- Sumário
- Carta de Sebastião José de Carvalho e Melo para António Freire de Andrade Encerrabodes sobre as condições de contratação do cantor Gizziello e sobre a contratação do músico António Racca (19 de Setembro de 1751)
- Ano
- 1751
- Biblioteca/Arquivo
- Biblioteca da Ajuda
- Cota
- Pasta 51 - XIII-24, nº 71
- Comentário
- Segundo Manuel Carlos de Brito, o músico referido como Antonio Racca trata-se do tenor alemão Anton Raaff
- Menções
Manuel Carlos de Brito, Estudos de História da Música em Portugal, Lisboa, Estampa, 1989, pp.132-133
Recebi a carta de Vossa Senhoria em data de 12 de Agosto, com as duas que a acompanhavam, e com as condições que em uma delas incluiu o Beneficiado Bruno de Almeida, assim como lhe foram propostas pelo músico Gizziello.
Elas certamente são em si tão exorbitantes como Vossa Senhoria as qualifica. Não o parecendo porém à grandeza de ânimo de el rei nosso senhor, aprovou logo que Bruno de Almeida as admitisse, e que Vossa Senhoria o sustentasse na aceitação que delas for em quanto à substância; porque também aqui pareceu que as ditas condições foram propostas como impossíveis de aceitar no juízo de quem as propõe, e que seria o mesmo duvidar delas do que romper a negociação.
Nesta certeza é necessário que Bruno de Almeida continue em seguir o referido músico, de sorte que o não perca de vista: porque assim evitará que ele seja distraído do ajuste, e terá ocasiões oportunas de fazer mais conforme à razão as ditas condições enquanto
ao modo a respeito dos pontos que vou indicar a Vossa Senhoria.
Quanto à primeira condição, de que o dito músico não será obrigado a residir nesta corte mais de um ano, não se duvida dela, e assim se lhe pode acordar, contanto que suavemente se acautele no acordo que se fizer, que este não deixe lugar a que o sobredito músico se retire antes do ano ser acabado, sem legítima causa, debaixo do pretexto de alguma das interpretações de que são susceptíveis as palavras: Come pure che venendomi cagionato qualque detrimento à la mia salute dal clima ó altro, mi sia permezzo dalla generosita di S. M. il ritorno sudetto.
Quanto à segunda condição, de não sair o sobredito músico de Itália senão no mês de Abril próximo futuro, se procurará obter o seu consentimento para o fazer desobrigar do contrato que fez com a Ópera de Milão. E para o caso em que ele convenha nisso irá carta dirigida ao marquês Palavicini, a qual contudo se lhe não entregará senão nos termos hábeis em que se veja que não é impraticável que ele obrigue a nobreza da dita capital
a ceder do contrato que tem estipulado.
Quanto à terceira condição, da cota de dinheiro que pede pelo ano de serviço, não há dúvida em se lhe conceder.
Quanto à quarta, de que se lhe devem dar casas, não há dúvida.
Também a não há no que pertence à carruagem. Porém pelo que respeita à mesa, ainda que se lhe dará também se ele insistir, será muito melhor compor-se Bruno de Almeida a dinheiro, ponderando ao dito músico: que assim comerá às horas a que está acostumado, e guisado ao seu modo, que pode ser que em Lisboa se não acerte; persuadindo-lhe ao mesmo tempo, que para se segurar a este respeito em Lisboa, e para sua maior comodidade no caminho, pode trazer quem o sirva na cozinha à sua inteira satisfação, e que além do partido se lhe abonará de mais tanto por mês para provimento da mesma cozinha. Quanto à última condição, de que a jornada à vinda e à volta será feita por terra à custa de Sua Majestade, também não há dificuldade. E Bruno de Almeida pode fazer
esta despesa vindo na companhia de Gizziello com o francês que o segue, e com as mais pessoas da sua comitiva, para o que se lhe mandará assistir com o necessário. E como ele passa a Milão ali se lhe escreverá também neste mesmo sentido.
Na cidade de Bolonha se acha um músico por nome Antonio Racca, o qual Vossa Senhoria pode mandar ajustar para o serviço desta corte, e dirigi-lo a ela, no caso em que se ajuste por preço proporcionado, porque não é de tal ordem que mereça especialidade. O que dizem os que o conhecem é que se lhe poderão conceder até trezentos mil réis de ordenado por ano.
Suas Majestades gozam da perfeita saúde de que havemos mister, e as mais pessoas reais se conservam na mesma feliz disposição.
Deus guarde a Vossa mercê. Lisboa, em 19 de Setembro de 1751.
Sebastião José de Carvalho e Melo.
Senhor António Freire de Andrade Encerrabodes.
Recebi a Carta de V. S.ª em data de 12
de Agosto com as duas, que a acompanhavam, e com as con=
dições, que em huma dellas incluhio o Beneficiado Bru-
no de Almeida, assim como lhe foram propostas
pelo Muzico Gizziello.
Elas certamente são em si tão exorbitantes como
V. S.ª as qualifica. Não o parecendo porem â grandeza
de animo de El Rey Nosso Senhor, aprovou logo
que Bruno de Almeida as admitisse, e que V. S.ª
o sustentasse na aceitação que dellas for em quanto
á substancia; porque tambem aqui pareceo,
que as ditas condiçoes foram propostas como im
possiveis de acceitar no juizo de quem as propõz,
e que seria o mesmo duvidar dellas do que rom
per a negociação.
Nesta certeza he necessario, que Bruno
de Almeida continue em seguir o referido
Muzico; de sorte que o não perca de vista: por=
que assim evitarà que elle seja distrahido do
ajuste, e terá occaziões oportunas de fazer mais
conforme à razão as ditas condições emquanto
ao modo a respeito dos pontos, que vou indicar a V. S.ª.
Quanto à primeira condição de que o dito
Muzico não serâ obrigado a rezidir nesta corte
mais de hum anno, não se duvida della, e assim
se lhe pode acordar, comtanto que suavemente
se acautele no accordo, que se fizer, que este não
deixe lugar, a que o sobredito Muzico se retire an=
tes do anno ser acabado sem legitima cauza, de
baixo do pretexto de alguma das interpretações de
que são susceptiveis as palavras:
Come pure che venendomi cagionato qualque
detrimento à la mia salute dal clima ó altro,
mi sia permesso dalla generosita di S. M. il
retorno sudetto.
Quanto â segunda condição de não sa
hir o sobredito Muzico de Italia senão no mez
de Abril proximo futuro, se procurarâ obter
o seu consentimento para o fazer desobrigar
do contrato que fez com a Opera de Millão.
E para o cazo em que elle convenha nisso hi
râ carta dirigida ao Marquez Palavicini, a
qual comtudo se lhe não entregarâ senão nos termos
habeis em que se veja que não he impraticavel,
que elle obrigue a Nobreza da dita capi
capital a ceder do contrato que tem estipulado.
Quanto â Terceira condição da quota
de dinheiro que pede pelo anno de serviço,
não hã duvida em se lhe conceder.
Quanto â quarta de que se lhe devem
dar cazas, não hâ duvida. Tambem a não hâ
no que pertence â carruagem. Porem pelo que
respeita à meza ainda q se lhe darâ tambem
se elle insistir, serâ muito milhor comporse
Bruno de Almeida a dinheiro, ponderando
ao dito Muzico: que assim comerâ âs horas
a que esta acostumado, e guizado ao seu mo-
do, que pode ser que em Lisboa se não
acerte; persuadindolhe ao mesmo tempo,
que para se segurar a este respeito em Lisboa,
e para sua maior commodidade no cami=
nho, pode trazer quem o sirva na cozinha à
sua inteira satisfação, e que alem do partido
se lhe abonarâ de mais tanto por mez para
provimento da mesma cozinha.
Quanto â iltima condição de que
a jornada â vinda, e â volta será feita por terra
â custa de S. Mag.e tambem não hâ dificul
dade. E Bruno de Almeida pode fazer
esta despeza vindo na companhia de Gizziello
com o Frances, que o segue, e com as mais
pessoas da sua comitiva, para o que se lhe
mandarâ assistir com o necessario. E como
ele passa a Millão alli se lhe escreverâ tambem
neste mesmo sentido.
Na cidade de Bolonha se acha
hum Muzico por nome Antonio Racca, o qual
V. S.ª pode mandar ajustar para o serviço des-
ta corte, e dirigillo a ella, no cazo em que se
ajuste por preço proporcionado, porque não he
de tal ordem, que mereça especialidade. O que
dizem os que o conhecem he que se lhe poderão
conceder até trezentos mil reis de ordenado
por anno.
Suas Mag.es gozam da perfeita sa
ude que havemos mister, e as mais Pessoas
Reaes se conservão na mesma feliz disposição.
Deos g.e a V.M.ce Lisboa em 19 de Setembro
de 1751
Sebastião Joseph de Carvalho e Mello
S.r Antonio Freire
de Andrade Enserrabodes