- Sumário
- Descrição das justas realizadas por ocasião do casamento do príncipe D. Afonso com a princesa Isabel de Castela (1490)
- Ano
- 1545
- Localização
- Biblioteca Nacional de Portugal (RES-18-A)
- Comentário
- Garcia de Resende publicou as letras e cimeiras dos justadores em 1516, no Cancioneiro Geral, as quais também são transcritas (sem explicitar os nomes dos fidalgos) por Aires Teles de Meneses na Arenga ou relação fiel das Festas que se fizeram na Cidade de Évora.
- Impresso
Garcia de Resende, «Vida e feitos del rei D. João II» in LIvro das Obras de Garcia de Resende, 1545, ff. 77v-81
De como el rei deu sua amostra, e do grande estado e riqueza e invenções que trazia.
E à quinta-feira depois de comer fez el rei sua amostra com seus oito mantedores e após ele a fizeram todos os aventureiros que passaram de cinquenta. Nos quais todos em cavalos, arneses, paramentos, cimeiras, letras e lanças, moços d’esporas e todas as outras cousas de justa houve tanta riqueza, galantaria, envenções, tudo em tanta perfeiçam que muitos justadores velhos e de muitas partes que aí eram e que já viram outras muitas justas reais se maravilharam muito destas e deziam que nunca tal cousa cuidaram de ver.
Saiu el rei da fortaleza com seus oito mantedores (...), com grandíssimo estado e estrondo, tudo em tanta realeza que se nam pode dizer tam inteiramente como foi. Saíram primeiramente grande
soma de trombetas bastardas, vestidos de ricas sedas das cores del rei e muito bem encavalgados. E após eles vinham dous grandes e altos cadafalsos com rodas per dentro que homens faziam andar sem se ver como andavam, os quais eram ricamente pintados d’ouro e muito bem feitos e ordenados com muitas e ricas bandeiras, todos cheos d’atabaleiros com os atabales polas bordas dos cadafalsos da parte de fora, que faziam tamanho roído por serem tantos que se nam ouvia ninguém. E os atabaleiros vinham todos sem figuras d’homens. O carro primeiro eram todos feitos de feiçam de bogios tam naturais que ninguém os teve por homens, e o outro em figuras de liões reais com as felpas douradas muito naturais e com os atabales todos dourados que parecia muito bem. E detrás dos cadafalsos vinham muitas charamelas e sacabuxas ricamente vestidos. Após eles vinha um gigante muito grande e espantoso, armado de todas armas douradas com um escudo em ?a mão e na outra ?a grande facha, tam natural que parecia vivo e passava de trinta palmos d’alto. E vinha em cima de ?a muito grande azêmola que pera isso se buscou, vestida em peles de ussos e tam natural que cuidavam que era usso e com ?a sela e guarniçam d’estranha maneira, e de redor do gigante muitos homens d’armas a pé com alabardas douradas nas mãos que pareciam muito bem. E entam vinham muitos porteiros de maça, muitos oficiais, todos ricamente vestidos e encavalgados, e após eles o porteiro-mor e depois quatro mestres-salas e atrás o mordomo-mor, todos com opas roçagantes de ricos brocados e telas d’ouro com ricos forros, e após eles vinham muitos cavalos a destro com riquíssimos paramentos e mui singulares armas, e os moços d’estribeira que os levavam todos vestidos de brocado. E diante del rei vinha um seu paje que se chamava dom Jorge de Castro, moço muito fermoso e gentil homem, armado e todo cheo d’ouro e pedraria, com ?a guirlanda de pedraria na cabeça e diante um penacho branco de garça, e vinha em cima de um muito grande e fermoso cavalo com muito grandes paramentos de tela d’ouro e forrados de muito ricas martas zevrinas, e os paramentos eram tamanhos que pera o cavalo poder andar os levavam levantados do chão, e afastados doze moços d’estribeira vestidos de brocado de pelo que faziam um gram terreiro, e era fermosa cousa pera ver. E entam vinha el rei, armado de riquíssimas armas com coroa real no elmo, e sua
cimeira rica e galante em tanta maneira quanto no mundo podia ser, com mui riquíssima pedraria e perlas, e o cavalo muito fermoso e em estremo rico, com tantos canotilhos e chaparia que o brocado rico e ricas telas era o de que se fazia menos conta. E de redor del rei corenta moços d’estribeira muito bem despostos, vestidos todos de brocado de pelo.
E após el rei vinham os mantedores mui ricamente ataviados com riquíssimos paramentos de brocados e telas e ricas sedas, bordados e entretalhados, e com muitos moços d’esporas vestidos de sedas um e um detrás del rei, que desta maneira fez sua mostra e deu ?a volta à praça com este grande triunfo que verdadeiramente foi cousa muito pera desejar de ver e recear d’escrever.
E tanto que el rei foi recolhido ao castelo com seus mantedores, veo logo o duque com sete aventureiros fidalgos de sua casa, com grande soma de trombetas, atambores, charamelas e sacabuxas e antremezes diante com muita riqueza e galantaria e após ele os outros aventureiros todos com tam ricos e galantes paramentos e antremezes e envenções, tantos brocados e telas, tanta chaparia e borlados, antretalhos e tanta riqueza que me parece que dia de tamanha e tam galante festa nunca foi visto outro tal. E neste dia houve aí começo de justa e nam foi mais por logo anoitecer, ainda que pola grande claridade do castelo e as muitas e grandes luminárias da praça que toda a noite ardiam, a tea e a praça era tudo tam craro que podiam justar como na metade do dia. E com este dia de quinta-feira justaram quatro dias continos até o domingo, nos quais dias nevou muito e fezeram grandes frios. Porém a neve não fazia nojo à tea por ser a praça toldada. E a justa foi muito bem justada e deram-se nela muitos e grandes encontros sem haver perigo algum. E a cimeira del rei e dos seus mantedores e suas letras escreverei aqui e assi das dos aventureiros que me lembrarem. E que a alguns isto pareça sobejo outros haverá que folgarão de o ouvir, que quem escreve nam pode contentar a todos e nam fará pouco se de poucos for tachado, que todos querem ?mendar e mui poucos escrever. E pera se isto evitar nam devia d’haver outra pena senam aos grosadores meter-lhe papel e tinta nas mãos e fazê-los per força escrever. E seria mui bom freo pera os desbocados que sem saber o que dizem grosam o que não entendem. E as cimeiras e letras são estas:
El rei levava por cimeira uns liames de nau pola rainha dona Lianor sua molher cheos de pedraria e dezia a letra:
Estes liam de maneira
que jamais pode quebrar
quem co’eles navegar.
O prior de sam Joam de Castela Valençoila, que fora grande senhor e andava cá desterrado, trazia Alexandre em cima dos grifos e dizia:
No es menor mi pensamiento
mas ha quebrado tristura
las alas de mi ventura.
Dom Diogo d’Almeida, que depois foi prior do Crato, levava a boca do inferno com almas dentro e dizia:
Acordaos de mis pasiones
ánimas descansaréis
de cuantas penas tenéis.
Joam de Sousa trazia uma besta fera e dizia:
Aquesta guarda sus armas
mas a mí que amor enciende
nunca dellas me defiende.
Aires da Silva, camareiro-mor, trazia o cão cerveiro e dezia:
Guardas tú mas no tan cierto
como yo siempre guardé
la fe del bien que cobré.
Monseor de Veopargas, francês, trazia ua cabeça de cabra e dezia:
Quien me tocare naquesta
yo le romperé la testa.
Dom João de Meneses trazia um ichó com um homem metido nele até à cinta e dizia:
Es tan dulce mi prisión
que debe para matarme
no prenderme mas soltarme.
Álvaro da Cunha, estribeiro-mor, trazia ua harpa sem cordas e dizia:
Cuanto más oye alegría
quien no alcanza ventura
tanto más siente tristura.
Rui Barreto levava um banco pinchado e dizia:
Más quiero morir tras él
sus peligros esperando
que la muerte recelando.
Aventureiros:
O duque dom Manoel, irmão da rainha, trazia sete justadores seus com os sete planetas.
O duque levava o deos Saturno e dezia:
El consejo que he tomado
deste muy antiguo dios
es dejar a mí por vos.
Dom João Manuel levava o Sol e dizia:
Sobre todos resplandesce
mi dolor
porque es él qu’es mayor.
Pedr’Homem trazia Vénus e dizia:
Si esta gracia y hermosura
puede darla
de vos tiene de tomarla.
Garcia Afonso de Melo trazia a Lua e dizia:
Ante la luz de su lumbre
de vuestra gran claridad
es la desta escuridad.
Lourenço de Brito trazia Mercúrio e dizia:
No hay saber ni descreción
al que os mira
porque viendoos se le tira.
João Lopes de Sequeira levava Mares e dizia:
La vitoria que de aqueste
he recebido
es verme de vos vencido.
António de Brito levava Júpiter e dizia:
Aqueste suele dar vida
al que más servir se halla
y vos al vuestro quitarla.
Outros aventureiros que vieram per si.
Dom Fernando de Meneses, que depois foi marquês de Vila Real trazia um forol e dizia:
En el mar de mi deseo
viendo su lumbre seguí
a ella y dejé a mí.
Pedr’Aires, castelhano, trazia ua serpente e dizia:
La vida pierde dormiendo
el que muerde este animal
y yo callando mi mal.
Dom Anrique Anriques, senhor das Alcáçovas, trazia ua torre com um sino e dizia:
Este sona mi servicio
ser con vos
tan cierto como con Dios.
O conde d’Abrantes, dom João d’Almeida, trazia ua hidra de sete cabeças e dizia:
Cuando sanan de un dolor
los que como yo padecen
siete dél se le recrecen.
O capitam dos ginetes, Fernam Martins Mascarenhas, trazia ua atalaia e dizia:
Ha descubierto mi vida
desde aquí
gran descanso para mí.
Dom Rodrigo de Meneses, guarda-mor do príncipe, trazia uas limas e dizia:
Éstas sueltan las prisiones
de que muchos han salido
y a mí han más prendido.
Dom Martinho, veador da fazenda, que depois foi conde de Vila Nova, levava ua mão com uns malmequeres e dizia:
Cien mil déstas desfojé
mas fue mi ventura tal
que siempre quedó en el mal.
Jorge da Silveira levava uas fateixas e dizia:
Van buscando mis servicios
el galardón que cayó
donde nunca pareció.
Dom Diogo Pereira, que depois foi conde da Feira, levava o anjo sam Miguel com as balanças e dezia:
Si a mi gran querer y fe
galardón tiene defesa
tú lo pesa.
Dom Rodrigo de Monsanto levava a torre de Babilónia e dizia:
Es tan baja mi ventura
y tan alto el edificio
que no basta mi servicio.
Dom Diogo Lobo, barão d’Alvito, levava um lião rompente e dezia:
Con sus fuerzas y mi fe
todos mis males dobré.
Dom Pedro de Sousa, que depois foi conde do Prado, trazia um matador e dizia:
Vuestra vida desbarata
más do qu’éste roba y mata.
Francisco da Silveira, coudel-mor, trazia uas Luas cheas e vazias e dezia:
Las minguadas son mis bienes
y por mi dicha ser tal
las llenas son de mi mal.
Diogo da Silveira trazia um madronheiro com madronhos e dizia:
Neste remedio de vida
tengo la mía perdida.
Pero d’Abreu trazia ua águea e dizia:
Nam t’espantes do que faça
sigue-me bem e verás
e eu te matarei a caça
e tu a depenarás.
Nuno Fernandes d’Ataíde levava uns ramos de fetos e dizia:
En el comienzo de aquestos
comencé
y en ellos acabé.
Garcia de Sousa trazia uns compassos e dizia:
No puede ser compasada
la fe que os tengo dada.
Joam Ramirez d’Arelhano, castelhano, trazia ua celada e dizia:
Es descanso de mi mal
ser en aquesta celada
toda mi vida gastada.
Diogo de Mendoça levava uas âncoras e dizia:
Que venga toda fortuna
jamás sueltan vez ninguna.
E ao domingo por noite se desfizeram e acabaram as justas, e el rei, a rainha, o príncipe e a princesa se foram pera os paços com grande triunfo, e aquela noite houve muito grandes festas. E polos juizes das justas que eram Rodrigo d’Ilhoa, Rui de Sousa e o regedor Fernam da Silveira se julgaram e pubricaram a el rei ambos os preços. Os quais preços eram ao mais galante um anel dum muito rico diamante e a quem melhor justasse um grande colar d’ouro muito esmaltado. A qual sentença foi mui justa porque além del rei vir à tea mais galante que todos, por ser aquela a primeira vez que justara quebrou com muita desenvoltura as rimeiras quatro lanças que pera ganhar o grau eram ordenadas. Mas el rei tomou pera si somente a honra e o proveito dos preços deu a outrem: o colar a um Mosem, alegre fidalgo valenciano que aí andava grande justador, e o anel deu a Diogo da Silveira. E após estas justas eram outras tam ricas ordenadas na praça e na sala da madeira, mas por rebate de peste que na cidade houve polo dano que o muito ajuntamento das justas fazia, se deixaram de fazer. E òs muitos estrangeiros que a este casamento e festas vieram fez el rei muitas e grandes mercês e com grandes honras os despediu. E a todos, segundo suas calidades, com grande nobreza deu mui grandes dádivas, com que todos partiram mui alegres e muito contentes del rei, das festas e de toda sua corte. (...)