- Sumário
- Carta de Carl Israel Ruders sobre o estado do Teatro em Portugal com a descrição do Teatro de S. Carlos e alguns espectáculos (29 Março de 1800)
- Ano
- 1800
- Comentário
- Tradução de Portugisisk Resa, beskrifven i bref till vänner, 3 vols., Stockholm, 1805-1809, publicada pela primeira vez no Diário de Notícias de 1908
- Impresso
- Carl Israel Ruders, Viagem em Portugal, 1798-1802, trad. de António Feijó, pref. e notas de Castelo Branco Chaves, Lisboa, Biblioteca Nacional («Série Portugal e os Estrangeiros»), 1981, pp. 87-100
29 de Março de 1800
Vou ver, enfim, se consigo desobrigar-me do compromisso que tomei, ao deixar a Suécia, de lhe enviar descrições pormenorizadas dos espectáculos públicos em Lisboa.
Não pude mais cedo desobrigar-me desse dever, em parte porque até hoje me ocupei de preferência com outros assuntos, em parte porque me era preciso primeiro frequentar os espectáculos com assiduidade e durante muito tempo, para poder formar uma noção exacta dos merecimentos e defeitos do teatro português contemporâneo. Além disto, a ideia da falta de segurança pública nas ruas, que, pelas exageradas histórias populares, se nos afigura maior do que na verdade é, reteve-me muitas noites em casa durante o último ano.Hoje, que essa impressão, pelo hábito e pelo exemplo, pouco a pouco se dissipou, e que os espectáculos, desde que Sua Alteza Real assumiu o governo, começam a ser mais interessantes do que no tempo da rainha, não deixarei de enviar, de tempos a tempos, as minhas observações sobre um ramo tão importante da história das Belas-Artes em Portugal.
Actualmente existem aqui três casas de espectáculos, mas só duas estão abertas e a funcionar. O Teatro Italiano, que é o mais qualificado, tem o título de Real, mas nem por isso goza do subsídio do Regente. O camarote real está quase sempre cerrado.O príncipe, desde que eu estou em Lisboa, não assistiu a mais de dois espectáculos. A justa queixa que se fazia no tempo da rainha que os espectáculos, pela exclusão das mulheres, perdiam uma grande parte do seu brilho, foi em certo modo atendida.
Três actrizes, umas após outras, obtiveram licença de Sua Alteza Real para se exibirem no Teatro Italiano, o que, visivelmente, contribuiu para a fortuna dele.Esta casa de espectáculos está situada sobre uma colina, na parte da cidade ultimamente reedificada.
O edifício foi construído em 1793 para comemorar o feliz nascimento da princesa D. Maria Teresa, filha em primeiro parto da Princesa do Brasil.O negociante e cavaleiro Quintela, recentemente nobilitado, que do seu bolso contribuiu para as despesas de uma boa parte do edifício, tem a propriedade de dois camarotes na mesma ordem da tribuna real, com uma sala pela parte de trás, quarto para descansar e vestíbulo.
No frontespício do teatro lê-se a seguinte inscrição em estilo lapidar:Carlotae
Brasiliae Principi
Quod Felicem Statum Reip
Regia Prole Confirmarit,
Theat. Auspicato. Exstr.
Auct Dio Ign. Pin. Maniq. P. P.
Olisiponenses Cives
Solic. Amore. Et. Longa. Fide.
Erga Domum Aug. Probati
In Mon. Publicae Laetitiae
C
Anno MDCCXCIII
Na fachada principal, que dá para uma praça, o teatro tem um largo pórtico através do qual desfilam as carruagens. É uma ideia feliz, pois evita às damas, em dias de chuva, molharem-se ao subir ou apear das suas equipagens. O teatro propriamente dito é de tamanho considerável. No fundo, oposto à cena, fica a tribuna real, que se ergue até ao tecto e, por baixo dela, a entrada para a plateia. Esta é tão espaçosa que, com a parte denominada Plateia dos Nobres pode conter 800 espectadores, sentados muito à vontade. Os bancos são todos de encosto e, os da plateia dos nobres, almofadados. De toda a parte se vê e ouve muito bem. Na plateia há três coxias paralelas entre os bancos, ficando assim a sala dividida em quatro separações, o que permite entar e sair sem apertos, e, apenas saídas as portas, que são suficientemente largas, encontra-se a gente logo em amplos e bem iluminados corredores. Os camarotes, em número de 122, compreendem cinco ordens de 24 camarotes cada uma, excepto a última, que tem 26.São adornados exteriormente com belos arabescos e candelabros de cristal, colocados de maneira que o brilho da luz não tira a vistaaos espectadores.Um grande lustre suspende-se nos entreactos sobre a plateia, e quatro outros à boca de cena.
No tecto vê-se um grande relógio, com um enorme mostrador cercado de luzes.Os panos de boca, tanto o exterior como o interior, representam assuntos mitológicos. São bem pintados. O interior só se desce nos intervalos, e indica ao público que a representação ainda não acabou. O fim do espectáculo é anunciado pela queda do pano exterior.
A orquestra é grande e sempre afinada. Toca, como proverbialmente se diz, com uma só corda. O senhor Romi, primeiro violino, é o regente.Tudo corre na mais perfeita ordem.
Nesta orquestra não se vêem mãos desocupadas, e não se ouve nunca o menor grito nem disputa.Ninguém se levanta durante a representação, tirando a vista aos espectadores; e ninguém se assenta na caixa das rabecas, nem em outros sítios impróprios. O timbaleiro e os quatro contrabaixos estão colocados de forma que não ocultam quase nada a cena.Os lugares mais próximos da orquestra, assim como os de toda a plateia, são os mais cómodos para os espectadores.
Nesses dois recintos não são admitidas senhoras. Por este motivo, entre fidalgos e gente rica, quem quer ir com a família ao teatro tem de levá-la para um camarote de primeira ou segunda ordem.Esta última é considerada a mais distinta por ficar au niveau da tribuna real. Apesar disso, é a plateia, especialmente a dos nobres, quem dá o tom; e, apesar de se verem nela, de tempos a tempos,muitos espectadores incompetentes,é lá que,de ordinário, tomam assento os mais abalizados entendedores, assim como os viajantes recém-chegados. Como o Príncipe não dá subsídio aos artistas e a situação deles depende, exclusivamente, do público, os senhores empresários, actores, dançarinos etc., têm o maior interesse em conquistar e conservar as suas boas graças.
Esta circunstância é, sem dúvida, o motivo principal de se darem aqui excelentes e até, não raro, brilhantíssimos espectáculos. Faz correr tudo às maravilhas e até dá forças aos artistas para se exibirem com frequência em papéis difíceis, muito longos e variados. Tenho para mim como ponto assente que, se o Príncipe neste país acorresse a todas as despesas, pagando aos artistas ordenados e recebendo as receitas por sua própria conta, o público não teria espectáculos melhores.Para prova disto, basta lembrar-me da maneira com as coisas se passam em tais circunstâncias: talentos medianos, compelidos por um ou outro motivo a desempenhar os primeiros papéis; artistas sem qualidades que os elevem acima do vulgar, declarando-se indispostos a cada passo e com necessidade de descanso; alguns deles apresentando-se em cena porcamente vestidos ou pessimamente calçados; e outros de idade provecta exibindo-se ainda em público, com pretensões, sem dúvida, a serem por nós aplaudidos, como o foram já por nossos pais na sua longínqua mocidade.
Sem subsídios oficiais, os interessados têm aqui de se guiar, querna escolha do pessoal,quer nos aprestos paraas representações, pelo gosto do público, sem o concurso do qual não podem viver. Por este motivo, tanto o teatro italiano como o nacional tiveram de lutar, nos últimos tempos, com grandes obstáculos. O principal era a ordem da Rainha proibindo as mulheres de se exibirem em cena; havia, é certo, castrados que, em papéis de mulher, chegaram a causar a ilusão, mas o maior número deles eram criaturas repugnantes, principalmente quando vestidas com trajos femininos. O pior de tudo, porém, e o mais odioso, era quando nos bailados apareciam latagões barbudos representando alguma das deusas do Olimpo, ou quando o caso o exigia, qualquer mortal beleza nua. Digam o que quiserem, mas para um actor é indispensável uma figura agradável e adequada aos papéis que representa. Não há talento, por maior que seja, que possa compensar a sua falta. Se não fosse a numerosa população da cidade, o gosto nacional pelos espectáculos, o talento incomparável de certos artistas, e a boa administração das receitas (apesar do luxo das ornamentações e do guarda-roupa), não se poderia compreender como é que este teatro, com todos os seus antigos defeitos, podia dar benefício aos empresários.Muitos desses defeitos subsistem ainda, mas os espectáculos avançam a passos agigantados para a perfeição.
Aqueles a que assisti no primeiro semestre do ano passado eram muito irregulares: uns excelentes, outros péssimos. O castrado Crescentini era então, e é ainda, o melhor artista para papéis sérios.É justamente considerado como um dos maiores cantores do Mundo. Nas tragédias em que ele toma parte, quem faz os papéis de mulher é o castrado Caporalini, que sem ter uma voz comparável à sua, nem por isso deixa de ser um bom cantor e que vai muito bem como actriz. Além destes, há mais, como cantores: Praunn, de origem alemã (a sua voz não pode precisamente chamar-se bela, mas sabe música muito bem e é um actor excelente, tanto nos papéis dramáticos, como nos cómicos de alguma elevação); Schira, com uma voz de tenor melhor do que a de Praunn, mas pior actor em todos os géneros; e, enfim Tavani, excelente baixo e bom cómico, mas mauactorem peças sérias,das quais não podeainda, infelizmente, ser dispensado. Os restantes são: Gaetano Neri, razoável em papéis de espalhafato; Bologna e Rastrelli, figuras subalternas e sempre igualmente más; e os castrados Domenico Neri, Pepi, Bonini e Cavanna, que representam papéis de mulher. Estes últimos, quer como cantores, quer como actrizes, são de todo o ponto lamentáveis, e em cada espectáculo recebem do público novas demonstrações de desagrado.
A sorte desses pobres mutilados é bem digna de lástima. Os seus progenitores, submetendo-os a essa terrível operação, imaginaram prepará-los para grandes destinos, mas não fizeram deles senão verdadeiros miseráveis.Para esses desgraçados o purgatório começa-lhes com a vida.
O maquinista, cenógrafo e arquitecto é o Senhor Mazzoneschi, natural de Roma e artista muito hábil.O guarda-roupa é um alfaiate português de nome Domingos de Almeida, que há muitos anos exerce, com louvor, esta profissão e que,durante algum tempo, dirigiu o teatro italiano como empresário. Diz-se que é um homem tão hábil como rico. O seu guarda-roupa faz-lhe honra.
O director de bailados que se contratou o ano passado, chama-se Rossi. Os seus recentes trabalhos mostram que é dotado de fértil e genial invenção; mas, a princípio, lutou com dificuldades para suprir a falta de pessoal competente.Não há aqui um único dançarino francês.
Os dois italianos que valem alguma coisa chamam-se Nichili e Franchi; são empregados nas suas danças nacionais, mas, como é sabido, a Itália não é a pátria dos grandes dançarinos.Il nous faut des français pour la dance, et des italiens pour le pantomime, como se diz à maneira de provérbio.
Nichili tem, realmente, grande talento para a pantomima, mas, até hoje, raras vezes tem tido ocasião de se mostrar em todo o seu brilho.Os outros,cujo número ascende a 8 ou 10, são péssimos figurantes, posto que alguns se exibem no pas de deux, de trois et de quatre.
É claro que metade deles fazem papéis de mulher.A primeira dançarina é um membrudo rapagão, de cara rapada, mostrando o fundo negro da barba, sem a menor graça feminina no aspecto. Faz trejeitos com a figura meio desengonçada, esforça-se, por vezes, nos chamados grands tours de jambe, pula em repetidos entrechats, faz piruetas que o obrigam, de ordinário, a sair do sítio onde devia estar, e, por último, mostra-se perfeito na arte de saltar.
Os outros, com poucas excepções, são aptos apenas para o género grotesco, e, por isso, não perdem ensejo de pôr em relevo esse feitio.Dão saltos extraordinários a cada instante e tomam, por vezes, posições tão horríveis e perigosas que me vejo forçado a afastar os olhos.
Mas nem por isso deixam de ser furiosamente aplaudidos por uma grande parte do público.Não é isto para admirar, porque só com larga cultura e longa prática é que o espírito grosseiro de certos homens consegue abrir-se ao encanto da verdadeira beleza. De resto, é da própria natureza das coisas que os naturais de um país não possam elevar-se à compreensão justa de uma arte que noutras terras se exerce com maior perfeição, sem primeiro as ter percorrido ou visto, pelo menos, as suas mais altas produções, para aprenderem a distinguir o que é bom do que é medíocre e poderem, dessa maneira, educar o gosto.
Um mal compreendido patriotismo induz também muitos a antepor, obstinadamente, as próprias instituições às que se encontram em terra alheia. Esses, em verdade, acreditam, de boa-fé, que tudo quantolhes agrada deve ser,por força,deumvalor extraordinário.E se isto é vulgar em muitos casos, mais o é, talvez, em questões deteatro.Agente deve precaver-se,emboravivamente impressionada pelo talento de qualquer artista, de o classificar logo, qualquer que seja o seu género, como o non plus ultra da Arte.
Os bailados, aqui, não fazem parte da acção dramática, nem mesmo têm relação com ela. Findo o primeiro acto, que frequentes vezes, acaba com choros e lágrimas, dá-se começo, passado um instante, ao bailado-pantomima, cujo entrecho é, de ordinário, uma aventura de amor com a primeira dançarina - o finíssimo rapagão a que me referi. Essa aventura, como as que na vida se passam no mesmo género, compõe-se de ciúmes, amuos, infidelidades, etc., etc., etc., até que, passados uns bons momentos, termina atingindo o almejado fim. Em seguida, retoma-se a peça capital interrompida, aparecendo no segundo acto as mesmas doloridas personagens do primeiro; mas os espectadores podem estar certos de que as suas aventuras amorosas acabam sempre mais lamentosamente que as dos amantes do bailado-pantomima.Esta descrição que deixo exposta diz mais o que eram os espectáculos há alguns meses do que aquilo que são agora, e aquilo que devem ser de hoje em diante.
Três novas actrizes e uma dançarina foram, com autorização do príncipe regente, contratadas por seis meses. Mariana Albani substituiu o castrado Caporalini em certos papéis,e foi entusiasticamente aplaudida, mais pelo prazer da novidade do que pelo talento, que é bastante medíocre, tanto na representação como no canto.Luísa Gerbini, que chegou no Verão passado, dava, a princípio, concertos de rabeca, mas foi, depois, escriturada também como actriz.
Esses concertos realizavam-se no mesmo teatro, nos intervalos dos espectáculos, sempre com enchentes à cunha. Mademoiselle Gerbini é discípula de Viotti.Os conhecedores dizem que é superior a todas as virtuoses conhecidas. A princípio chamavam-lhe, nos cartazes, célebre professora, mas, agora, esses empolados epítetos de célebre professora, famosa senhora, e outros foram postos de parte e, nos cartazes, lê-se simplesmente: Esta noite Luigia Gerbini dará um concerto de rabeca.
Quando aparece em cena é sempre recebida com muitas salvas de palmas, mas logo à primeira arcada faz-se um tal silêncio entre os dois mil espectadores atentos que não se pode imaginar mais profundo o silêncio do próprio vácuo. Todos os olhos seguem, avidamente, os movimentos do arco. À menor pausa rompe, daqui e dacolá, um ou outro bravo, que involuntariamente se escapa dos lábios num murmúrio abafado; mas, quando a artista pára para descansar, as palmas comprimidas estalam com uma violência que parece delírio.Os maestros italianos que estão aqui dão hoje as mãos à palmatória e sentem-se vexados da inveja que mostraram, afirmando insidiosamente que ela devia perder imenso tempo a exercitar-se nos trechos que executava. Logo que esta mesquinha insinuação, que andava de boca em boca, chegou aos seus ouvidos, Mademoiselle Gerbini prontificou-se a tocar, à primeira vista, qualquer música, por mais difícil que fosse. Para essa prova, o maestro Federici apresentou-lhe algumas sonatas,que elaexecutou imediatamente; mas os músicos da orquestra que a acompanhava atrapalharam-se e apanharam várias reprimendas. Desde então ninguém mais se atreveu a dizer coisa nenhuma, achando todos mais útil juntar a sua voz ao coro geral de ilimitados louvores por esse talento, verdadeiramente grande, na mais alta significação da palavra.
Como actriz, Mademoiselle Gerbini também não é má. É ela quem actualmente faz a maior parte dos papéis trágicos, embora a acusem, fundadamente, de conduzir a acção com demasiada frieza e falta de vida. Não se lhe faz, porém, favor nenhum considerando-a como uma boa e segura cantora. A voz é clara, forte e agradável.A terceira actriz chama-se Joaquina Lapinha. É natural do Brasil e filha de uma mulata, por cujo motivo tem a pele bastante escura. Este inconveniente, porém, remedeia-se com cosméticos. Fora disso, tem uma figura imponente, boa voz e muito sentimento dramático. A nova dançarina, Giuseppa Radaelli Pontigi, veio de Madrid no princípio deste ano, fugida à perseguição de certa dama espanhola, a quem ela deu motivos para ter ciúmes. É bem galante na dança italiana e tem, de facto, um grande talento para a pantomima. Foi com estes novos artistas que principiou, auspiciosamente, a levantar-se o teatro italiano.
O que aqui se leva à cena com mais frequência são as chamadas Óperas Sérias ou, para falar mais propriamente, Tragédias Líricas.Alternam-se, no entanto, de tempos a tempos, com comédias, dramas e óperas cómicas. O repositório do teatro é constantemente enriquecido com novas peças.
Entre as melhores tragédias devo mencionar: Dido abandonada, Axur, Rei de Omnuz, Semíramis, Horácios e Coriácios, Julieta e Romeu, Lucius Sabinus e D. Inês de Castro.Esta última tragédia é tirada da História de Portugal e, tanto pelo assunto, que é emocionante, como pelo facto de interessar mais de perto o país, exerce uma tal impressão que me parece curioso fazer dela um compte rendu. (...)
Esta peça é uma imitação da tragédia portuguesa do mesmo nome.O autor chama-se Ângelo Talassi, poeta estemporaneo del'atual servicio de Sua Alteza Reale.
Pelo que diz respeito à parte poética, não pode comparar-se a Metastásio, nem mesmo a outros autores italianos. (...)A música é adaptada de Paesiello e de outros mestres célebres. (...)
Entre as peças joco-sérias em que o cómico e o dramático se entrelaçam, devo notar o Raul de Créqui, ou como se lhe chama na Suécia, Folke Rirgersson.O guarda-roupa e o cenário - força é confessá-lo - são aqui excelentes e muitíssimo apropriados para a ilusão.
O herói da peça arranca lágrimas de muitos olhos, e o ridículo carcereiro, que representa muito bem o papel de bêbedo, faz-nos, quase ao mesmo tempo, rir a bom rir. O castrado Caporalini, no papel de filha do carcereiro, representa magistralmente, mas a Mariana Albani, como Adélia, faz um trabalho pouco interessante. Camila ou a prisão subterrânea, O Barbeiro de Sevilha e O Desertor, peças que eu já tinha visto em Estocolmo, também se representam aqui de quando em quando.Nesta última, Gaetano Neri é admirável, como velho coronel.
Não há dúvida que, actualmente, neste teatro, não se poupa nada para tornar brilhantes os espectáculos. A maior parte das peças sãocheiasdeenredo e decorrem entre asmaisbelas ornamentações, que muitas vezes deixam o espectador maravilhado. Se o empresário consegue mais algumas figuras de merecimento, especialmente para o corpo de baile, ninguém mais poderá queixar-se. Mas, mesmo com referência aos bailados, já se nota uma grande diferença desde que foi contratada a nova dançarina, cuja estreia se realizou em 29 de Janeiro, com o novo bailado-pantomima composto pelo Sr. Rossi e intitulado Telémaco na ilha de Calipso. A debutante fazia de Calipso, mas o público teve ainda de contentar-se com um macho no papel de Deusa das Graças.Como um grande número de espectadores nunca tinha visto uma dançarina fêmea, Mademoiselle Radaelli foi recebida com os mais vivos aplausos. Ela, porém, merecia-os, e merecia ser animada pelo talento que mostrou. O seu papel obrigava-a a estar em jogo quase constantemente, mas nem por isso o público entusiasmado a deixou partir sem bisar o último solo. À excepção de Nichili, que fazia o Telémaco, e de um rapaz no papel de Cupido, os outros deram os seus melhores saltos, mas quase em vão.
Ouviram-se palmas ensurdecedoras,que pareciam rebentar os tímpanos. Muitos gritavam e juravam que nunca deixariam de ir ao teatro sempre que ela dançasse.Se esta exaltação continua por muito tempo, as autoridades, que neste ponto com tanto ardor zelam os bons costumes, terão de banir, outra vez, as mulheres do teatro, visto que por causa desta já tem havido barulhos, que vão de mal a pior. Nas noites em que Mademoiselle Radaelli não canta, os frequentadores da plateia escusam de recear apertos; mas, quando nos cartazes se lê hoje dançará a primeira bailarina, cai lá tudo e, logo de manhã cedo, ficam tomados todos os lugares das primeiras bancadas.
Findo o primeiro acto da peça principal, quando o bailado-pantomima vai começar, é necessário pôr travessas entre os bancos, até ao ponto de interceptar as passagens - tanta é a gente que deseja ver!Mas concluído o bailado, quase todos os amadores se vão embora. Nos camarotes, porém, segundo corre, não é rara a falta de senhoras, o que muitos consideram - dado o manifesto desprezo do belo sexo nacional por tudo o que, no seu pensar, é contrário às conveniências - como um índice de maldade.
As pernas nuas da dançarina, pelo extraordinário do espectáculo, põem fora de si toda a gente - os homens de gozo; as damas de indignação, tão grande é neste país o pudor feminino! Contudo, não há muito tempo ainda, ouvi um peralta exprimir-se desta maneira: Aujourd'hui, dizia ele, que les femmes prennent tout de soin pour couvrir même la pointe de leur pieds en public, elles sont devenues plus faciles a montrer l'ensemble de leurs charmes à chacun de nous en particulier. Mas um tal propósito é sem dúvida calunioso... Quando Mademoiselle Radaelli fez benefício, mostrou de novo grandes recursos num novo bailado-pantomima de carácter cómico chamado A Camponesa na Corte. Desde que estou aqui nunca houve benefício algum com tamanha concorrência.Em Lisboa há, também, um Teatro Nacional Português, na Rua dos Condes. As actrizes que nele trabalham são todas homens, excepto asenhora Serra,que não há muito obteve permissãode representar.
Mas, com o tempo, muitas outras mulheres autênticas vão ser, decerto, escrituradas.Vi lá um cabeleireiro fazer o papel de uma ilustre e fina dama, e um grande, robusto e membrudo latagão o de uma galante namorada. Os espectáculos deste teatro são raras vezes frequentados pela primeira sociedade. Plateia e camarotes enchem-se de gente das classes médias; na plateia vêem-se, mesmo, espectadores que se não diferenciam dos mais ínfimos operários. Os actores não deixam de ter a sua habilidade, mas no cómico - enredo e interpretação - são, quase sempre, do género mais baixo. Às vezes também representam tragédias e comédias, mas o que lá se prefere são os dramas, cujo assunto é tirado da vida ordinária, e em que o sério e o ridículo se alternam incessantemente. Entre estes últimos devo mencionar um intitulado O Remendão, que leva ao teatro, sempre, maior concorrência e que, durante algum tempo, antes da Quaresma, se representava quase todos os dias. (...)
A troupe portuguesa tinha, dantes, o seu teatro na Praça do Salitre, mas mudou-se de lá, para esta casa que é mais espaçosa, há bastante tempo já. Era aqui que, outrora, funcionava o teatro italiano. Tem quatro ordens de camarotes, ficando metade das frisas ao mesmo nível da plateia. Estão elegantemente pintados e ostentam, aqui e acolá, candelabros simples. Sobre a plateia, justamente no meio, pende, suspenso, um grande lustre, que não pode içar-se; está fixo. No proscénio há uma espécie de braseiro em chamas para iluminar a cena, paralelamente à rampa. O pano exterior de boca, bem pintado, representa Cupido tomando a foice de Saturno e um Silfo segurando este pelos raros cabelos. Noutro plano vêem-se Neptuno, Mercúrio, Apolo e outras divindades.O pano interior,que desce nos intervalos,durante a representação, tem apenas um grupo, mas gracioso e de belo colorido.
São todos de encosto os bancos da plateia e esta é como um pouco mais de metade do teatro italiano.A orquestra, que não ultrapassa de muito um terço deste último teatro, tem, no entanto, músicos hábeis.Nas últimas três semanas que precederam a Quaresma representava-se, todos os dias, em ambos os teatros. Apesar disso, os italianos não davam a mesma peça muitas vezes a seguir; ao contrário, variavam quase todos os dias, excepto quando era peça nova, que é costume, a princípio, representar-se algumas noites consecutivas. É realmente para causar grande surpresa e admiração ver os mesmos artistas, entre os quais alguns de talento notável, representar,noites a fio, papéis tão diversos e de tão trabalhosa execução.
Nos meus ousados juízos sobre o teatro em Portugal, imaginava eu que os artistas, pelo menos os principais, precisavam de alguns dias de descanso entre cada representação da mesma peça, e que seria necessário substituí-los ao cabo de algum tempo para não adoecerem inevitavelmente. Supunha eu, também, que, para a reprise de peças já representadas eram indispensáveis novos e repetidos ensaios. Mas nada disso é assim, e não é sem espanto que vejo neste país as divindades da cena consentirem em se mostrar tantas vezes, e em tão variadas criações, a nós simples mortais, só pelo apreço que elas dão às oblatas do nosso reconhecimento.De facto, os salários dos artistas são pagos mensalmente, e quem não trabalha não tem direito a ele[s].
Cada um emprega por isso todos os recursos do seu talento em conquistar o agrado do público, sem o qual é logo posto na rua. Com esse intuito não há canseiras nem fadigas a que os artistas se não sujeitem para nos darem as mais variadas e melhores representações que nas circunstâncias presentes são possíveis. Temos, assim, razões bastantes para esperar que os espectáculos sejam cada vez mais interessantes e que, dentro em breve, atinjam a sua mais alta perfeição.Crescentini é o favorito do público; sempre que aparece em cena recebe as mais lisonjeiras demonstrações de agrado.
Na verdade, qualquer que seja o país em que ele se apresente, este artista será sempre uma grande glória da cena.Sem ter ouvido cantar Crescentini, ninguém poderá fazer ideia do que há de grande na arte que ele cultiva. A fábula de Orfeu quase que pode admitir-se como verdadeira quando se lhe ouve a ária (conhecida também entre nós) Ombra adorata aspettami, que ele canta na Giulietta e Romeo sobre a sepultura da amante, depois de ter tomado o veneno.
Luigia Gerbini, essa não só reúne a maior soma de aplausos pelo seu talento de rabequista e pela sua bela voz, como tem a habilidade de se fazer por todos respeitar pelas suas virtudes.Com a chegada da nova bailarina, o maestro Rossi teve ocasião de mostrar, mais uma vez, o seu talento na composição de bailados-pantomima. É realmente dotado de grande fantasia e de muito feliz talento inventivo. Mostrou-o bem nos dois novos bailados, de género tão diferente um do outro.
Mademoiselle Radaelli encantou, positivamente, o público no dia 22 de Fevereiro com o baile espanhol chamado Bolero, que se dança ao som das castanholas. Os entendidos pretendem que essa dança não era o verdadeiro bolero; fosse o que fosse, era muito bela, embora bastante voluptuosa. Radaelli trazia vestido um trajo popular espanhol, e as salvas de palmas e os bravos eram tantos e tão repetidos que não deixavam ouvir a orquestra.A dançarina, apesar de visivelmente fatigada do longo bailado-pantomima em que tomou parte no 1º entreacto, foi grosseiramente obrigada a repetir a dança espanhola. Quem mais desenfreadamente vociferava, segundo o costume, era uma troupe de moços viajantes, que neste país se conduzem com o mesmo desregramento dos frequentadores do Entertainment, em Sadler Wells ou do Haymarket Theater, em Londres.
Na noite antecedente, em 21 de Fevereiro, foi pateada uma nova farsa a que chamavam Casamento por Astúcia. A peça era de mau gosto mas, na mesma noite, fizeram benefício dois tocadores de buzina, os irmãos Tetrides, de Viena, com uma receita de 4000 cruzados (2000 Riksdalers Hamburgo Bank).A peça principal era o Raul de Crequi. No intervalo do 1º para o 2º acto tocaram esses dois irmãos, que são, na verdade, mestres consumados. Simularam um eco que causava admiração.
Durante o bailado, depois do 2º acto, os solos da nova dançarina eram acompanhados por eles nas respectivas buzinas. Mas, como então os espectadores não tinham outros sentidos senão o da vista, as palmas rompiam a cada instante e não deixavam ouvir coisa nenhuma.Terminada a peça principal, começou a referida farsa, cujo 1º acto decorreu sem incidente de maior. Quando, porém, o 2º ia a principiar rebentou um tal barulho de pateada, de assobios, de gritaria e de bengaladas que parecia um inferno!
A farsa foi retirada da cena, embora já estivesse anunciada para o dia imediato e para os dias seguintes.O castrado Caporalini, que na farsa desempenhava o papel de primeira dama, ficou tão despeitado que nunca mais apareceu em cena e diz-se que por esse motivo se vai embora.
Nos dias 23, 24 e 25 de Fevereiro, em que este ano caiu o Carnaval, houve iluminação em todos os camarotes durante o espectáculo.Na Terça-feira Gorda foi a última récita antes da Páscoa. (...)
Esta carta já vai muito longa mas para encher até ao fim o papel que me resta, sem fugir ao meu assunto, vou falar de uma publicação que apareceu recentemente, intitulada: Dissertação histórica e crítica sobre as representações teatrais por Francisco Lourenço Roussado. Foi dada à luz pouco antes do príncipe ter assumido a regência e, provavelmente, com o fim de contribuir para que ao teatro fosse concedida maior liberdade.O escrito é dividido em 9 parágrafos. O primeiro contém a definição da representação teatral e a classificação dos espectáculos, as opiniões dos eruditos a esse respeito e o plano para os trabalhos em questão. Um espectáculo teatral define-o o autor da seguinte maneira:
A representação de qualquer sucesso, que em parte se densenrola por si próprio e em parte é narrado em cena.Divide os espectáculos em tragédias, comédias e, depois de ter provado com grande pompa a importância desta classificação e mostrado até que ponto divergem sobre tal assunto as opiniões contraditórias dos Mestres, entra corajosamente no parágrafo segundo, onde trata da origem e do objectivo da tragédia e da comédia.
Scaliger de Poet, Moratius de arte poética são as autoridades em que ele se estriba. No terceiro parágrafo descreve os espectáculos entre os romanos - as faltas, os defeitos, os erros que o paganismo neles introduzira e a maneira como os padres da igreja os expurgaram de tais inconvenientes, citando as suas opiniões sobre o assunto. Neste ponto apanham os romanos severas reprimendas, por causa da sua religião, e em cada página aparecem os padres da igreja, uns após outros, combatendo o teatro em latim. O maravilhoso toma o nome de idolatria, o teatro chama-se Templum daemonii, Consistorium lascivae e muitas coisas piores e citando-se, entre outros exemplos pavorosos, o de uma actriz possessa, por cuja boca o diabo soltava estas palavras: Justissime quidem feci; in meo eam inveni.No quarto parágrafo trata das importantes reformas introduzidas no teatro, sob o domínio dos príncipes cristãos, e mostra a diversa compreensão que dele formaram, posteriormente, muitos homens notáveis pela ciência e pela virtude.
Nesta altura o autor deixa São Tomás de Aquino, denominado Doctor Angelicus, fazer um minucioso inquérito sobre o assunto: primeiramente, se era permitido ao homem procurar divertir-se; em segundo lugar, se os grandes prazeres eram lícitos; depois, se os divertimentos eram necessários nas sociedades humanas; e, por último, quando e em que medida o homem pode e deve divertir-se, pondo em relevo, a este respeito, os méritos edificantes das representações teatrais. Munido com estas armas, o autor passa em revista no parágrafo quinto todas as objecções contra a permissão de espectáculos entre cristãos, para os pulverizar no parágrafo sexto com a ajuda do bispo São Francisco de Sales, Cícero e Monsieur Amelot.No parágrafo sétimo encaram-se os espectáculos sob o ponto de vista da sua necessidade social, e explanam-se os motivos que levaram os príncipes cristãos a permiti-los. Este parágrafo desvaloriza-se por causa de uma excepção, mas é longa de mais para a transcrever. No parágrafo oitavo indica meios fáceis e adequados para evitar que os abusos se propalem no teatro. Propõe a criação de um tribunal dramático, com o fim de escolher as peças e fiscalizar os costumes dos artistas, terminando por afirmar, com toda a razão, que nenhuma sátira contra pessoas determinadas deve ser permitida. O parágrafo nono é uma recapitulação de todo o livro, o qual termina sintetizando os argumentos comprovativos da necessidade e utilidade das representações teatrais, nas seguintes palavras: Dão alegria ao povo, quer esta se encare fisicamente, como sendo o maior bem que o homem possui e sem o qual tudo o mais é desprovido de valor - quer se encare moralmente como o meio mais propício para evitar a tristeza e o fastio que são perturbações e desordens. Dão brilho ao Estado, tanto na paz como na guerra, e impelem a nação ao heroísmo, exercitando-a, pouco a pouco, no conhecimento da virtude. Previnem a depravação e a licença, que derivam da falta de ocupação - falta que é uma das maiores calamidades de um povo. Os abusos, quaisquer que sejam, sobretudo nos Estados monárquicos e cristãos, podem facilmente ser evitados.
Como se vê, este escritor alia-se com os padres da igreja para defesa do teatro. Até que ponto esse facto concorrerá para maior fortuna do seu trabalho - isso não sei eu dizer. O que sei é que preciso de ser desculpado por esta longa apreciação de um livro, que, a nenhum respeito, a merecia. Mais tarde voltarei a ocupar-me dos melhoramentos que as circunstâncias actuais, segundo se espera, não deixarão de introduzir nos teatros de Lisboa.Sou, como sempre etc.
(1) Todas as cartas deste epistolário sobre os teatros de Lisboa são dirigidas ao meu amigo ausente W... que no momento da minha partida da Suécia me pediu para lhe transmiritr as minhas impressões a este respeito (N. do A.)