- Sumário
- Carta de Sebastião de Carvalho e Melo a António Encerrabodes sobre a contratação do cantor Joaquim Conti (Gizziello) (14 de Dezembro de 1751)
- Ano
- 1751
- Biblioteca/Arquivo
- Biblioteca da Ajuda
- Cota
- Pasta 51 - XIII-24, nº 73
- Menções
- Manuel Carlos de Brito, Estudos de História da Música em Portugal, Lisboa, Estampa, 1989, pp. 134-135
Recebi as duas cartas que Vossa Senhoria me dirigiu nas datas de 11 e 22 de Novembro, próximo passado, as quais ambas foram presentes a Sua Majestade com as do Beneficiado Bruno de Almeida, e do cantor Joaquim Conti, que nela vinham inclusas.
Sobre o seu conteúdo devo responder a Vossa Senhoria que Sua Majestade ordena que o dito cantor parta para esta corte com a maior brevidade que couber no possível, sem que perca um dia de tempo desde que ele se desembaraçar do ajuste de que não pode, ou não quis resilir. Que a sua jornada se deve fazer pelo caminho mais breve, evitando as cortes onde faria dilação inexcusável com a consequência de ser nelas ouvido primeiro do que nesta. Que estes inconvenientes cessarão seguindo Bruno de Almeida o roteiro que ajuntarei a esta carta. Que, porém, deve o mesmo Bruno de Almeida guardar em inviolável segredo estas causas ocultas até o tempo em que se puser em caminho. Que ainda nesse tempo para passar
de Génova a Antibo tomará o pretexto de seguir a costa do mar, por temer pela outra parte o maior frio das montanhas de terra. Que com o mesmo pretexto passará de Antibo a Barcelona sem declarar outra causa senão a de serem os Pirinéus por aquela parte mais suáveis em quanto ao clima, e em quanto à aspereza do caminho, e tão breves
que se passam em três ou quatro horas. Que em Barcelona pode tomar o novo e verdadeiro pretexto da aspereza das serras, do rigor do frio, e da soledade do Reino de Aragão, e das montanhas dele, e de Castela a nova para continuar o seu caminho pela maior vizinhança do mar até Sevilha, dizendo também com verdade que por aqueles Reinos marítimos verá o dito cantor o Paraízo de Espanha, e que pela outra banda passaria muitos e muitos dias sem ver mais do que montanhas de pedras, e casais de pobres seareiros de muitas em muitas léguas, e sem haver estalagens, nem cousa alguma de que é necessário para a vida humana, etc.
A despesa da referida jornada já se sabe que há de correr em tudo, e por tudo pelo dito Bruno de Almeida. Ao qual Vossa Senhoria fará dar letras de Roma até Génova, e de Génova até Barcelona, onde se terão prevenidas outras Letras para a passagem daquela Cidade a esta Corte.
Aos procuradores da causa matrimonial da filha de D. Lourenço de Almada se participará o que Vossa Senhoria informa a respeito deste negócio.
O coronel Francisco Marques chegou com os despachos que Vossa Senhoria lhe confiou.
Não cabe, porém, no tempo fazer-se agora a Vossa Senhoria sobre eles resposta, que se lhe dará em outra ocasião. Deus guarde a Vossa Senhoria. Lisboa, a 14 de Dezembro de 1751.
Sebastião José de Carvalho e Mello
Senhor António Freire de Andrade Encerrabodes
Recebi as duas cartas q V. S.ª me dirigio nas
datas de 11, e 22 de Novembro proximo passado, as quaes am=
bas foram prezentes a S. Mag.e com as do Ben.do Bruno de
Almeida, e do cantor Joaquim Conty q nella vinham inclu=
zas.
Sobre o seo conteúdo devo responder a V. S.ª que
S. Mag.e ordena q o d.º Cantor parta para esta corte com
a mayor brevidade, q couber no possível, sem qse perca hum
dia de tempo desde q elle se dezembaraçar do ajuste de que
não pode, ou não quiz resillir: Que a sua jornada se
deve fazer pelo caminho mais breve, evitando as cortes
onde faria dillação inexcuzavel com a consequência
de ser nellas ouvido primeiro do q nesta: Que estes in=
convenientes cessarão seguindo Bruno de Almeida o
Roteiro q ajuntarei a esta Carta: Que porem deve
o mesmo Bruno de Almeida guardar em inviolavel
segredo estas cauzas occultas atê o tempo em q se pu=
zer em caminho: Que ainda nesse tempo para passar
de Genova a Antibo tomará o pretexto de seguir a
costa do Mar por temer pela outra parte o ma=
yor frio das montanhas de Terra: Que com o mesmo
pretexto passará de Antibo a Barcelona sem de=
clarar outra cauza senão a de serem os Perineos por
aquella parte mais suaveis emquanto ao clima,
e emquanto a aspereza do caminho, e tão breves que
que se passam em tres, ou quatro hóras: Que em Bar=
celona pode tomar o novo, e verdadeiro pretexto da aspe=
reza das serras, do rigor do frio, e da soledade do Reino
de Aragão, e das montanhas delle, e de Castella a nova
para continuar o seo caminho pela mayor vizinhan-
ça do Mar atê Sevilha, dizendo tambem com ver=
dade q por aquelles Reinos maritimos verá o dito
Cantor o Paraizo de Hespanha, e q pela outra banda
passaria muitos, e m.tos dias sem ver mais do q montanhas
de pedras, e cazaes de pobres siareiros de muitas em
muitas leguas, e sem haver estalagens, nem couza
alguma de q he necessario para a vida humana
&ª.
A despeza da referida jornada já se sabe
q há de correr em tudo, e por tudo pelo d.º Bruno
de Almeida. Ao qual V.S.ª fará dar letras de
Roma atê Genova, e de Genova atê Barcelona,
onde se terão prevenidas outras Letras para a passa-
gem daquella Cidade a esta Corte.
Aos Procuradores da cauza matrimo=
nial da Filha de D. Lourenço de Almada se par-
ticipará o q V. S.ª informa a respeito deste ne-
gocio.
O Cor.l Fran.co Marquez che=
gou com os Despachos que V. S.ª lha confiou. Não
Não cabe porem no tempo fazer-se agora
a V. S.ª sobre elles resposta, q se lhe dará em outra
occazião.
Deos g.e a V. S.ª Lisboa a 14 de
Dezembro de 1751
Sebastião Jozeph de Carvalho e Mello
S.r Antonio Fr.e de
And.e Enserrabodes