Sumário
Colectânea Musa Jocosa de vários entremezes portugueses e castelhanos (1709)
Ano
1709
Localização
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (R-9-34)
Impresso
Lisboa, oficina de Miguel Manescal, 1709

Musa Jocosa de vários entremezes portugueses e castelhanos , oferecidos ao excelentíssimo senhor  D. José Miguel João de Portugal, primogénito do excelentíssimo senhor conde de Vimioso, etc.

E compostos por Nuno Nisceno Sutil.

 

 

Lisboa, na oficina de Miguel Manescal, impressor do Santo Ofício e da sereníssima Casa de Bragança.

Ano de 1709.

 

Com todas as licenças necessárias.

 

 


Dedicatória ao excelentíssimo senhor D. José Miguel João de Portugal, primogénito do excelentíssimo senhor conde de Vimioso, etc.

 

Tanto que começa a arraiar o Sol em o prólogo do dia, que na estação da Primavera se mostra risonho, alegre e engraçado, logo as aves com suaves harmonias, doces tonilhos e afinadas vozes, oferecem e dedicam a aquele grande planeta ou Apolo das musas a composição de sua música. Por ser proporcionada uma oferta jocosa a um príncipe, em o princípio da sua puerícia (que é a Primavera das idades), com quem se dão bem as flores, as músicas

 


 

e os divertimentos. À imitação das discretas aves (que são musas dos montes, se as outras do Parnaso) deve dedicar também esta musa as vozes de sua jocosa poesia a vossa senhoria, pois somente na aurora de sua idade e no Abril, ou Primavera, de seus tenros anos, será oferta de seu agrado, que, por ser de entretenimento o assunto, saberá lisonjear-lhe o gosto e inclinar-lhe a vontade para lhe conceder o generoso patrocínio, que pretende conseguir contra a caluniosa censura dos detractores, mas desta ficará agora seguro este limitado livro que ponho aos pés de vossa senhoria, para que, sendo com o seu ilustre e respectivo nome intitulado, logre o privilégio dos que saem bem aceitos. A pessoa de vossa senhoria guarde Deus em o progresso de dilatados anos, para grandes felicidades, como lhe desejam os seus afectuosos e obrigados, dos quais eu sou um particularmente.

 

De vossa senhoria,

Muito humilde criado,

António Manescal

 


Ao leitor

 

Para entretenimento da inútil ociosidade, para alívio do molesto trabalho e para divertimento de penosos cuidados, servem as poesias jocosas e alegres e os donaires graciosos e burlescos, porque todos desterram a tristeza, que é Lima surda da vida. Por esta causa (amigo leitor) se aplicou a minha curiosidade (por ser inclinada à lição da poesia) a compor vários entremezes na Língua Portuguesa, não tanto para com eles se divertir das fatigas de contínuas ocupações, como também para lisonjear o gosto de algumas pessoas de respeito e de obrigação, que os pediram para alguns festins particulares e ocasiões de recreação. Porém, depois, à instância de alguns

 


amigos de bom humor se formou este resumo para se dar à impressão, por ver que havendo um só livrinho intitulado Musa Entretenida, este se tinha impresso segunda vez pela falta que havia de entremezes portugueses. Deste te faço agora oferta (ò leitor), se bem com grande desconfiança de te não agradar; e não imagino que, como mordaz Zoilo, censures os meus erros, porque se estes são dignos de me castigares com rigorosos golpes da tua língua, eu a puras cutiladas me farei capaz; e se também por serem ignorâncias, merecem repreensão, é certo que se não forem nescidades não poderão ser ridículas para o entretenimento que nesta obra te inculco, prometendo-te, se ficares gostoso, continuar em outros resumos este meu obséquio; e depois com outras matérias mais sérias, porque: «Prius exerceri cupio in parvo opere, et veluti quædam rubiginem Linguæ abstere, ut venire possim ad altiorem Historiam».

Vale.

 


Licenças do Santo Ofício

 

O padre mestre frei Inácio de Santa Maria, qualificador do Santo Ofício, veja a Musa Jocosa de que trata esta petição e informe com seu parecer. Lisboa, 8 de Fevereiro de 1709.

 

Carneiro     Hasse     Monteiro     Ribeiro

Rocha          Fr. Encarnação          Barreto

 

O padre mestre frei Pedro Monteiro, qualificador do Santo Ofício, veja a Musa Jocosa de que trata esta petição e informe com seu parecer. Lisboa, 15 de Fevereiro de 1709.

 

Moniz     Hasse    Ribeiro    Rocha

Fr. Encarnação    Barreto

 

 


Ilustríssimo senhor,

 

 Vi o livro intitulado Musa Jocosa e a censura que sobre ele fez o padre mestre Fr. Inácio de Santa Maria e sou do mesmo parecer do douto qualificador, que juntamente o censura, no que lhe nota, pelas mesmas razões, que a leia. São Domingos de Lisboa, 12 de Março de 1709.

Fr. Pedro Monteiro

 

Pode-se imprimir o livro intitulado Musa Jocosa, de que trata esta petição, menos o Entremez de Dom Faceira, e impresso tornará para se conferir e dar licença que corra, e sem ela não correrá. Lisboa, 8 de Abril de 1709.

 

Moniz    Hasse    Monteiro    Ribeiro    Rocha

Fr. Encarnação    Barreto

 

Vista a licença do Santo Ofício, pode-se imprimir o livro Musa Jocosa, excepto o Entremez de Dom Faceira, e depois


de impresso, torne para se dar licença para correr, e sem isso não correrá. Lisboa, 6 de Junho de 1709.

Bispo de Tagaste

 

Licenças do Paço

 

Que se possa imprimir, vistas as licenças do Santo Ofício, e depois de impresso tornará à Mesa para se taxar e conferir, e sem isso não correrá. Lisboa, 19 de Junho de 1709.

 

Duque P. Lacerda    Carneiro    Costa

Andrade    Botelho    Oliveira

 

 


Index dos entremezes deste livro

 

1 Loa do Silêncio

2 Entremez do sant' entrudo

3 Entremez O que perde o mês não perde o ano

4 Entremez Da vossa farinha que nanja da minha

5 Entremez das regateiras

6 Entremez Muita bulha e tudo nada

7 Entremez dos peixes

8 Entremez das fogueiras de São João

9 Entremez do estudante ferrolhado

10 Entremez de los criados

11 Entremez del soldado auxiliar

12 Entremez de don Quixote

 


Ao autor por um seu amigo

Décima 

 

Mostrais como quasi infusa

muita graça e discrição

nesta primeira lição

que nos dais hoje de Musa.

Este livro não se escusa

por ter matéria jocosa,

contra a tristeza enfadosa

e contra o ócio importuno,

que escrevestes sutil Nuno

em canora e doce prosa.

 
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