Silvério
Lobo
 
Vista a informação pode-se imprimir a comédia de que se trata e, depois de impressa e conferida torne. Lisboa, 6 de Dezembro de 1758.
D.J.A. de L.
 
Que se possa imprimir vistas as licenças do Santo Ofício e Ordinário, e depois de impresso tornar à Mesa para se conferir, taxar, e dar licença para que corra, e sem isso [não] correrá. Lisboa, 18 de Maio de 1759. Com cinco rubricas.   
Carta que se mandou com a encomenda desta obra
 
Meu senhor,
 
Remeto a vossa mercê o papel da comédia que me encomendou, e fica-me o sentimento de que me tentasse com o objecto mais nobre da poesia, porque devo nele representar com defeitos as acções próprias, quando estou obrigado a dizer que descrevo as alheiras com tantos erros. Há muitos tempos afirmam os críticos que a nação portuguesa não tem oportunidade para este género de composições, expondo que muitos forcejaram nos arremedos que a prudência lhes detestou como ridicularias. Se assim é que só às outras nações concedeu a fortuna tão relevante habilidade, contentem-se os portugueses que no teatro do mundo sempre souberam expor acções grandes e verdadeiras, na falta da aptidão de as representarem deteriores e fabulosas. Alguma notícia tenho das comédias castelhanas, e nelas sempre estimei a relevância dos engenhos que as compuseram, de forma que para serem agradáveis a todo o género de pessoas, constam de difusas ideias, de implicados lances, de ardilosos enredos, de sábios conceitos e de ditos engraçados.
Se se lhes poderá atribuir por defeito, às que discorrem somente nos progressos do amor profano, o publicarem matérias não merecedoras de se celebrarem com tanta publicidade, talvez se conteriam seus autores na relaxação com que deram à luz o que a alguns circunstantes tem prevertido e a nenhum edificado. Porém, este reparo nem pertence ao juízo que lê nas composições o que têm de científicas, nem pode

infamar ao engenho que, com qualquer matéria, pode manifestar a sua discrição.
O certo é que estas, pelo que em si contêm, sempre obtiveram o agrado dos bons entendimentos, ainda que não brindassem aos sentidos com o aparato, quando muitas outras, a não trazerem a guarnição das vistas e os adubos da música, tão frias do sal se expunham que ninguém as tragara, se se não saboreasse com o tempero.
Em a que ofereço a vossa mercê exponho as astúcias de Lupino, um ladrão que abona suas indústrias por fundamento de suas felicidades, mas quando mais se espera venturoso, morre por erro de quem cuida matar a Roberto, pessoa aplicada à vida sincera, na qual acha a ventura do casamento de Isménia que não pretendia, antes para Sérgio diligenciava. Sendo que este, empreendendo vingar-se do que lhe parecia ofensa, errou o tiro, e imaginado ser tal equivocação prodigiosa, confessa publicamente o seu pecado, e recebe a Branca, a quem tinha prometido casamento, de que, pela ambição, se desviara.
Parece-me que da lição deste acto se eduz um oportuno documento, em que se conciliam os ânimos circunstantes a prezarem a sinceridade por sólida origem da ventura, e a arguirem a indústria por companheira do engano. Nem imagino ser de tão pouca importância esta doutrina , que se julgue imprópria no mundo, aonde há tantos séculos se honra a virtude com palavras, e se acredita o pecado com obras.
Entre os remédios agros que a medicina receita, também se dispensa algum doce com que se afague a natureza por intervalos, e quantas vezes uma bebida que o enfermo leva com gosto melhor aproveita, do que outra que lhe causa horror? Por isso devo repetir o sentimento que me fica de não saber compor este Acto em forma que seja para todos agradável
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