- Sumário
- Folheto (bilingue) da tragicomédia Ludovicus et Stanislaus (Luís e Estanislau) (1728)
- Ano
- 1728
- Localização
- Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (TC 51); Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Manuscritos da Livraria, nº 1684); Biblioteca da Ajuda (154-IV-4/17)
- Impresso
- Évora, Tipografia da Academia, 1728
do Teatro, uma cabeça de quartela, continuando o corpo do arco pela abóboda deste edíficio, de que logo falaremos.
A cimalha, na parte aonde se ajunta ao corpo paralelogramo do bastidor, descansa sobre uma coluna lisa que na cor mostra ser de pedra vermelha, com capitel também coríntio e bronzeado. É esta coluna a primeira coisa que, no corpo do bastidor, se vê pintada por baixo da cimalha, a qual, em descansando sobre a coluna, finge um canto, para o que vai correndo pela largura do bastidor com inclinação para a parte de cima e alargando-se cada vez mais, quano o pediram as linhas lançadas todas do ponto de perspectiva. Aqui sobre a cimalha principia pintada uma abóboda que, continuando-se em largura de 4 palmos por cima de toda a altura do bastidor e do arco que dele sai, fica representando os espaços da abóboda que, pelo tecto, medeiam entre os arcos. Esta arquitectura, que se tem referido, se vê igualmente em todos os dez bastidores que formam este pórtico e entra lá do palácio. Depois disto encontra a vista, na diversidade de arquitectura, não menos emprego da curiosidade, porque na parte que resta do corpo paralelogramo do bastidor, abaixo da cimalha e depois da coluna, se divisa no primeiro e quinto bastidor de ambas as partes uma entrada que denota continuação do edifício; forma-se esta de um arco que, tendo o meio na extremidade de dentro, aonde se termina a largura do bastidor, fica por acabar, mas
a ordem com que estão postos os bastidores, de tal modo oculta esta falta que a maior diligência dos assistentes, não acabando de ver quanto imagina continuar-se para dentro dos bastidores, ficará desejando ver o que o engano da pintura lhe faz imaginar. Tem este arco por fundamento a um pilar que mostra estar unido à parede do edifício e
a uma coluna que, junto do pilar e diante dele, se levanta; mostra esta ser de pedra Marmo [mármore]. E tem, como as mais, capitel de obra coríntia bronzeado, sobre a qual assenta uma cimalha proporcionada à altura da coluna sobre que estriba, que necessariamente é mais pequena, por ficar o arco que dela e do pilar se levanta por baixo da cimalha real, que descansa nas colunas maiores. Na entrada deste arco tem o primeiro e quinto bastidor uma cortina que não consente poderem os olhos para dentro descobrir, o que finge a pintura continuar-se; não assim o terceiro de uma e outra parte que, como lhe falta a cortina, mostra no interior da parte de dentro do arco uma varanda que cai para um pátio de arvoredo, o qual, vencendo a altura da varanda, manifesta ao longe as extremidades de sua verdura. O segundo e quarto bastidor não têm pouca diversidade dos mais, pois em lugar do arco que os outros fingem, têm estes um nicho, o qual formam dois pedestais que, da altura da peanha do nicho se levantam estribados em cachorros de pedra, que mostram sair fora da parede; sobre os pedestais pôs o pincel remate ao nicho, fingindo arquitectura de tanta propriedade, quanta se requeria para complemento da obra que aperfeiçoam. Divisa-se dentro de cada um dos nichos uma figura que, servindo de ornato ao edifício, tem também alusão muito própria no palácio de São Luís Gonzaga que, nascendo de país belicosos, teve por melhor emprego as letras, porque representando 4 das que Grécia adorou por divindades, duas são das que esta teve por factores da sabedoria, quais foram Mercúrio e Minerva, e as outras duas representam aqueles dois raios da guerra, Marte e Belona.
Os arcos, que disse principiavam dos bastidores, como também a abóboda, vão continuando por cima do Teatro, até que no meio os de uma parte com os da outra formam um tecto de abóboda, em tudo digna da fábrica do palácio. Fazem os arcos junto do meio duas cabeças de quartelas, deixando espaço entre si para que delas penda um festão de flores, o qual, multiplicando-se em todos os arcos pelo meio do tecto, serve de grande ornato à abóboda. O material em que estão pintados estes arcos com quartelas e festões está todo cortado pelo perfil da pintura, para que o que representam pareça mais verdadeiro que pintado, concordando nisto com os bastidores, nos quais só se vê
o que é necessário para representarem o edifício, ficando vazado tudo o mais. Até aqui a fábrica e artifício do pórtico e primeiras entradas do palácio.
Na Cena média, que fecha o poscénio, quando a representação do teatro é a que fica dita, soube a arte imitar também o natural que, o que é um pano liso e sem relevo algum, fica parecendo um veradadeiro edifício; levantam-se do mais inferior deste pano duas ordens de escadas, uma de cada parte, até uma varanda em pouca altura do pavimento; a esta fazem parapeito grades de pedra com pedestais mais altos nos topos e no mais baixo das escadas. Aqui, sobre o pavimento da varanda, se levanta um frontispício, o qual no meio forma uma entrada de duas ordens de colunas salmónicas verdes com bases e capitéis bronzeados; e posto que as colunas estão tão juntas que, em parte, se encobrem umas às outras, parece que estão dispostas entre si por um dilatado pavimento, mostrando o fim em muita distância para a parte de dentro, aonde se termina a vista em uma cortina, a que serve de sumilher uma matrona.
As colunas, quanto mais para dentro se representam, tanto são mais pequenas, ficando sempre dentro das linhas lançadas do centro, para que, conforme a arte, melhor finjam a distância que se pretende. Sobre os capitéis assentam cornijas, e destas se levantam arcos que formam por cima entre uma e outra ordem de colunas uma abóboda, a qual, no princípio, sobe a toda a altura a Cena média e logo vai sendo mais baixa, seguindo a proporção das colunas. De um e outro lado desta entrada de colunas está no frontispício uma porta e sobre as portas dois escudos das Armas de São Luís. Logo depois de cada porta se levanta uma coluna em tudo semelhante às mais. Assim fica cada uma das portas entre duas colunas, por cima das quais corre uma cimalha, em que estriba de cada parte uma janela com grades de pedra; a estas estão alguns criados de casa, que nesta ocasião chegam as janelas para serem vistos, ainda que fingem quererem ver o que no pórtico do palácio se trata. Dão fim à largura deste frontispício dois cunhais que, subindo a toda a altura dele, de uma e outra parte rematam no mais alto com duas pirâmides.
Aberta a Cena média, faz logo patentes à vista as salas interiores do palácio, cuja arquitectura ideou a arte com este artifício. Tem cada bastidor, na extremidade que olha para o corpo do Teatro, um pedestal, o qual mostra duas faces e o mesmo se divisa também em um capitel que nele assenta e na cimalha, que corre por cima. Representa cada bastidor ser uma parede que, vindo acabar no pedestal, forma uma sala mais interior que, correndo no teatro para a parte
de dentro, é vista em parte, fugindo de ser vista em todo. A cimalha vem continuando da extremidade do bastidor que fica remota ao corpo do teatro, fingindo ser cimalha da sala que corre para dentro, para o que, vindo dela em maior coluna e largura, descansa sobre o capitel do pedestal, lançando para fora deste e do bastidor tanto quanto ela finge sair fora da parede por onde corre; esta parte, que aqyu sai fora do bastidor, imita no feitio a pintura, o que se vê também em uma meta que, fora do corpo do bastidor, se levanta do pavimento e quase sobre a base do pedastal, e a ele unida. Vai logo continuando a parede para a parte de dentro, pela largura do bastidor. Nesta se divisa, em proporcionada altura, por baixo da cimalha, no primeiro e terceiro bastidor, de cada parte um espelho inclinado na parte de cima para fora da parede; no segundo e quarto uma placa com sua vela; em baixo, junto do pavimento, se vê pintada em cada bastidor uma cadeira, representando ser a primeira das muitas que se continuam pelas paredes das salas que correm para dentro; no mais alto da parede, sobre a cimalha, se deixa ver uma janela rasgada e toda de vidraças. A mesma arquitectura continua nos dois últimos bastidores que fecham o centro do teatro; porém, como estes são mais largos, deram lugar a que no meio de cada um se pudessem pintar dois pedestais, entre os quais denota continuação do edifício uma porta em cada bastidor, e ainda que estas portas estão abertas, não mostram o que para dentro se continua, porque o impedem cortinas que a pintura lhes fingiu de seda verde; sobre a cimalha, na correspondência das portas, estão duas janelas, como as mais. Fica no meio, aonde estes dois bastidores unem um com o outro, um espaço igual ao em que estão as portas; nele está pintado um espelho por baixo da cimalha, e da parte de cima fica um óculo que, principiando maior na primeira superfície da parede, vai continuando pela grossura dela cada vez mais estreito, até se terminar em uma pequena vidraça. Todos os pedestais que dão fim e ornato às pareds destas falas, vão continuando sobre as cimalhas, pela altura das paredes até ao tecto, junto do qual lançam para fora um cachorro de pedra, o qual não sai fora do corpo do bastidor, por caber todo no espaço da segunda face do pedestal. Sobre este edifício assenta um tecto que se representa plano, aonde a proporcionados espaços, lhe servem de ornato quadros de várias cores. Forma toda esta arquitectura no corpo do teatro uma sala, aonde a seu tempo se põem as alfaias próprias deste lugar, acomodadas à diversidade das acções que nele se representam.
Para que, com mais propriedade e vivas aparências de verdadeiro, se representasse este palácio, não se satisfez a arte com delinear aqui
nos bastidores aquela soberba arquitectura com que são ideados os palácios mais sumptuosos, mas trabalhou sempre em fazer a cada um dos bastidores com tal proporção e acerto que, sendo estes em di corpos diversos e mais pequenos, quanto mais próximos ao centro do teatro, se coadunam a fazer um edifício inteiro que, sem discrepar assim nas cimalhas, como na mais obra, guardam em tudo as linhas que do centro do teatro lhe determinam a declinação, diminuindo-se as partes assim da pintura, como do feitio dos bastidores, com tal proporção que cada uma delas só tivesse a diminuição proporcionada à quantidade em que o bastidor que ocupam é excedido do primeiro, como ensina Pozzo , da nossa Companhia, autor grave nesta matéria.
Mudada a representação de palácio, se reveste todo o teatro de arvoredo. Basta dizer que não se contentou o pincel com só pintar aquelas árvores que se fingem ao perto e no primeiro povoamento, mas também, para mais imitar o natural, lançou diversos povoamentos que, representando distâncias de campos, deram lugar para que, em breve espaço, se compendiasse toda a variedade que os olhos costumam descobrir dentro do horizonte, assim nas árvores e plantas pequenas, como nos rios, fontes e casas de campo que se divisam entre as árvores, nos passageiros que por estradas fazem seu caminho e, finalmente, em caçadores que, pelos bosques, se ocupam no divertimento da montaria. Com a mesma invectiva se vê pintada a Cena média que fecha o poscénio no tempo desta transformação. Pela parte de cima se diferençam ares entre nuvens que fazem tecto ao teatro.
O teatro que até agora se tem visto já representando um palácio, já imitando as variedades de um bosque, oferece também à vista o céu, quando assim é conveniente ao que trata. Compõem-se, nesta ocasião, o corpo do teatro de dois céus, porque posto de parte o céu dos planetas, como mais inferior, mostra em primeiro lugar o céu estrelado. Este, continuando até à Cena média, faz aqui ostentação das principais constelações que, da linha equinocial para o Norte, têm descoberto a aguda perspicácia dos astrónomos; estas guardam tal ordem entre si que, ficando as que são mais próximas ao equador nos primeiros bastidores, junto da entrada do teatro, vão continuando pelos bastidores seguintes, conforme a ordem com que se observam, no hemisfério setentrional, divisando-se entre as constelações polares a Ursa Menor, denotando o pólo árctico no meio da Cena Média, que neste tempo corre a fechar o poscénio, quando é necessário.
Em abrindo a Cena Média, se nos oferece um céu aberto na representação do empíreo. Aqui são para ver os bastidores que, entre nuvens claras e alegres, não podem ocultar a multidão de serafins e anjos
que, respirando júbilos de prazer uns aos outros, se tributam flores às mãos cheias, não faltando também muitos que, com instrumentos de consonância, fazem presente na pintura o que o discurso costuma idear na consideração do que aqui se oferece à vista. Não ficara, ainda, este céu parecendo que o era, se com tudo isto não desse algumas mostras do que é princípio e fim de tanta felicidade, para o que trabalha aqui a ideia em exprimir uma representação daquele inexplicável objecto, em cuja vista consiste todo o bem, oferecendo-se neste céu facie ad faciem, o que agora só vemos per speculum in aenigmate. Este objecto, de quem ainda a mais vivda representação é um rascunho de morte-cor, ocupa o fundo do teatro, não fingido por indústria do pincel, mas imitado por aparências mais expressivas.
Algumas vezes aparece este céu sem este objecto, por ocupar o seu lugar um altar de nossa senhora e, mudada a circunstância, o ocupa a divina justiça sobre um trono. O tecto que nesta ocasião cobre o teatro se finge de nuvens, as quais, dentro no poscénio, se fazem mais vistosas com os muitos anjos que nelas se divisam.
Além destas transformações, ou mudanças totais do teatro, restam ainda outras que o mudam em parte e só dentro do poscénio. Aqui, quando é conveniente, se forma uma capela a que fazem paredes bastidores pintados de azulejo, até à altura proporcionada; logo corre por cima do azulejo uma cimalha de pedra que, continuando-se da parte de dentro do bastidor para o teatro, descansa sobre um pedestal do mesmo azulejo que, pela altura, se levanta, fingindo ser remate de parede que, correndo do interior, vem acabar no teatro. Esta cimalha, com toda a mais obra que dela para cima se continua, segue a mesma arquitectura que o palácio. Fecha nesta ocasião o centro do teatro um altar com seu retábulo de pedra. Tem este duas colunas salomónicas de cada parte, e desta as duas que ficam mais próximas a um nicho, que ocupa o meio, deixam bem divisar um pedestal que, por detrás das colunas, acompanha a obra. Servem estas de fundamento à mais obra do retábulo que acompanha o ninho pela parte de cima. Aqui se oferece por principal objecto da devoção de São Luís Gonzaga uma imagem da Rainha dos Anjos, a quem fazem companhia a um e outro lado do retábulo São Inácio de Loyola e São Francisco de Xavier.
Também se verá no poscénio em alguma ocasião representado um colégio; mostram, então, os bastidores na primeira parte que olha para o teatro um pedestal, aonde se representa acabar a parede que finge o bastidor, formando todos eles corredores que continuam para dentro. Logo depois do pedestal se divisa uma porta de
de cubículo, fingindo ser a primeira das que continuam pelo corredor; da parte de cima se estende pelas paredes dos corredores uma cimalha, a qual, com toda a mais arquitectura que continua até ao tecto, segue a mesma obra que o palácio.
Tendo-se dado notícia, ainda que breve, da variedade de transformações com que este teatro, sendo sempre o mesmo, se mostrará diverso, assim em parte, como em todo, seguindo as mudanças que fazem os bastidores, não era bem passar-se em silêncio uma aparência com que, sem mudança de bastidores, se mostra o poscénio muito outro do que antes parecia; isto se faz tomando aqui representações tão próprias de um jardim, que só a brevidade com que aí é plantado, poderá desenganar ao discurso de que não excede os limites de aparência fingida o que os olhos com desculpável engano julgaram por verdadeiro.
Finalmente, para plena inteligência do que brevemente se tem dito, será importante lançar aqui as medidas do teatro. Forma-se o pavimento do teatro em um triângulo isósceles, o qual tendo o lado menor, que fica na boca do teatro, de 29 palmos, os outros dois se estendem a pouco mais de 60, ficando, de comprimento ao triângulo, 58. Da boca do teatro até o lugar aonde se fecham as Cenas médias, se contam, nesta linha que mede o comprimento do triângulo, 24 palmos; daqui até os últimos bastidores, que fecham no fim do poscénio, 17; estes dois últimos bastidores, que terminam o comprimento do teatro, se abrem algumas vezes, continuando-se para dentro por espaço de 7 palmos sobre 41, que tem o teatro de comprimento. O lugar das Cenas médias tem de largura pouco mais de 19 palmos, ficando largura de 9, aonde os dois últimos bastidores terminam o comprimento do poscénio. A altura dos bastidores se estende no primeiro, de uma e outra parte, a 25 palmos, e nos dois últimos a 10; às alturas dos que medeiam entre o primeiro e último termina uma linha recta de um a outro bastidor, e como são também diversos na largura, esta terminam a cada um as linhas verticais que para eles se lançam dos cantos que, junto das paredes da aula, faz a orquestra.
Laus Deo.
Virginique Matri.
Eborae cum facultare Superioru ex Typographia Academiae
Anno Domini 1728