- Sumário
- Descrição das festas da entrada em Lisboa do rei dom Manuel e da rainha dona Leonor (21 de JJaneiro de 1521)
- Ano
- 1521
- Biblioteca/Arquivo
- <p>Arquivo Nacional da Torre do Tombo</p>
- Cota
- Códices e documentos de proveniência desconhecida, n.º 43A, ff. 328v-330v
- Comentário
- O organizador dos festejos foi Gil Vicente
- Menções
- Correia, Gaspar, Crónica de D. Manuel e de D. João III (até 1533) Leitura, introdução, notas e índice por José Pereira da Costa. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa (pp126-132); Machado, João Nuno Sales, "per ordenança de Gil Vicente", in "Gil Vicente 500 anos depois, vol I, Lisboa, IN-CM, pp. 475-497; «Teatro em serviço de uma rainha ou conveniente retórica para devoção e festa», Casa Perfeitíssima, 500 Anos da Fundação do Mosteiro da Madre de Deus, Lisboa, Museu Nacional do Azulejo, pp. 91-99.
Tanto que a cidade de Lisboa foi prestes, el rei abalou de Almeirim e se veio pela banda de Ribatejo aposentar no Lavradio, donde podia ver toda a cidade, onde esteve 4 dias, que em cada noite toda a cidade e naus que estavam no rio tudo ardia em fogos, que era uma mui formosa coisa de ver, e da cidade cada dia vinham caravelas, batéis e barcos para a passagem del rei, com muitos jogos e invenções e grandes gastos de toldos, de brocados e sedas, e ricas bandeiras, em a qual el rei com a rainha e filhos e filhas se embarcaram todos em uma grande fusta lavrada de bordos, com grandes estrados para as pessoas reais e damas suas que ali eram juntas, o príncipe e infantes dom Afonso e dom Fernando e dom Luís saíram de Almeirim donde estavam com as irmãs e no campo
de Santarém beijaram a mão à rainha, que lhes fez grande acatamento e mostrou grandes gasalhados, e muito mais o fez no terreiro de Almeirim quando se desceu, onde veio recebê-la a infante dona Isabel e a infante dona Beatriz com suas damas e todas que a casa toda inteira ficou com elas por morte da mãe, a qual a rainha vendo ficou pasmada da grande formosura da infante Dona Isabel, à qual não quis dar a mão, antes ambas abraçou e levou abraçadas até sua câmara, que no estrado as assentou consigo e ela em meio, com mostras de grande prazer e amor, que tais eram elas que o bem mereciam/, o que el rei dobrava em grande amor vendo a muita honra e grande gasalhado que mostrava a seus filhos.
E tornando ao recebimento, a fusta del rei era toda d’avante à ré ecoberta somente de uma ramada de cravos e rosas e manjeronas e outras formosas flores, e da borda até água um pano de brocado que chegava até água. E o toldo de popa para dentro e para fora forrado de brocado raso e sobre ele uma bandeira real da Cruz de Cristo, era prestes uma gale real também para el Rei se nela quisesse vir, que tinha a vela de damascos brancos e carmesins toda bordada de letreiros dourados e no meio uma grande Cruz de Cristo de brocado a galé toda embandeirada de bandeiras dos mesmos damascos dourados e franjados de ouro e carmesim e o toldo de brocado até água e as enxárcias pintadas com ouro e azul e outras pinturas e os remos assim pintados e os remeiros vestidos de libré branca e vermelha e nela todo os instrumentos altos baixos, a fusta em que ia el Rei com toda a nobreza da sua corte, porque não remava nem tinha vela, a levava outra fusta à toa por uma grossa cadeia dourada e dada na mão de um mui grande São Cristóvão que ia sobre a proa da outra tamanho como altura de três homens, mui formoso e bem feito, com um grande pinheiro na mão com um grande rótulo que dizia: Rei e Rainha poderosos, después que passé al alto, Dios me mandó que tuviese guardados estos mis miembros sagrados para pasar a vos. Nesta fusta iam oficiais da cidade ricamente vestidos de sedas e colares e sua fusta toldada de brocado e com suas bandeiras com a nau e corvos que é a divisa da cidade e os remeiros de libré preta e branca com muitos corvos por eles, e os paramentos do bordo da fusta até o mar com os ditos corvos, com grande presente de banquetes de infinidades de frutas.
Veio outro batel dos oficiais da Alfândega e outro dos oficiais da Casa de Mina e assim batéis de todas outras casas de oficiais, cada um quanto mais podia com toda a perfeição de gentilezas e invenções com grandes gastos, e assim vieram barcas enrramadas e louçãs de cada ofício dos oficiais mecânicos de toda a cidade e seu termo, e de todo Ribatejo de cada lugar 6 barcos com suas folias e homens mancebos e moças louçãs para bailar e cantar e foliar, foram seis caravelas latinas cheias de gente armada de armas brancas que muito bem pareciam, foi toda barca e batel que havia em todo rio de Lisboa. Foi uma caravela ordenada por mancebos escolares cheia de diabos mui disformes e a caravela mal aparelhada e velas esfarrapadas e pintadas de más pinturas de que saíam grandes fumaças e fogos artificiais e muitos trovões, e a caravela sem governar, ora a través ora à popa, e os diabos fazendo coisas de muito prazer com que houve a mor festa do recebimento. Foi em um grande batel um moço filho de João Francisco, grande rico e tratante, o qual batel os remeiros eram vestidos de jaquetas de veludo e gorras com penachos e calças de grã e remos dourados até água, e do bordo do batel até água um pano de veludo amarelo entretalhado de azul, um grande toldo napopa de fora de brocado raso e de dentro forrado de cetim branco e por ele postas muitas estrelas de ouro e o sol e a lua, tudo de chapa de ouro, e o moço, que era assaz gentil homem, vestido
em uma opa de brocado de peso forrada de anjinhos brancos, e em cima um muito rico colar e na cabeça uma gorra de veludo pardo e nela muitas pérolas e uma joia de grande preço e nela um muito formoso penacho, assentado em uma cadeira toda chapada de ouro e diante dele posta uma mesa baixa coberta de um pano de veludo carmesim, e a ela assentados em escabelos baixos 8 homens feitores de seu pai com seus papéis e escrivaninhas, livros ante si, e eles vestidos de opas de veludo roxo e morado e outras cores honestas e todos com os barretes fora e colares ricos e o batel com muitas bandeiras pretas e amarelas e brancas que são as cores do pai e nelas suas armas douradas e louçãs, que foi o batel que levou o preço de loução e rico. E assim foram outros muitos mercadores ricos, muitos de grandes gastos e riquezas com muita gentileza, coisa mui sem número nem para se poder contar.
As velas e batéis que foram nesta passagem passaram de 600 com que el rei abalou do Lavradio e veio tomar defronte de Xabregas onde esteva a Rainha Leonor, que saiu em seu andor e veio à praia, e el rei chegou muito na borda da água donde as rainhas se viram e falaram assim por então, e el rei foi correndo à Ribeira e mandou passar todos os batéis da banda do mar por lhe não impedirem a vista da cidade onde as naus eram todas postas em boa ordem e afastadas da praia por ficar bom lugar para a passagem de el rei. A cidade de longo do mar por muros e janelas e lugares de vista era tudo coberto de infinidade de gente, tudo toldado e paramentado com muitas bandeiras e estandartes; tanto que el rei começou de entrar as naus todas logo deram fogo à sua artilharia que foi sem conto que o fumo escureceu o Sol, e assim com grande vagar foi desembarcar no cais das casas, que tudo estava toldado e armado de rica tapeçaria, onde aquela noite dormiu. Ao outro dia cedo pela manhã el rei e a rainha com todas as pessoas reais, tirando as infantes, e todas outras pessoas do reino principais se vestiam e ataviaram em grande perfeição de muitas riquezas e grande gentileza e a cavalo foram para fora pela Ribeira até a Porta de Oura por onde era ordenado que entrassem na cidade, onde estava um grande cadafalso armado e nele os cidadãos e príncipais da cidade, onde um doutor lhe fez sua arenga costumada e os oficiais lhe apresentaram as chaves em um bacio de prata. E logo sobre as pessoas reais puseram um pálio rico de brocado de 8 varas douradas, o qual levaram os ditos oficiais louçãos e ricos; iam diante charamelas, atabales, trombetas, porteiros de maças de prata e 8 reis-de-armas com suas ricas cotas vestidas, em ordem tudo como cumpria e diante todo o género de festa e folias e danças e entremeses de judeus e mouros; logo à entrada da porta da mão direita está um cadafalso em que era feita árvore de Jessé muito grande, dourada, e nela postos todos os reis e profetas e em cima, em um céu, Deus Padre com a corte angelical com muitos instrumentos e músicas que naturalmente o parecia, a qual árvore saía do peito de Adão, que era uma grande figura que estava deitada dormente, onde andava um doutor vestido em uma roupa de veludo roxo que lhe destrinçou a tenção da representação; da outra mão esquerda estava outro cadafalso muito coberto de ramos e arvoredo commuitas fontes de água que representava a ilha da Madeira, e no meio uns ricos aposentos em que viviam quatro fadas, e em uma rica câmara estava um berço dourado que embalavam quatro sereias cantando suavemente e as fadas falaram em lugar da ilhaoferecendo-se para criarem o filho ou filha primeiro que parisse e seria por elas fadado, então cada uma o fadou de grandes bens e louvores, acabado com doces cantares dassereias, que muito bem pareceu, e el rei passou avante. Todas as ruas
eram paramentadas de ricos toldos e tapeçaria, à entrada das Fangas da Farinha até à varanda de el Rei de uma banda e da outra eram tudo feito em um cadafalso em o qual estavam feitas de madeira bem lavradas e pintadas todas as fortalezas da Índia com grandes portas e em cima seus letreiros nomeado-as, a cada porta mesa de feitoria posta com suas mercadorias e oficiais comprando vendendo com os da terra uns em suas figuras e trajos e línguas muito naturais e tudo em muita perfeição e gentileza, e no cabo da outra banda, estava Guiné com a Mina, e adiante, ao pé da varanda, está um cadafalso em que estavam os oficiais da moeda lavrando muito ouro e prata de que havia grandes montes em barras e muito em moeda feita, onde andava um grande cisne passeando coberto de uma penas douradas de roxecre e muitas cores com um colar de ouro ao pescoço que se chegava aos montes das moedas enchia a boca de vinha à borda do cadafalso e rejeitava o papo e deitava muito ouro e prata por cima da gente, em que havia grandes reba[n]tinhas. E mais adiante no arco onde vendem os pregos havia outro cadafalso onde estavam os tanoeiros e tinham duas mulheres metidas em tinas até cinta com as mãos nas tetas. E por uma lançavam vinho vermelho e por outro branco, muito finos e em muita avondança, que caía em outras tinas que estavam de longo no chão, onde estavam muitas escudelas de pão, com que bebiam quantos queriam, que a coisa com que os estrangeiros houveram muito prazer por ser vinho e o melhor que se podia ver, em cima no cadafalso entre um arvoredo havia uma sereia penteando-se a um espelho, a qual era uma dama encantada com o cantar de um grande dragão que lhe fazia em guarda deitado aos seus pés. E mais adiante no Arco dos Barretes estava outro grande cadafalso em que estava uma grande brenha de arvoredo muito viçoso de muitas flores e aves formosas e muitos passarinhos que nele cantavam, e logo de um cabo do cadafalso saiu um formoso cisne com um colar de ouro a seu colo onde trazia atada uma cadeia a que vinha amarrado um batel toldado de veludo carmesim e dentro um formoso cavaleiro armado de todas armas, o qual logo saiu fora e guiado do cisne por entre o arvoredo foi ter ao pé de um grande limoeiro de limões dourados e cheio de muitas candeinhas acesas, e no meio estava uma grande esfera fechada çerrada toda de ouro onde o cavaleiro chegando se combateu com um forte leão que o guardava e o matou e tocando com a mão no limoeiro a esfera se abriu por meio e pareceu dentro uma formosa e ricamente vestida donzela com uma coroa de ouro na cabeça, que representava a rainha, e logo a rogo do cavaleiro ela se desceu e com gentileza oabraçou, e dando ambos graças a Deus por aquela aventura assim acabou. Veio um anjo com duas coroas de ouro e os corou e cada um sua, e a que a Rainha tinha, que era somente que a que lhe pôs, tornou a levar para o céu e logo ambos foram passeando pelo cadafalso onde se descobriu uma grande cidade de onde saíram muitas gentes com grandes festas a os receber com grande pálio ricos e muitostangeres a qual representação foi feita pelos oficiais da Casa da Índia em nome de el rei e rainha, que foi muito louçã e em grande perfeição de ricas figuras, e a rainha passou avante vendo outras muitas representações e infinitos jogos. Na boca da rua da Ourivesaria estava feita uma copeira de muitos degraus onde estava posta por eles tanta prata branca e dourada que foi estimada em cem mil marcos dela e se crê que estava ali a de muitos senhores de Portugal, que para isso a emprestaram, e no pé do cadafalso duas grandes serpentes feitas de prata todas que, por engenho, se maneavam e buliam, como vivas, com rótulos em suas bocas em que diziam tudo aquilo guardarem para serviço da rainha. Da outra banda de longo do Pelourinho Velho estava um cadafalso de longo de todas as feitorias de Flandres mormente de todas outras partes em todas postas grandes riquezas das mercadorias
que nelas tratam. Adiante na Porta do Mar estava outro grande cadafalso feito pelos cirieiros em que estava o mais excelente jardim que se podia pintar, todo feito de cera, de todas as árvores e flores e nele todalas fermosas aves e passaranhos que cantavam com muitas fontes de água, mui subtis, e caniçadas, e casas de latadas, e entre as ervas muitos coelhos de cores, e veados, e outras formosas alimárias, e de redor de uma lagoa muitas feras alimárias aguardando pelo alicorne, que em chegando a rainha, ele veio e benzeu a água com o corno e as outras beberam representando aqui o paraíso terreal, o que tudo era feito em tanta perfeição de sutileza e grande arte que foi a coisa mais gabada e de mais louvor de todo o recebimento, e um anjo que de dentro saiu abrindo umas portas douradas de que ele tinha as chaves e deu à Rainha um letreiro e que dizia que ele era guarda daquele santo virgéu para ela somente nele entrar quando lhe prouvesse. Daqui até à Sé havia outras muita infindas representações que se todas escrevesse se iria encher cem folhas de papel. Em cima no cabo da Padaria da mão esquerda estava feita uma vila com muita gente pelas janelas e torres e um campo com uma fera serpe com uma donzela e São Jorge a cavalo que a matou, o que fizeram os ferradores. Em Nossa Senhora da Porta de Ferro estava mui alto feito um céu artificial de grandes músicas e cantares de que descendeu um arcanjo que diante da rainha se apresentou com um breve dos oficiais da cidade em que não fazia serviço de 5 cruzados para uns chapins a que a Rainha não mostrou muito bom semblante, dizendo que eram fracos para ela que era mui pesada. Na Sé de uma banda e da outra estava a cidade de Tróia que foi logo combatida a guerreada e acesa em fogos, na qual representação se detiveram muito por ser mui grande, feita pelos escolares que ali pediram à Rainha a confirmação de seus privilégios, que tudo lhe logo foi concedido. E por ser já muito tarde e el rei e rainha já terem ouvido missa antes de saírem de casa se desceram e foram ao altar mor beijar o lenho que lhe foi apresentado pelo Arcebispo de Lisboa com uma grande solenidade, e tudo em grande aparato e pompa de grandes riquezas, e se tornaram a cavalgar, e pela Padaria abaixo e por fora pela Ribeira e tornaram aos paços já quase noite.
Tamto que a cydade de Lysboa foy prestes elRey abalou de Almeirym
e se veo pola bamda de Ribatejo aposemtar no Lauradyo domde
podya ver toda a cydade omde esteue iiij dias que em cada noyte toda ha
cydade e naos que estauam no ryo tudo ardya em fogos que hera h?a muj
fremosa cousa de ver e da cydade cada dia vynham carauelas bates e barqos
pera a pasagem delrrey com mujtos jogos e emvemçoes e gramdes gastos
de toldos de brocados e sedas e riqas bamdeiras / em a quall ElRey com
a Rainha e filhos e filhas se embarcaram todos em h?a gramde fusta / laurada
de bordos com gramdes estrados pera as pessoas reaes e damas suas que aly
heram jumtas o primcipe e yfamtes dom Afonso e dom Fernando e dom Luys
sayram dAlmeyrym domde estauam com as jrmãas e no campo //
de Samtarem beyjaram a mao a Rainha que lhes fez gramde acatamento e mostrou
gramdes gasalhados / e muyto mays no terreiro dAlmeyrym qamdo
se deceo omde veo recebe la a Yfamte dona Ysabell e a Yfamte dona Bryatyz
com suas damas e todas que a casa toda ymteira fycou com elas per morte
da may / a quall a Rainha vemdo fyqou pasmada da gramde fremosura da
Yfamte dona Ysabell / a quall nom qys dar a mao amtes ambas abraçou
e leuou abraçadas ate sua camara que no estrado as asemtou consygo
e ela em meo com mostras de gramde prazer e amor que taes heram elas
que o bem merecyam // o que elRey dobraua em gramde amor vemdo a mujta
omrra e gramde gasalhado que mostrava a seus filhos //
E tornamdo ao reçebymento a fusta delrrey era toda davamte a re
cuberta somente de h?a ramada de crauos e rosas e mangeronas e outras
fremosas froles e da borda ate agoa h?u pano de brocado que chegava ate
agoa E o toldo de popa per demtro e per fora forado de brocado raso e sobre
ele h?a bamdeira reall da Cruz de Christos / era prestes h?a gale reall
tambem pera elrrey se nela quygese vyr que tynha a vela de damasqos
bramqos e crymjsys toda bordada de letreiros dourados e no meo
h?a gramde Cruz de Christos de brocado a gale toda enbamdeirada de bam
dejras dos mesmos damascos dourados e frangados douro e crymjsym
e o toldo de brocado ate agoa / e as emxarceas pymtadas com outro e
azcull e outras pymturas e hos remos asy pymtados e os remeyros
vystydos de lyure bramca e vermelha / e nela todolos ystromentos altos
e bayxos / há fusta em que hya elrrey com toda a nobreza da sua corte
porque nom remava nem tynha vela / a leuava outra fusta a toa per h?a
grosa cadea dourada / e dada na mão de h?u muj gramde Sam Christovão
que hya sobre a proa da outra tamanho como altura de tres homes muj
fremoso e bem feyto com h?u gramde pynheiro na mão com h? gramde ro
tolo que dyzia / Rey e Reyna poderosos / dypues que pase / alhalto dyos
me mamdo que tuuyese quardados estos mjs membros sagrados / pera
pasar a vos / nesta fusta hyam os ofyciaes da cydade riquamente
vystydos de sedas e colares e sua fusta toldada de brocado e com suas
bamdeiras com a não e corvos que he a dyujsa da cydade e os remeyros
de lyure preta e bramca com mujtos corvos per eles e os paramento
do bordo da fusta ate o mar com os dictos coruos / com gramde
presemte de bamqetes de emfynydades de fruytas //
Veo outro batell dos ofyciaes dalfamdega / e outro dos ofycyaes
da Casa da Myna / e asy bates de todolas outras casas de ofyciaes cada h?
qamto mais podya com toda perfeyçao de gemtylezas e emvemções com grandes
gastos / e asy vyeram barqas emrramadas e louças de cada ofycyo
dos ofyciaes macanjcos de toda a cydade e seu termo / e de todo Rybatejo de
cada lugar bj barcos com suas frolyas e homes mancebos e moças
/ louças pera baylar e cantar e frolyar / foram seis carauelas latynas
cheas de gemte armada darmas bramcas que mujto bem parecyam foy
toda barqua e batell que avia em todo ryo de Lysboa foy h?a caravela
ordenada per mancebos escolares chea de diabos muj dysformes e a caravela
mall aparelhada e velas esferrapadas e pymtadas de mas pymturas
deque sahyam gramdes fumaças e fogos artyfycyaes
e mujtos troes e a carauela sem governar ora atraues ora a popa
e os diabos fazemdo cousas de mujto prazer com que houve a mor festa
do reçebymento / foy em h? gramde batell h? moço filho
de Joam Francisqo gramde riqo e tratante / o quall batell hos
remeyros eram vystydos de jaqetas de veludo e gorras com penachos e
calças de gram e remos dourados ate agoa / e do bordo do batell
ate agoa h? pano de velude amarello entretalhado dazull h? gramde
toldo na popa de fora de brocado raso e de demtro forado de cytym
bramqo e per ele postas mujtas estrelas douro e ho soll e a lua
tudo de chapa douro e o moço que hera açaz gemtyll homem vystydo //
em h?a opaa de brocado de peso forada de armjnhos branqos e em cyma
h?u muj riquo colar / e na cabeça h?a gorra de veludo pardo e nela mujtas
perolas e h?a joya de gramde preço e nela h?u muj fremosso penacho
asemtado em h?a cadeira toda chapada douro e diamte dele posta h?a
mesa bayxa cuberta de h? pano de veludo crymjsym e a ela asemtados em
escabelos bayxos biij homens feytores de seu pay com seus papes e espri
vanjnhas e lyuros amte sy / e eles vestydos de opas de veludo roxo
e morado e outras cores onestas e todos com os barretes fora e colares
ryqos e o batell com mujtas bamdeiras pretas e amarelas e bramcas
que sam as cores de pay e nelas suas armas douradas e louçãas que
foy o batell que leuou o preço de louçao e riquo / E asy foram outros
mujtos mercadores riqos mujtos de gramdes gastos e riqezas
com mujta gemtyleza cousa muj sem numero nem pera se poder comtar //
As velas e bates que foram nesta pasagem pasaram de bj? com que elRey
abalou do Lauradyo e veo tomar defromte dEmxobregas omde estava
a Rainha dona Lyanor que sahyo em seu amdor e veo a praya e elRey chegou
mujto na borda dagoa domde as rainhas se vyram e falaram asy por emtam
e elRey foy corremdo a Ribeira e mamdou pasar todolos bates da bamda
do mar por lhe nom empydyrem a vysta da cydade omde as naos eram
todas postas em boa ordem e afastadas da praya por fyqar bom
lugar pera a pasagem delRey / a cydade de lomgo do mar per muros e
genelaas e lugares de vysta era tudo cuberto demfynjdade de gemte
tudo toldado e parementado com mujtas bamdeiras e estemdartes
tamto que elrrey começou de emtrar as naos todas logo deram fogo
a sua artelharya que foy sem comto que o fumo escureçeo o soll / e asy
com gramde vagar foy desembarcar no cays das casas que tudo estava
toldado e armado de riqua tapeçarya omde aquela noyte dormjo ao
outro dya cedo pola menhã elRey e a Rainha com todolas pesoas reaes tyrando
as jfamtes e todolas outras pessoas do Reyno primcipaes se vystyram e ata
biaram em gramde perfeyçao de mujtas riquezas e gramde gemtyleza e a
caualo foram per fora pola Ribeira ate a Porta dOura per omde era horde
nado que emtrasem na cydade / omde estaua h? gramde cadaffalse armado e
nele os cydadaos e primcipaes da cydade omde h?m doutor lhe fez sua aremga
custumada e os ofyciaes lhe apresentaram as chaues em h? bacio de prata
E logo sobre as pesoas reaes puseram h?m paleo riqo de brocado de
biij varas doutradas o quall leuaram os dictos ofyciaes louçaos e riquos
hyam diamte charamelas atabales trombetas porteiros de maças de prata e
biij reys darmas com suas riqas cotas vestydas em ordem tudo como comprya
e dyamte todo o genero de festas e folias e damças e amtremeses de judeus
e mouros / logo a emtrada da porta da mão direita esta h? cadafalsso em que
era feyta aruore de Jase muj gramde dourada e nela postos todolos reys
e profetas e em cyma em h? ceu Deus Padre com a cortte amgelyca com mujtos
ystromentos e musycas que naturallmente o parecya / a quall aruore sahya
do peyto dAdam que hera h?a gramde fygura que estaua deytada dormente
omde amdava h?m doutor vystydo em h?a opaa de veludo roxo que lhe dystrynçou
a temçao da represemtaçao / da outra mao esqerda estaua outro cada
ffalso muj cuberto de ramos e aruoredo com mujtas fomtes de agoa
que representava a ylha da Madeira e no meo h?us ryqos aposentos
em que vyujam quatro fadas e em h?a riqua camara estaua h?u
berço dourado que embalavam quatro sereas camtando suauemente e as
fadas falaram em lugar da jlha oferecemdo se pera cryarem o filho
ou filha primeiro que paryse e serya per elas fadado emtam cada h?a o
fadou de gramdes bees e louuores acabado com doces camtares
das sereas que muj bem pareçeo e elRey passou avamte / todolas ruas //
heram paramentadas de ryqos toldos e tapeçarya a entrada das fangas
da farynha ate a varamda delRey de h?a bamda e da outra eram
tudo feyto em h?u cadafalsso em o quall estauam feytas de madeira bem
lauradas e pymtadas todolas fortelezas da Ymdya com gramdes portas
e em cyma seus letreiros nomeando as / a cada porta mesa de feytorya
posta com suas mercadaryas e ofyciaes compramdo e vemdemdo com os
da terra cada h?uns em suas feguras e trajos e lymgoas muj naturaes
e tudo em mujta perfeyçao e gemtyleza e no cabo da outra bamda estava
guyne com a Mjna / E adiamte ao pe da varamda esta h? cadafalso
em que estauam os ofycyaes da moeda laurando mujto ouro e prata de que
avya gramdes momtes em barras / e mujto em moeda feyta omde andava
h?u gramde cyrne paseamdo cuberto de h?as penas douradas de roxecre de mujtas
cores com h? colar douro ao pescoço /que se chegaua aos momtes das moedas
e em chea a boca se vynha a borda do cadafalsso e regeytava o papo e
deytaua mujto ouro e prata per cyma da gemte em que avya gramdes re
batynhas. / E mais adiamte no arquo omde vemdem os pregos avya outro
cadafalsso omde estauam os tanoeyros e tynham duas molheres metydas
em tynas ate cymta com as maos nas tetas E per h?a lamçavam vynho
vermelho e per outro bramqo muj fynos e em mujta avomdança que cahya
em outras tynas que estauam de lomgo no chao / omde estauam mujtas es
cudelas de pao com que bebyam qamtos qyryam que a cousa com que os estramgeyros
ouueram mujto prazer por ser vinho e o mjlhor que se podya ver em cyma no cadafalsso
amtre h?u aruoredo avya h?a serea pemteamdo se a h?u espelho a quall era
h?a dama encamtada com o cantar de h? gramde dragam que lhe jazia
em guarda deytado a seus pes / E mais adiamte no Arquo dos
Barretes estaua outro gramde cadafalso em que estaua h?a gramde brenha
de aruoredo muj vyçosso de mujtas froles e aves muj fremosas e mujtos
pasarynhos que nele camtavam / e logo de h?m cabo do cadafalsso sahyo
h?m fremosso cysne com h? colar douro a seu collo omde trazia atada h?a
cadea a que vynha amarrado h?m batell toldado de veludo crymjsym e dentro h?u
fremosso caualeiro armado de todas armas / o quall logo sahyo fora e gujado
do cysne per amtre ho aruoredo foy ter ao pee de h?u gramde lymoeiro de
lymoes dourados e cheo de mujtas camdyhynhas acezas e no meo estava
h?a gramde espera çarrada toda douro / omde o caualeiro chegamdo se
combateo com h?u forte lyam que ho guardava e o matou e tocando com ha
mao no lymoeiro a espera se abryo por meo e pareceo demtro h?a fremosa
eriquamente vystyda domzela com h?a coroa douro na cabeça que representava
a Rainha e logo a rogo do caualeiro ela se deçeo e com gemtyleza o abraçou
e damdo ambos graças a Deus por aquela vemtura asy acabar veo h?m
amjo com duas coroas douro e os coroou e cada h? sua e a que a Rainha
tynha que era somenos que a que lhe pos tornou a leuar pera o ceo e logo
ambos foram paseamdo polo cadafalso omde se descobryo h?a grande
cydade domde sayram mujtas gemtes com gramdes festas e prazeres aos
reçeber com gramde paleo riqos e mujtos tamgeres a quall repre
semtaçao foy feyta polos ofyciaes da Casa da Ymdya em nome delRey
e Rainha que foy muj loucam e em gramde perfeyção de riqas fyguras
E a Rainha passou avamte vemdo outras mujtas representaçoes
e ymfynytos jogos na boca da rua da Orevezarya esta feyta h?a
copeyra de mujtos degraos omde estaua posta per eles tamta prata
bramca e dourada que foy estymada em cem mjll marcos dela e se
cre que estaua aly a de mujtos senhores de Purtugall que pera yso ha emprestaram
a no pee do cadafalsso duas gramdes serpemtes feytas de prata todas
que per emgenho se meneavam e bolyam como vyvas com rotolos em suas
bocas em que dyziam tudo aqujlo guardarem pera syrujço da Raynha
da outra bamda de lomgo do Pilourynho Velho estava h? cadafalso
de lomgo de todolas feytoryas de Framdes mormente e de todolas
outras partes em todas postas gramdes riquezas das mercadaryas //
que nelas tratam / adiamte na Porta do Mar estaua outro gramde ca
dafalso feyto polos cyryeiros em que estaua ho mais eycylemte jardim
que se podya pymtar todo feyto de cera de todolas aruores e froles e nele
todolas fremosas aves e pasaranhos que camtavã com mujtas fomtes
dagoa muy sotes e canjçadas e casas de latadas e amtre as heruas
mujtos coelhos de cores e veados e outras fremosas alymaryas e derrador
de h?a alagoa mujtas feras alymaryas aguardamdo polo alycorne que
em chegamdo a Rainha ele veo e bemzeo agoa com o corno e as outras beberã
reepresemtamdo aquy o parayso tyrreall o que tudo era feyto em tamta
perfecçao de sotyleza e gramde arte que foy a cousa mais gabada e
de mais louuor de todo o recebymento e h? amjo que de demtro sahyo ha
brymdo h?as portas douradas de que ele tynha as chaues e deu a Rainha
h?m letereiro em que dyzia que ele era guarda daquele samto virgeo pera
ela somente nele emtrar qamdo lha prouuesse // Daquy ate a
Se avya outras mujta ymfymdas representações que se todas espreuese
syrya encher cem folhas de papell / em cyma no cabo da Padarya da
mao esquerda estava feyta h?a vyla com mujta gente polas genelas
e torres e h?u campo com h?a fera serpe com h?a domzela e Sam
Jorge a caualo que ha matou o que fyzeram os ferradores / em Nosa Senhora
da Porta de Ferro estaua muj alto feyto h?u ceo artefycyall de grandes
musycas e camtares de que descemdeo h?u arcamjo que amte a Rainha
se apresemtou com h? breue dos ofyciaes da cydade em que lhe fazia
syrujço de b cruzados pera h?us chapys a que a Rainha nom mostrou mujto bom
semblante dizemdo que eram fraqos pera ela que hera muj pesada / na
See de h?a bamda e da outra estaua a cydade de Trohya que foy logo com
batyda e guerreada e aceza em fogos na quall representação se
detyueram mujto por ser muj gramde feyta pelos escolares que aly pydy
ram a Rainha a comfyrmação de seua pryujlegyos que tudo lhe logo foy
comçedydo e por ser jaa mujto tarde e elRei e Rainha jaa terem ouujdo
misa amte de sayrem de casa se deceram e foram ao altar mor beyjar
o leynho que lhe foy apresemtado polo Arcebyspo de Lysboa com gramde
solenjdade tudo em gramde aparato e pompa de gramdes riqezas
e se tornaram a caualgar e pola Padarya abayxo e por fora polla
Ribeira e tornaram aos paços jaa casy noyte.