Sumário
Dedicatória a Pedro III na História Crítica do Teatro (1779)
Ano
1779
Localização
Arquivo Osório Mateus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (OMGAR 2489p)
Impresso
Historia critica do theatro, na qual se tratão as causas da decadencia do seu verdadeiro gosto, traduzida em portuguez, para servir de continuação ao Theatro de Manoel de Figueiredo e offerecida a El-rei Nosso Senhor D. Pedro III, por Luiz Antonio de Araujo. – Lisboa, Regia Of. Typografica, 1779

História crítica do teatro, na qual se tratam as causas da decadência do seu verdadeiro gosto, traduzida em português, para servir de continuação ao Teatro de Manuel de Figueiredo e oferecida a el-rei nosso senhor, D. Pedro III, por Luís António de Araújo.

 

Lisboa, Régia Oficina Tipográfica, ano 1779.

Com licença da Real Mesa Censória

 


 

(...) Não há coisa mais digna de lamentar-se em qualquer nação do que vê-la mendigar das estranhas, já em Artes, já em Ciências. A respeito do Teatro tem sido bem infeliz o nosso continente; não se viam nele mais que umas poucas de traduções que em vez de emendarem os costumes da plebe, julgo, e não me engano, que mais viciosos os excitavam. Não se via nelas, ou representadas ou lidas, mais que uma série de expressões de que o amor profano se costuma servir; e isto, senhor, estava tanto

 


 

em uso que aparecendo um drama se podia dizer antes de lê-lo que nele veríamos os dois primeiros actores possuídos de um indecente amor, que nele veríamos a alta soberania de um rei vencida com a cega paixão de uma vassala, ou coisas de semelhante entidade. E tendo sido a Poesia tão recomendada desde a Antiguidade, a dramática posso dizer que se devia evitar, porque, devendo ser um verdadeiro ensaio dos mais puros costumes, nada para isso conduzia.

Esta foi a causa por que o teólogo Mr. Bossuet, bispo de Meaux, escrevendo ao padre Caffaro Theatino, julgando-o autor de um papel a favor do Teatro, que apareceu em 1694, o convence da obscenidade do mesmo

 


 

Teatro, trazendo-lhe à memória os grosseiros equívocos de que estão cheias todas as comédias de Molière, as falsas ternuras, máximas de amor, doces convites para gozar do agradável tempo da mocidade; lembra-lhe mesmo que o Cid de Corneille não representa mais que o querer que seja amada Ximene, que se adore com Rodrigo, que se trema dele quando teme perdê-lo e que se estime, quando espera possuí-la; e vem a concluir que se melhantes espectáculos, onde tudo é mole, tudo afeminado, devem ser separados da vista dos cristãos.

Parece-me estar ouvindo Mr. de Montesquieu a este respeito, dizendo que não há comédia em que se não vejam intrigas de

 


 

amantes indiscretos e temerários, terminadas pelo casamento, cujo fim tende a inspirar que para ser feliz na sua paixão é preciso expor-se a todo o acaso. E o costume de ver-se continuamente tratado no Teatro o amor profano tinha tão fortemente arrastado as paixões que aparecendo a Zaire de Voltaire não lhe olhavam os espectadores para alguns caracteres mal sustentados (que no corpo desta tradução se manifestam) mas diziam que se Zaire fosse meramente uma convertida teria interessado pouco; porém, como era uma amante da maior fidelidade do mundo isso lhe adquiria a maior atenção. Tal é a corrupção do género humano!

Mas, senhor, já nisto principiamos a levar vantagem aos dramáticos escritores; já temos poemas deste género que, ou lidos ou representados, nada inspiram que seja contra os bons costumes. A prova é clara. Apareceu Manuel de Figueiredo com o seu Teatro; apenas alguma pessoa que se tinha separado por meio de uma sábia crítica do domínio das paixões em que tinha sido criado o podia ler, e com gosto; os mais, como lhes não lisonjeia os vícios do amor, como não põem na boca dos cómicos senão expressões cheias da mais pura moral, como trata o amor conjugal com a maior decência, como faz ver um verdadeiro pai de famílias, não o podem ler. Ah! e de que prejuízos não enchem o público aqueles que só se

 


 

ocupam em lisonjear-lhes as suas paixões! Por isso vemos mais sujeitos inclinados a ler a história de Carlos, e Rosaura, que a de Vasco da Gama.

Não trago à memória a Hermíone do famoso Quita, a Castro, nas quais a moleza das paixões em nada faz abater o carácter sublime das personagens. A Assembleia, que foi representada na presença de Vossa Majestade, emendou um princípio de vícios tão introduzido nesta Corte, sem que nenhum dos espectadores o tomasse por si.

Esta é a utilidade que o meu patrono conheceu que a presente tradução necessariamente havia de causar aos nossos poetas que houverem de aplicar-se em composições dramáticas, ensinando-os

 


a mostrar no Teatro a honestidade dos costumes próprios de uma verdadeira e santa religião que Vossa Majestade com tanta eficácia zela, e por isso desejou que fosse o nome de Vossa Majestade quem o fizesse correr sem susto pelo meio de muitos adversários. Deus conserve a preciosa vida de Vossa Majestade por muitos e mui dilatados anos, para aumento dos seus vassalos.

14 de Janeiro de 1779.

Luís António de Araújo

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