Sumário
Carta de Manuel Rodrigues Delgado para Tomé de Sousa, descrevendo as festas da cidade de Braga: procissão com figuras a pé e a cavalo, um passo da escritura, uma tourada, canas, uma comédia e um entremez (Junho)
Ano
s.a.
Biblioteca/Arquivo
Biblioteca da Ajuda
Cota
54 - IX-21, nº 70

Meu senhor Tomé de Sousa
Chegando a esta cidade de Braga, que foi em 28 de Maio, me deram uma carta de Vossa Senhoria escrita em 17 de Abril, nela teve muito que agradecer a si a minha fortuna, porque na honra que Vossa Senhoria me faz, se lisonjeia muito o meu afecto, principalmente com a notícia de tão boa nova como a de possuir Vossa Senhora e minha senhora Dona Madalena boa saúde. Deus que só pode a estenda a Vossas Senhorias os anos de seu desejo e a todas essas minhas senhoras a que a minha vontade deseja ver tão sublimadas, quão merecedoras são a suas prendas e o seu nascimento.
Sempre esperei ver a Vossa Senhoria nestas festas e neste palácio, pelo muito gosto que Sua Ilustríssima tinha, e pelo que prometiam no quartel, cujo sucesso




foi muito pelo contrário ao prometido de que não pode resultar a Vossa Senhoria nenhum arrependimento. Concorreu tanta gente e tão luzida de todas as províncias, e até de Lisboa, que não havia quem se revolvesse em Palácio com visitas e pelas ruas com o concurso. O general trouxe mais de cem pessoas, todos cabos de guerra e todos caprichosos com muita plumage, trouxe a condessa e seus filhos; veio também seu irmão, o D. Prior de Guimarães; os fidalgos viram até aqui as festas da janela de Sua Ilustríssima, a soldadesca toda do palanque que o mesmo senhor tinha mandado fazer, em que se acomodava quase quinhentas pessoas. A condessa viu de outra parte com outras senhoras, o marquês de Monte Belo e seu filho do palanque dos cónegos; as festas ainda continuam; procissão




que tanto me gabava não me admirou. Levava um passo da escritura com muitas figuras de cavalo, a pé, bem adornadas, as danças bem vestidas e vistosas; porém, os carros cousa muito pobre para tão grande função, porque eram guarnecidos de papel pintado; no quarto dia, que foi a segunda feira, houve touros; saiu um cavaleiro a quem chamam Alexandre de Paiva, homem honrado, mas mal sucedido, porque, entrando no terreiro, encontrou logo antes de fazer as cortesias com um touro que o investiu, e não mandando o cavalo o descompôs, perdendo as estribeiras e, sem cair nem haver ocasião para se apear,o fez sem propósito, e foi ao touro de cara a cara com a espada, dando-lhe uma cutilada, o touro lhe deu hum boléu; acudiram alguns pataratas, mas devagar, porque primeiro saiu um criado de Sua Ilustríssima e todos levaram boléus e não houve quem pegasse no touro.

 


  

Finalmente o mataram, ele veio fazer as cortesias com a metade da capa, que a outra levou-lha o touro, e esta lhe caiu na mesma função, e acabadas se retirou e não apareceu mais, dizendo não estava capaz; não tendo cousa de consideração e acabou-se a função sem cavaleiro. No segundo dia, que foi terça-feira, saiu Jerónimo Barreto todo ornado e bem montado, fez as cortesias deu algumas voltas, buscando alguns touros que o não investiram até que um deu um boléu em um seu criado, foi-se ao toiro, e em vez de lhe dar a cutilada, a deu no cavalo e podendo ir nele atrás do touro se apeou, fazendo segunda paavoíce. Finalmente, nas duas tardes se não empregou garrochão algum; isto não é para eles façam as suas danças e as mais festas deixem-nas para a Corte. Ontem houve umas escaramuças com 7 parelhas muito luzidas nas galas e nos criados, porém pouco airosas. Hoje 5ª feira

de manhã ouve canas com os mesmo cavaleiros, não foram tão grandes como se publicava, porque nelas houveram alguns defeitos; sairam depois delas uns moços da Barca, Ponte de Lima, Viana, Barcelos e d'Amarante enmascarados para cujo disfarce pediram licença a Sua Ilustríssima por se acharem sem criados, nem tanto luzimento, mas com bons cavalos, fizeram admiravelmente e com vantagem aos de Braga; na mesma tarde houve uma comédia muito bem feita e muito vistosa, que foi o maior alegrão que até aqui ouve, mas para que em tudo tivesse defeito, fizeram um entremez que desmentiu tudo quanto tinham

feito, não proseguindo-se as festas por diante, de que darei conta a Vossa Senhoria;  o papel não me permite mais. Mil memórias; repita a minha saudade ao senhor Rodrigo de Sousa e a Vossa Senhoria pede a Deus que o gurade,
Braga, 5 de Junho, Capela de Vossa Senhoria,

o padre Manuel Rodrigues Delgado

 

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Meu s.or Thome de Souza, che

gando a esta Cidade de Braga

q’ foi em 28 de Majo, me de

ráo húa carta de V. S.ª escripta em

17 de Abril, nella teve m.to q’ agra

decer a sy a minha fortuna, porq’ 

na honra q’ V. S.ª me faz se Lezon

jea m.to o meu affecto, principalm.te

com a noticia de tam boa nova como

a de posuir V. S.ª e minha S.ra D. Ma

dalegna boa saúde. D.s q’ só pode

a extenda a V. S.as os annos de seu

dez.º e a todas essas minhas S.ras a que

a minha vontade dezeia ver tam sub

limadas, quam merecedoras são as

suas prendas e o seu nascim.to.

            Sempre esperei ver a V.ª S

nestas festas, e neste palácio pello

m.to gosto q’ S. Ill.ma tinha, e pello q’

prometião no quartel, cujo suceso

 


 

 

Foy m.to pello contrario ao prometido

de q’ não pode resultar a V. S.ª nenhú

arrependim.to. Concorreo tanta gente

e tam luzida de todas as províncias

e athe de Lx.ª q’ não havia quem

se revolvese em Palácio con vezi

tas e pelas ruas com o concurso,

o General trouxe mais de cem

pessoas todos cabos de guerra e

todos caprichozos com m.ta pluma

ge trouxe a Condeça e seos filhos

vejo també seu irmão o D. Prior

de Guimarais, os fidalgos virão

athe aqui as festas da janela de

S. Ill.ma  a soldadesca toda do pa

lanque q o mesmo S.or tinha mandad

do fazer em q se acomodava quasi

quinhentas pessoas; a Condeça vio de

outra p.te com outras senhoras o mar

ques de Monte Bello, e seu filho

do palanque dos cónegos; as fés

tas ainda continuão; procição


 


 
q’ tanto me gabava não me admirou

Lev.va hum passo da escriptura com

m.tas figuras de cavalo a pee bem

adornadas as danças bem vestidas e vis

tozas, pore’ os carros couza m.to pobre,

p.ª tão grande função, porq’ erão guar

necidos de papel pintado; no q.to dia

q’ foi a segunda feira ouve touros

sahio hum cavaleiro a q’ chamão Ale

xandre de Paiva homé honrado, mas

mal sucedido porq’ entrando no terrei

ro, encontrou logo antes de fazer as

cortezias com hum touro q’ o invistio,

e não mandando o cavalo o descompos

perdendo as estribeiras, e sem cahir,

ne’ haver ocazião pª se apear, o fez

sem, propozito, e foi ao touro de cara

a cara com a espada, dando lhe húa co

tilada o touro lhe deu hum boleo

acudirão alguns pataratas mas deva

gar porq’ p.ro sahiu hum criado de S.

Ill.ma e todos levarão boleos e não

ouve quem pegase no touro.


 

 finalm.te o matarão, elle veio fazer

as cortezias com a metade da capa

q’ a outra levou lha o touro, e esta

lhe cahiu na mesma função e acaba

das se retirou e não apareceo mais

dizendo não estava capaz; não X

couza de concideração e acabouse a

função sem cavaleiro. No seg.do dia

q’ foi terça feira sahiu Heronimo

Barreto todo ornado e bem montado

fez as cortezias deu algumas voltas

buscando alguns touros q’ o não in

vestirão athe q’ hum deu hú boleo en

hú seu criado, foise ao toiro, e em vez

de lhe dar a cutilada a deu no cavalo

e podendo hir nelle atrás do touro se

apeou fazendo seg.da pravoice final

m.te nas duas tardes se não empregou

garrochão algum; isto não he p.a elles

fação as suas danças e as mais festas

deixe'nas p.ª a Corte. Honte' ouve

humas escramusas com 7 parellas

m.to luzidas nas galas e nos criados

por' pouco airosas. Hoie 5ª feira

 

 
de manhã ouve canas com os mesmo cavaleiros, não forão tam grandes

como se publicava, porq’ nellas ouverão alguns defeitos; sahirão despois

dellas húns mossos da Barca, Ponte de Lima,. Viana, Barcelos e da

marante enmascarados p.ª cujo disfarce pedirão licença a S. Ill.ma por se

achare’ sem criados, né tanto luzim.to mas com bons cavalos, fizerão admi

ravel.te e com vantagé aos de Braga; na mesma tarde ouve húa comedia

m.to bem feita e m.to vistoza, q’ foi o major alegrão q’ athe aqui ouve mas

p.ª q’ em tudo tivesse defeito, fizerão hum entremez q’ dismentio tudo q.to tinhão

feito, não proseguindose as festas por diante, de q’ darei conta a V. S.ª o papel

não me permite mais. mil memorias repita a minha saudade ao S.or

 

………….

 

Rodrigo de Souza e a V. S.ª pede a D.s q’ o G.de Braga, 5 de

Junho.

Capella de V. S.ª

O P.e M.el Roiz delgado