Sumário
Descrição do segundo banquete oferecido por D. João II nos festejos do casamento de seu filho Afonso com a princesa Isabel de Castela (1490)
Ano
1545
Localização
Biblioteca Nacional de Portugal (RES-18-A)
Comentário
Os festejos do casamento do príncipe Dom Afonso são também descritos por Aires Teles de Meneses na Arenga ou relação fiel das Festas que se fizeram na Cidade de Évora.
Impresso

Garcia de Resende, «Vida e feitos del rei D. João II» in Livro das Obras de Garcia de Resende, 1545, ff. 75v-76

Do outro banquete que el rei deu na sala da madeira.

 

E assi se fezeram muitas e grandes festas todos os dias e noites até domingo cinco dias de Dezembro em que houve outro segundo banquete na dita sala da madeira de muitas mais envenções, abastança e gentileza, e de muito mais polícias e muito melhor servido que o primeiro. E era cousa fermosa pera ver as mesas como estavam ordenadas, que em cada ?a havia três grandes bacios de igoarias cubertos, e em cima dos dous dos cabos estavam tendas de damasco branco e roxo, que eram as cores da princesa. As tendas eram borladas e muito galantes, com muitas bandeirinhas douradas, e eram grandes de dez côvados cada ?a. E na igoaria do meo estava um castelo feito como tribolo feito de madeira sotil e pano de tafetá dourado, com tantos chapitéus e bandeiras, tudo dourado, que era muito fermosa cousa e de muito custo. E em entrando na sala estavam as mesas tam fermosas e tam guerreiras que eram muito pera folgar de ver e cousa nova que ainda se nam vira. E as tendas eram por todas trinta e os castelos catorze. (...) Tanto que todos foram assentados, os moços da câmara que tinham carrego das mesas tiraram as tendas e as tomavam pera si. E os castelos, por serem tamanhos que nam cabiam debaixo das mesas, os davam a pessoas que os pediam pera moesteiros e igrejas, em que estiveram muito tempo pendurados e pareciam muito bem. Começaram a comer, e por a infinidade das igoarias, manjares, conservas e fruitas que foi como consoada, durou muito grande espaço; e acabado houve muitos e ricos momos e mui singulares antremezes, cada vez com mais riqueza, gentileza, e melhores envenções que duraram até acerca da menhã. Cousa que se se houvesse d’escrever meudamente como foi pareceria fábula d’Amadis ou Esprandiam. E destes dous banquetes foi veador e ordenador Fernam Lourenço feitor da casa da Mina que foi nisso muito polido e abastado. E na sala da madeira nestes dous banquetes, e assi nos outros dias dos momos qualquer homem que aí vinha rebuçado com touca era logo polos mestres-salas e porteiros-mores mui bem agasalhado onde bem via tudo; isto tinha el rei mandado porque eram aí muitos grandes senhores de Castela desconhecidos a ver as festas, os quais todos foram muito bem agasalhados. E toda a gente da corte e da cidade que estava em pé antre as grades, que era muita, todos comiam do que se tirava das mesas que era em tanta avondança que muito mais era o que sobejava que o que se comia e por isso nam havia pessoa que deitasse mão de cousa alg?a nem fizesse mau ensino, e também polos muitos oficiais que nisso traziam tento e polo castigo que sabiam que haviam d’haver se o fizessem, e mais, sobejando tudo a todos. Que certo foi em tanta abastança e tanta perfeiçam, tanta honra, tanto estado, quanto no mundo podia ser. E neste tempo até o Natal em que os justadores se ensaiavam e aparelhavam as cousas pera a justa, houve na praça da cidade e no terreiro dos paços muitas vezes muitos touros com muitos galantes a eles e ricos jogos de canas e muitos momos e serãos, músicas e festas sem nunca cessarem, e assi houve justas de muito bons justadores detrás de sam Domingos a caram do muro, a que el rei e o príncipe foram. E os paços eram todos armados de ricos brocados e veludos cramesins e ricas tapeçarias com riquíssimas camas tudo em muita perfeiçam.

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